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Publicado em

29/10/2025

Clima sob ataque: como a extrema direita fomenta a crise climática

Desinformação, espionagem e negacionismo estão entre as estratégias para enfraquecer instituições e políticas climáticas.

Por Letícia Queiroz, da Escola de Ativismo

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A extrema direita – grupo político conhecido por articular tendências ultraconservadoras, autoritárias e preconceituosas contra grupos minorizados – tem se espalhado por diferentes partes do mundo e moldado não apenas os rumos da política, mas também a forma como a crise climática é vista e enfrentada. À medida que avançam os debates sobre as mudanças no clima, a extrema direita se articula para reagir às mobilizações em defesa do Planeta. Além de enfraquecer conquistas históricas, esse contra-ataque trava avanços na proteção da Natureza e das populações mais vulneráveis.

No Brasil, há casos de retrocessos encabeçados por políticos conservadores que agridem os biomas e os povos originários e tradicionais. Um dos exemplos recentes é a legislação aprovada após votação do Congresso Nacional, o Projeto de Lei (PL) 2.159/2021. O texto, que ficou conhecido como PL da Devastação, tinha como objetivo fragilizar regras para o licenciamento ambiental e beneficiar projetos que ignoram a crise climática e vão contra a realidade dos desafios ambientais deste século. Segundo ambientalistas brasileiros, essa foi uma das maiores ameaças ao meio ambiente dos últimos anos. O Projeto de Lei foi sancionado pelo presidente Lula, em agosto deste ano, com 63 vetos.

As mudanças climáticas são transformações a longo prazo nos padrões de temperatura e clima no Planeta. As atividades humanas têm sido o principal impulsionador desse fenômeno, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás. A intensidade dessas consequências é marcada por fatores como região, território, cor da pele e classe social.
Fontes: Organização das Nações Unidas (ONU) e Escola de Ativismo

Os políticos da extrema direita que votaram a favor do PL da Devastação fazem parte de uma onda de desmonte do projeto bolsonarista. Uma pesquisa da BBC News Brasil, por meio do Sistema Integrado de Orçamento do Governo Federal (Siop), divulgada em 2021, apurou que o governo de Jair Bolsonaro cortou em 93% os gastos para estudos e projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas nos três primeiros anos da sua gestão. O ex-presidente deixou o governo após uma sequência de retrocessos, como a nomeação de Ricardo Salles – condenado por fraude ambiental – como Ministro do Meio Ambiente, negação de titulações e demarcações de territórios indígenas e quilombolas e ataques a ativistas socioambientais.

Sabotagem global à agenda climática

As ações contra a justiça climática lideradas pela extrema direita atuam em escala global. Em julho deste ano, enquanto ativistas climáticos faziam campanhas para que o PL da Devastação fosse vetado no Brasil, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciava a revogação da política climática do país. Desde que Trump voltou à presidência dos EUA, o governo federal mudou de direção nas políticas para o clima. Conhecido por defender o uso de combustíveis fósseis, atacar ativistas climáticos e negar o aquecimento global, Trump tem dado sinais claros de retrocesso na área. Entre outras mudanças na política energética, o governo restringiu pesquisas sobre a crise climática.

Já na América Latina, o presidente argentino, Javier Milei, também tem mostrado sua postura negacionista diante da agenda climática. Em discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em setembro de 2024, o líder do país, que enfrenta ondas extremas de calor, acusou a ONU de impor “agenda ideológica”. Em 2024, sem explicações, Milei ordenou a saída da delegação argentina da COP 29, em Baku, no Azerbaijão. A postura do presidente ignora os problemas enfrentados pelos cidadãos argentinos. A temperatura no país, no início deste ano, ultrapassou os 40°C e um enorme apagão em Buenos Aires, capital argentina, deixou mais de 600 mil pessoas sem luz em meio a essa onda de calor.

O ativista estadunidense Sean Buchan, coordenador da Unidade de Inteligência da Climate Action Against Disinformation (CAAD) – uma coalizão de cerca de 100 pessoas que lutam contra a desinformação climática sistêmica em todo o mundo –, acredita que a extrema direita se organiza de várias maneiras e que tende a operar de formas diferentes dependendo do contexto local, mas existem padrões.

