Publicado em
29/10/2025
Jovens lideranças encontram o Cacique Raoni Metuktire e formam frente que busca autonomia na preservação do meio ambiente.
Por Nayara Almeida e Mario Campagnani, da Escola de Ativismo
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Fazer parte da Natureza é também compreender que conceitos como eternidade e imutabilidade têm muito menos sentido do que pensar em alteridades, transformações. O desejo e a vaidade não só de se perpetuar, mas de acreditar que até mesmo a morte pode ser superada é a marca de uma sociedade que, ao fim, tenta se mostrar superior aos demais seres – humanos e não humanos – e caminha a passos largos para um colapso.
A compreensão de que as transformações não são apenas parte da Natureza, mas também algo harmonioso e desejável, pode ser uma boa imagem para pensar sobre um importante ciclo: uma nova Aliança dos Povos. No mês de setembro, na Aldeia Mupá, Terra Indígena Capoto/Jarina, do povo Yudjá/Juruna, no Mato Grosso, surgiu um movimento histórico que agora renova seus quadros, articulações e sonhos. Uma mudança é que, se antes o nome da articulação terminava citando a floresta, agora ela se chama oficialmente Aliança dos Povos pelo Clima.
Com a presença do Cacique Raoni Metuktire, uma das maiores referências indígenas do país, o evento marcou uma passagem de tocha para jovens lideranças, que agora buscam fazer jus à Aliança, movimento histórico dos anos 1980, fundado pelo líder extrativista Chico Mendes e o próprio Raoni, entre outras pessoas, que conquistou vitórias importantes, como a criação das Reservas Extrativistas (RESEX) no Brasil, que visam proteger os meios de vida e a cultura das populações locais, garantindo o uso sustentável dos recursos naturais.
As décadas de vida – a idade oficial é de 93 anos, mas sem comprovação exata do ano de nascimento – não pesam em Raoni quando se observa sua presença, que traz para si os olhares e atenções às falas no ritmo e na língua de seu povo, Mebêngôkre Kayapó. Raoni representa uma forma de pensar o tempo e, no encontro, fez questão de expressar a importância de os mais novos seguirem e encontrarem seus próprios caminhos na luta.
“Eu já estou ficando cansado, não tenho mais aquele fôlego para dar continuidade. Por isso, preciso que alguém faça isso para mim, que dê continuidade nessa luta. Assim, quando eu partir desse mundo, vocês vão estar protegidos também. Eu sou um dos únicos que defendem não apenas o Bem Viver do meu povo, mas de todos”, afirmou Raoni.

O cacique também fez questão de lembrar da importância da palavra “aliança” quando se tratam dos enfrentamentos necessários dos povos da floresta: “Os brancos querem a todo custo nos derrubar, acabar com a gente. E quando vou confrontar essas pessoas, muitas vezes, sinto falta de pessoas me acompanhando. Por isso, é preciso unir todos os nossos parceiros e aliados. Vocês, essa geração nova, precisam manter esses brancos que são nossos aliados, manter essa aliança forte, porque eles estão com a gente. Precisam unir essa força contra outros brancos que querem acabar com a gente. Por isso, a importância dessa aliança.”
As articulações que levaram a essa nova etapa da Aliança
começaram em 2024, quando um encontro do qual Raoni fez parte aconteceu em Belém, na RCOY, a Conferência Climática Regional de Juventudes Latino-americanas. Dali, as comunidades começaram a construção dessa nova campanha, que foi batizada por meio de sonhos. Entre as muitas pessoas que estavam juntas acampadas na reserva indígena, uma imagem começou a aparecer em diversos sonhos: a de uma cobra. O animal, sagrado para diferentes povos, também se faz verbo agora para a nova Aliança.
A gente cobra
Esse é o principal lema da campanha da Aliança dos Povos pelo Clima. E essa cobrança dos povos já mira na COP 30, em Belém (PA). Num espaço em que as negociações ficam centradas em figuras de alto escalão de governos e nos lobbies de empresas, a Aliança tem como objetivo pressionar os negociadores pela garantia da autonomia territorial e reparação histórica por meio de mecanismos efetivos de financiamento climático. No lugar da antiga tutela, que coloca as comunidades tradicionais e originárias relegadas à subalternidade, sem tomar decisões sobre as políticas públicas e o alocamento de recursos, elas exigem agora serem responsáveis pelas decisões, com gestão e execução dos fundos.
