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29/10/2025

Vozes em Ação 14ª edição: Lucia Baré e Neidinha Suruí

Vozes em Ação que integra o Em Destaque da 14ª edição da Revista Casa Comum apresenta as histórias de Lucia Alberta Baré e Neidinha Suruí.

Por Luciene Kaxinawá

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Lucia Alberta Baré durante o lançamento da Resolução Conjunta nº 12, de 13/12/2024, sobre o registro civil de pessoas indígenas no Brasil, na sede do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em abril de 2025. Foto: Arquivo pessoal

Às margens do Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), nasceu Lucia Alberta, mulher Baré, filha e neta de mulheres fortes que lhe ensinaram a importância da resistência e da educação. Hoje, ela ocupa o cargo de diretora de Gestão Ambiental e Territorial (Digat) da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), mas sua caminhada começou muito antes, nas memórias de infância em sua comunidade e na transição para a cidade ainda aos nove anos.

Lucia cresceu em um contexto em que os parentes (como um indígena chama o outro indígena) falam diversas línguas, tendo em vista que, em São Gabriel da Cachoeira, há mais de 23 povos indígenas e 19 línguas faladas, quatro delas reconhecidas como cooficiais. “É muito comum termos parentes poliglotas lá no meu município. Poliglotas de pelo menos três a quatro línguas indígenas, além do Português e do Espanhol. É um verdadeiro caldeirão linguístico do Brasil também”, afirma.

A semente da educação indígena

Ainda jovem, Lucia passou em concurso público e iniciou sua trajetória na Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira. Foi quando presenciou e participou do marco histórico da implantação das escolas indígenas no Alto Rio Negro. Ao lado de lideranças como o professor Gersem Baniwa, percorreu comunidades orientando projetos político-pedagógicos e apoiando a produção de materiais didáticos em línguas indígenas.

Mas, esse processo não foi simples, pois significava romper com uma herança de décadas de integração forçada, quando as políticas nacionais buscavam apagar identidades indígenas. “Foi uma trajetória bem desafiadora, porque foi no momento em que os indígenas daquela região estavam saindo de uma dependência muito grande das missões religiosas e assumindo a autonomia de suas escolas, como professores e diretores. Porém, ao mesmo tempo, havia uma dificuldade em discutir escolas indígenas, porque, para eles, voltar a ser indígena, aumentaria o racismo, tendo em vista que eles vieram de uma época do plano de integração nacional, no qual a meta era integrar todos os povos indígenas à sociedade nacional”, se recorda. Mas, com a Constituição de 1988, as comunidades começaram a reconhecer a escola indígena como instrumento de autonomia e protagonismo.

Raízes familiares e inspiração feminina

Lucia Alberta Baré durante a participação na IV Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília. Foto: Arquivo pessoal

Os pilares de Lucia são as mulheres de sua família: as avós, materna e paterna, que moldaram sua força e coragem; e sua mãe, guerreira incansável, transmitiu o valor do estudo, da escuta e da inovação. Lucia recorda, com admiração, como a mãe conseguiu transformar o que era visto como simples, como a formiga saúva, em um ingrediente valorizado e símbolo de resiliência e ousadia. “Minha mãe é muito aguerrida nesse sentido. Ela pegou a formiga saúva, por exemplo, e ajudou a transformar num dos ingredientes mais sofisticados que têm em restaurantes, no Brasil e no mundo”, diz com orgulho.

Essa base de referências femininas lhe deu firmeza para trilhar a vida pública e, também, para enfrentar os preconceitos que surgiram ao ocupar espaços de poder.

Mulheres indígenas e a luta climática

A trajetória de Lucia na Funai é marcada tanto por conquistas quanto por desafios. Ao assumir cargos de direção, enfrentou o peso do racismo estrutural: ser mulher, indígena, mãe e originária do interior do Amazonas foram fatores usados contra sua legitimidade. “Muitas pessoas não aceitam ser comandadas por indígenas”, relata. Ainda assim, reafirma sua postura de mostrar que todos e todas têm plena capacidade de liderar políticas públicas, sem tutelas.

Hoje, Lucia também é uma voz ativa nas pautas ambientais e climáticas. Ela destaca que as mulheres indígenas estão na linha de frente da proteção dos biomas brasileiros, enfrentando diretamente os efeitos da crise climática: calor intenso, chuvas extremas e queimadas.

Com experiência em três Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COPs), ela se prepara para a COP 30, em Belém (PA), colaborando na participação da Funai e dos povos indígenas. Lucia defende que a demarcação de terras indígenas deve ser reconhecida como contribuição
essencial ao equilíbrio climático e que o financiamento internacional precisa chegar diretamente às comunidades.

Para a liderança, a COP 30 não pode ser apenas mais um espaço de promessas:

“O meu desejo como mulher indígena Baré é que essa COP realmente traga resultados concretos e não apenas propostas do que poderá vir a ser, porque os efeitos das mudanças climáticas já estão acontecendo. Todos estamos sentindo. E a resposta para tudo isso são os povos indígenas, somos nós. Essa é a mensagem que eu trago.”