Sean Buchan, coordenador da Unidade de Inteligência da Climate Action Against Disinformation (CAAD). Foto: Divulgação

“A maioria usa um bode expiatório duplo: o multiculturalismo e o multilateralismo, sendo que este último é frequentemente apresentado em teorias da conspiração racistas. Assim, a ação climática é um contraponto conveniente para os movimentos de extrema direita que se sobrepõem ao populismo, pois a resolução da crise requer cooperação internacional e mudanças rápidas que tais movimentos podem explorar. Tal como o conservadorismo tradicional, o movimento recorre ao manual da desinformação. Enquanto os movimentos conservadores tradicionais utilizam redes de dinheiro sujo, geralmente proveniente de indústrias poluentes, para espalhar informações falsas, os partidos, políticos e figuras da extrema direita tendem a espalhar diretamente a desinformação, utilizando-a como ferramenta para aumentar a popularidade”, explica.

Multiculturalismo: termo que descreve a existência de muitas culturas numa localidade. Ele parte do reconhecimento de que grupos com identidades, tradições, línguas e religiões distintas devem ter seus direitos respeitados e suas expressões culturais preservadas.

Multilateralismo: forma de organização em que vários países cooperam e tomam decisões em conjunto sobre determinado tema, baseados em regras e instituições comuns.

Populismo: conceito utilizado para se referir a um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao “povo”.

“O governo Trump se comporta de muitas maneiras como uma autocracia [forma de governo na qual há um único detentor do poder político-estatal], incluindo sua aversão à realidade quando ela é inconveniente. Ao contrário de qualquer governo anterior, o de Trump está negando diretamente a ciência climática estabelecida e usando isso como justificativa para desmantelar as políticas climáticas em um ritmo preocupante. Ele também está tentando forçar outras nações e blocos a quebrar compromissos multilaterais por meio do comércio coercitivo de seus produtos que destroem o Planeta”, diz Buchan.

“Além disso, a indústria de combustíveis fósseis parece estar feliz em se aliar a tal autocracia, talvez como um último esforço para enriquecer antes que a indústria se esgote para sempre. Centenas de milhões de dólares estão fluindo da indústria fóssil para organizações que apoiam o governo. Por exemplo, dos 45 grupos que lutam contra os direitos trans nos EUA, 80% receberam financiamento da indústria de combustíveis fósseis”, completa.

Apesar dos desafios, o ativista diz estar esperançoso e animado com a quantidade de energia dos movimentos contra a desinformação e em prol do clima que têm se unido por justiça, equidade, diversidade e inclusão. “Há muita organização acontecendo e muitas pessoas que se importam.”

Estratégias diversas

Em diferentes partes do mundo, a extrema direita tem recorrido a um conjunto de estratégias que incluem o negacionismo científico, a disseminação de desinformação e a perseguição a ativistas socioambientais, criando um ambiente hostil para quem defende a Natureza e os direitos humanos. Mas isso também parte de órgãos do Estado e, em alguns lugares, comandados por políticos de todos os espectros.

No Brasil, segundo país que mais mata ativistas ambientais no mundo, conforme a pesquisa da organização internacional Global Witness, publicada em setembro de 2024, a situação não é diferente. Lideranças indígenas do Pará afirmam que informações pessoais e sigilosas de pessoas ameaçadas, fornecidas ao Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH) — política criada para garantir a segurança de quem atua na linha de frente — podem estar sendo utilizadas de forma indevida, transformando um mecanismo de proteção em um risco adicional para os próprios defensores.

Auricélia Arapiun, liderança do povo indígena Arapiun, no Pará, e integrante do conselho da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), conta que a ocupação histórica, liderada por indígenas a favor da educação no estado, mostrou que lideranças, ativistas e defensores são espionados. Os protestos entre janeiro e fevereiro deste ano exigiam a revogação da Lei 10.820/2024, que abriria caminho para a conversão de aulas presenciais em Educação a Distância (EAD) nas comunidades quilombolas, ribeirinhas e terras indígenas.

Auricélia Arapiun, integrante do conselho da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira. Foto: Divulgação

Auricélia conta que, além de monitorar, o Estado usa a tática de divisão para enfraquecer a luta dos povos indígenas. “A tática que ele usou foi de colocar indígena contra indígena, movimento contra movimento. O que aconteceu na ocupação da Secretaria Estadual de Educação mostra muito o que nós vivemos na era Bolsonaro, num governo de extrema direita. E o governo do Pará é um governo de direita e age com autoritarismo e extremismo. Nós nos sentimos como se estivéssemos ainda na época do golpe militar, sendo monitorados, e ali o tempo todo havia tentativas de espalhar fake news”, relembra.