Uma das porta-vozes desse novo momento é Angélica Mendes. Neta da liderança extrativista e membro do Comitê Chico Mendes, ela afirma que o objetivo na COP é estar em todos os espaços, como a Cúpula dos Povos e as zonas oficiais, levando essa mensagem. “Há uma dívida histórica e ela tem que ser paga agora. Os povos indígenas, as comunidades, precisam de ajuda para defender seus territórios e a Natureza. E essa ajuda precisa vir em forma de recurso, em financiamento, para que a gente consiga dar continuidade aos nossos projetos, porque a gente sabe que a maioria do financiamento não chega nos territórios. E, muitas vezes, até pelo próprio governo que acaba não dando autonomia aos povos”, explicou a ativista.
Cuidar da Natureza também é um trabalho
Um exemplo de como é importante a chegada direta dos recursos aos territórios é o trabalho dos extrativistas nas reservas. Na relação e cuidado com a Natureza, essas comunidades necessitam de acesso a projetos e fontes de recursos que permitam que o fruto de seus trabalhos chegue aos consumidores. O mesmo vale para comunidades ribeirinhas e indígenas, que precisam ter a liberdade assegurada, mas também incentivo para suas práticas tradicionais de manejo, caça e coleta.
“A gente tem a criação das reservas extrativistas, mas, para que as pessoas permaneçam lá, fazendo esse papel tão importante de defesa da floresta, precisamos de melhores condições. A Aliança surge dessa união entre jovens indígenas, extrativistas, quilombolas, beiradeiros, pescadores artesanais, e todos com esse objetivo comum. Embora diferentes culturas e identidades, a gente está buscando a defesa dos territórios”, ressalta Angélica.

Os desafios dos povos brasileiros nessa luta por condições dignas não é, infelizmente, um traço exclusivo do país, conforme lembrou Andrea Ixchíu, liderança maya da Guatemala, que faz parte da rede “Sul x Sul”, iniciativa do Instituto Procomum. A COP, novamente, é a oportunidade de encontro desses povos e comunidades, que podem trocar não apenas sobre os problemas que enfrentam, mas também soluções e inspirações, como a que ela afirma te encontrado com Raoni: “Sou de uma aliança de povos da Mesoamérica, onde nos reunimos para contar outras histórias e, principalmente, para honrar pessoas como o senhor, que nos ensinaram que o futuro é ancestral. Seguimos seu exemplo, seguimos o seu legado. E estamos aqui porque vamos seguir lutando por nossas terras, juntos como povos.”
Para Val Munduruku, jovem ativista indígena paraense que também integra a Aliança, o chamado do “vovô Raoni” – como ela e outros carinhosamente chamam o ancião – é também a oportunidade de convocar outros jovens na luta pelo clima durante a COP, como ela fez questão de ressaltar, falando diretamente a Raoni no encontro da Aliança:
“A gente está feliz de estar aqui como juventude, relançando essa Aliança dos Povos pelo Clima. A continuidade que está sendo traçada ano a ano. Agora, assim como o senhor fez esse chamado para nós, eu quero chamar a juventude para a defesa
dos nossos territórios, rios e identidades.”
>> Conheça o manifesto da Aliança dos Povos pelo Clima em: povospeloclima.org
A história da antiga Aliança dos Povos
Em entrevista à Revista Teoria e Debate, da Fundação Perseu Abramo, em 1989, Ailton Krenak, um dos fundadores da Aliança dos Povos, a definia assim: “A Aliança dos Povos da Floresta é uma iniciativa da União das Nações Indígenas (UNI) e do Conselho Nacional dos Seringueiros, que inclui as populações ribeirinhas e comunidades de colonos. A coordenação é constituída por representantes indígenas, seringueiros e ribeirinhos. É um conselho de representantes. Nós temos pontos em que andamos juntos, mas cada uma das nossas populações tem a sua identidade própria.”
Formalizada em 1987, a aliança foi um ator essencial na garantia de demarcação de terras indígenas, assim como na criação da política e da primeira Reserva Extrativista do país, a Resex Chico Mendes, em 1990, dois anos após o assassinato do líder seringueiro em Xapuri, no Acre.
Assista a série “Vozes da Floresta – A aliança dos povos da Floresta de Chico Mendes a nossos dias”, produzida pelo Le Monde Diplomatique Brasil, em 2020, com 16 entrevistas e um minidocumentário a respeito da Aliança e as lutas pela preservação de 1987 até os dias atuais.
>>Acesse: bit.ly/RCC_14_036