Uma voz que escoa do Rio Negro para o mundo

De menina que atravessava os rios do Alto Rio Negro até líder indígena em espaços globais de negociação climática, Lucia Alberta Baré construiu sua trajetória entre a gestão pública, a educação e a defesa dos direitos indígenas. Sua história é também o reflexo da força coletiva de mulheres indígenas que, como ela, transformam a luta em resistência e em futuro.


Neidinha discursa durante o Ciclo COParente, uma iniciativa do governo brasileiro, liderada pelo Ministério dos Povos Indígenas, para preparar os
povos indígenas para a COP 30.
Foto: Willy Arehj Gavião

“Sou uma mulher da Amazônia.” É assim que Neidinha Suruí gosta de se apresentar. Ativista, ambientalista, defensora incansável dos direitos humanos, mãe da também ativista Txai Suruí e da jovem liderança indígena Kin Suruí , coordenadora da Juventude Indígena de Rondônia, Neidinha também se define como avó apaixonada do pequeno Marimop, de apenas um ano de idade.

Sua história começa na floresta, onde cresceu cercada pela Natureza e aprendizados de seu povo no Acre, mas cedo compreendeu que precisaria viver em dois mundos. Ao deixar a floresta e chegar à cidade, entendeu que era necessário aprender os códigos desse “outro mundo” para poder lutar em defesa da Amazônia e dos povos que nela vivem.

Desafios e resistências

Neidinha enfrentou, desde muito jovem, o preconceito contra quem vem da floresta. “Quando você vai morar na cidade, sofre preconceito duplo”, relembra. Já foi tratada como um ‘bichinho exótico’, mesmo quando reconheciam sua inteligência e conhecimento. Vencer essas barreiras sociais foi apenas o início de uma longa trajetória de resistência.

O maior desafio, no entanto, veio da luta pela proteção do território. Ao se colocar contra a mineração ilegal, o garimpo e outras ameaças à floresta, Neidinha passou a conviver com riscos diários. Hoje, é uma das poucas pessoas no Brasil incluídas no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos
Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH). “Eu vivo sob protocolo de segurança, acompanhada por uma equipe, porque sigo recebendo ameaças de morte”, relata.

Mesmo assim, segue firme. Para ela, o respeito à floresta e aos povos indígenas está ligado ao direito de todas as pessoas: mulheres, homens, indígenas, pessoas LGBTQIAPN+, jovens e idosos.

Força que vem das mulheres

A coragem de Neidinha tem raízes profundas. Ela se inspira em sua mãe, que foi uma guerreira incansável, e em figuras como Marina Silva, além de mulheres indígenas que abriram caminhos de luta. Hoje, encontra também inspiração na própria filha, Txai Suruí, que se tornou um símbolo da nova geração de ativistas.

Outras mulheres se somam a esse mosaico de referências: Sonia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas, que “vê longe”; Natália Tupi, “uma jovem fantástica”; e tantas outras indígenas e não indígenas que desafiam barreiras em suas áreas de atuação.

Ela lembra que a pressão sobre as mulheres ainda é grande, tanto dentro dos povos indígenas quanto fora deles. “Todo mundo acha a mulher linda e maravilhosa, mas não quer que ela ocupe os cargos de liderança”, critica. Por isso, insiste na importância de mostrar que mulheres têm filhos, têm netos, e que isso faz parte da vida sem ser impedimento para a luta política.

As mulheres na linha de frente

Para Neidinha, não há como falar de futuro sem falar da participação das mulheres. Seja nas aldeias, nas periferias ou nos espaços de decisão global como a COP, são elas que hoje estão à frente da defesa dos territórios. “Que me desculpem os homens, mas hoje o território é basicamente uma luta das mulheres indígenas”, afirma.

Na linha de frente contra o garimpo e o avanço da destruição, essas mulheres simbolizam, para Neidinha, o avanço da luta em meio a tempos de retrocesso político e social. “Vivemos um congresso anti-indígena, anti-meio ambiente e anti-Brasil. Por isso, as mulheres que estão indo à COP, junto com outras lideranças, vão fazer a diferença.” Com a COP 30, Neidinha já soma 10 participações em COPs.

Mensagem às novas gerações

Ao ser questionada sobre qual conselho deixaria para as jovens lideranças que começam a trilhar o caminho da militância, Neidinha é direta: “Resistir é preciso, desistir nunca.”

Essa frase resume a trajetória de uma mulher que transformou as dores e os desafios em coragem e inspiração. Uma mulher que, entre a vida familiar e a militância, mostra que é possível equilibrar ternura e firmeza, ancestralidade e futuro. Neidinha Suruí é, acima de tudo, a voz da floresta que ecoa no mundo.


*Luciene Kaxinawá – primeira jornalista e apresentadora indígena da TV brasileira. Há 10 anos exerce a profissão. Atualmente, é apresentadora no Canal Futura e colunista Terra. É premiada nacional e internacionalmente pelo seu profissionalismo e representatividade. @lucienekaxinawa

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