Os perigos da desinformação climática

As fake news e outras formas de desinformação são estratégias bem conhecidas para enfraquecer mobilizações por justiça climática. No contexto das mudanças no clima, o termo usado por especialistas é “desinformação climática”.

Thais Lazzeri, do FALA – Estúdio de Impacto, criadora do Mentira Tem Preço e do Observatório da Integridade da Informação, explica que essas desinformações aparecem em formatos variados e que, no Brasil, parte expressiva do conteúdo negacionista e dos ataques a povos indígenas e a políticas ambientais circula em redes associadas à extrema direita.

Thais Lazzeri descreve a desinformação climática como qualquer conteúdo enganoso que questiona a existência ou a gravidade da crise do clima, distorce a ciência e mina a confiança em soluções, inclusive quando usa “meias-verdades” ou omite contexto. O objetivo é criar dúvida suficiente para atrasar a ação em âmbitos mundial, nacional e local.

Thais Lazzeri, do FALA – Estúdio de Impacto. Foto: Wanezza Soares

Thais explica que existe um ecossistema, que muitas vezes
trabalha coordenadamente com múltiplos atores: políticos, influenciadores, veículos e plataformas, empresas com interesse econômico, agências de relações públicas e grupos de fachada. “O objetivo é enfraquecer instituições e políticas climáticas, proteger interesses econômicos e mobilizar base eleitoral por meio da polarização. Não é um post isolado, por isso chamo de cadeia produtiva de mentiras que beneficia todo um ecossistema com poder, influência e dinheiro”, analisa.

Assim como o negacionismo climático, a desinformação sobre o clima também é uma franquia global com filiais locais. Todas as pessoas são impactadas por esse efeito, o que torna ainda mais necessário olhar para a integridade da informação – o direito à informação de confiança — na escala global, nacional e local.

“Quem defende soluções para o clima vai ser alvo, e aí é importante pensar ‘clima’ dentro de uma agenda
intersetorial: educação, saúde, economia, migração, direitos humanos. Por isso, povos indígenas e comunidades tradicionais, defensores ambientais, periferias urbanas e populações vulneráveis a eventos extremos são duas vezes impactados. A mentira viral se torna licença social para atacar quem protege os biomas”, ressalta.

A especialista acredita que as mentiras sobre o clima tendem a aumentar nos próximos anos, especialmente em contextos eleitorais. Isso mostra que a desinformação não é espontânea, mas sim um recurso estratégico de campanha usado para manipular o debate público e minar políticas socioambientais, inclusive de mitigação e adaptação para cidades.

Reconhecendo desinformações climáticas e mitigando danos

Para mitigar os danos, a longo prazo, a solução é a educação midiática e climática local, mas com recortes de gênero, raça e clima, ancorada no que as pessoas já sabem e trazendo-as para pensar junto. “É um processo de alfabetização crítica, que não só explica como a mentira circula, mas também devolve poder às comunidades para questionar e resistir”, aponta Thais.

É interessante também saber identificar as mentiras com maior alcance no cenário nacional. A especialista traz uma lista dos principais pontos de atenção:

  • A ideia de que não é urgente, que podemos esperar para lidar com os impactos das mudanças climáticas;
  • Atacar as soluções sustentáveis, como transição energética justa e agricultura regenerativa, dizendo que são caras ou que não funcionam;
  • Descredibilizar governos, institutos, organizações do terceiro setor;
  • Usar verdades parciais sem contexto para induzir à conclusão errada.

Fique por dentro

  • Governo dos EUA restringe pesquisas sobre crise climática: bit.ly/RCC_14_027
  • MENTIRA TEM PREÇO revela os bastidores da desinformação socioambiental e os interesses políticos e econômicos por trás da indústria de fake news: mentiratempreco.infoamazonia.org
  • Milei acusa ONU de impor “agenda ideológica” a seus membros em discurso na Assembleia-Geral: bit.ly/RCC_14_028
  • O legado de destruição ambiental de Bolsonaro: bit.ly/RCC_14_029
  • Observatório da Integridade da Informação – Clima: oiiclima.substack.com
  • Pistas para identificar, enfrentar e denunciar injustiças climáticas: bit.ly/RCC_14_030
  • Por que o movimento indígena do Pará está mobilizado em defesa da educação? Saiba como somar na luta: bit.ly/RCC_14_031
  • Relatório da Global Witness: bit.ly/RCC_14_032

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