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Publicado em

23/07/2026

Brasil pós-COP30: entre transição e transformação

A Cúpula dos Povos denunciou o caráter sistêmico da crise climática e cobrou transformações profundas, baseadas na justiça socioambiental, na defesa dos territórios e na superação do modelo extrativista

Por Frei Rodrigo Péret, OFM

Na foto, a pilha de estéril da mineradora Sigma; à esquerda, atravessando o riacho Piauí, as casas da comunidade de Piauí Poço Dantas, situada a apenas 90 metros da pilha.
Foto: Caio Guatelli.

Vivemos um tempo de mudança de época, marcado por crises interligadas que desafiam profundamente o futuro da humanidade. A crise climática se intensifica ao mesmo tempo em que o mundo é atravessado por guerras, disputas geopolíticas e o avanço de políticas imperialistas que atualizam formas contemporâneas de dominação e colonialismo. Nesse cenário, a chamada transição energética tem sido apresentada como solução global; contudo, ela não ocorre de forma isolada. Está profundamente articulada às transições digital e militar, formando um mesmo complexo econômico, tecnológico e estratégico que se retroalimenta e se sustenta na crescente demanda por minerais críticos e terras raras. Esse processo tem ampliado o extrativismo, os conflitos territoriais e a violação de direitos, especialmente nos países do Sul Global. É nesse contexto que se inserem os desafios pós-COP30 para o Brasil, ainda mais complexos por estarmos em um ano eleitoral, no qual se definem rumos estratégicos para o país.

A COP30, realizada em Belém, evidenciou a existência de dois caminhos em disputa. De um lado, o campo diplomático-institucional, marcado por negociações técnicas, consensos mínimos e soluções incrementalistas, muitas vezes incapazes de enfrentar as causas estruturais da crise. De outro, o campo político-popular, fortalecido pela Cúpula dos Povos, que denunciou o caráter sistêmico da crise climática e apontou a necessidade de transformações profundas, baseadas na justiça socioambiental, na defesa dos territórios e na superação do modelo extrativista. Essa tensão não é apenas conceitual; ela define, concretamente, o tipo de futuro que está em jogo.

No pós-COP, o Brasil se encontra diante de uma encruzilhada histórica. Por um lado, busca consolidar-se como protagonista da economia de baixo carbono, apoiando-se em sua matriz energética e em suas reservas minerais. Por outro, corre o risco de aprofundar um modelo dependente, baseado na exportação de commodities e na intensificação da mineração em larga escala, com graves impactos socioambientais. A expansão de projetos ligados às chamadas transições, energética, digital e militar, especialmente em regiões como o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, já revela o aumento de conflitos, a pressão sobre territórios e a fragilização de comunidades, indicando que essas transições, se conduzidas dentro da lógica atual, podem reproduzir desigualdades históricas e ampliar zonas de sacrifício.

Esse cenário é agravado pela conjuntura internacional. A crescente militarização, as guerras e a disputa por recursos estratégicos mostram que os minerais críticos não são apenas insumos da transição energética, mas também da infraestrutura digital e dos sistemas de guerra e segurança. Painéis solares, baterias e turbinas eólicas compartilham a mesma base material de drones, mísseis, satélites, inteligência artificial, tecnologias militares avançadas e sistemas de vigilância. Assim, a crise climática passa a ser instrumentalizada por interesses geopolíticos, enquanto a cooperação internacional dá lugar à competição por recursos, corroendo o multilateralismo. Nesse contexto, torna-se evidente a pressão de potências como os Estados Unidos para assegurar reservas estratégicas de minerais críticos, na concorrência com a China, com forte incidência sobre a América Latina e, em particular, sobre o Brasil. Tal movimento exige atenção e discernimento, para que o país não reforce uma posição subordinada na geopolítica global nem comprometa sua soberania e seus territórios.

Diante disso, um dos principais desafios para o Brasil é não reduzir essas transições a uma agenda meramente econômica ou tecnológica. É necessário reconhecer que não se trata apenas de uma “transição” dentro do mesmo modelo, mas da urgência de uma transformação sistêmica, social, econômica e ecológica. Isso implica enfrentar as raízes da crise: o modelo de desenvolvimento baseado na acumulação ilimitada, a concentração de poder, a financeirização da natureza e a lógica extrativista que transforma bens comuns em mercadorias. Sem essa mudança estrutural, há o risco de consolidar uma “transição verde” a uma repaginação do capitalismo. Embora pretenda reduzir emissões em escala global, aprofunda injustiças locais e perpetua formas históricas de exploração.

Outro ponto decisivo é a ausência de um mapa do caminho claro, justo e vinculante para o abandono progressivo dos combustíveis fósseis. A falta dessa definição nas negociações internacionais fragiliza a credibilidade dos compromissos climáticos e abre espaço para soluções paliativas e financeirizadas. Para o Brasil, assumir protagonismo significa não apenas ampliar fontes renováveis, mas estabelecer metas concretas de redução e superação dos fósseis, articuladas com justiça social, proteção dos territórios e garantia de direitos.

Torna-se central, nesse debate, aprofundar a crítica à financeirização da natureza. A cosmovisão indígena nos recorda que a natureza é viva, sagrada e relacional, e que os seres humanos integram uma teia de vida fundada no cuidado, na reciprocidade e no equilíbrio. Em contraste, a lógica dominante reduz florestas, águas e territórios a ativos financeiros negociáveis. Mecanismos como os mercados de carbono e fundos como o Fundo Tropical das Florestas (TFFF) não são neutros: ao atribuírem preço à natureza, substituem seu valor intrínseco por valor monetário, reforçando e legitimando a mercantilização da vida.

Diante disso, torna-se urgente avançar na regulamentação dos direitos da natureza, reconhecendo a natureza como sujeito de direitos e não como objeto de exploração. Essa perspectiva, alinhada à ecologia integral, afirma que não há separação entre justiça ambiental e justiça social. Defender a natureza é defender a vida, especialmente dos mais vulneráveis.

Outro desafio central diz respeito à democracia e à participação social. A COP30 evidenciou o contraste entre o protagonismo dos povos nos territórios e sua marginalização nos espaços formais de decisão. No Brasil, isso se traduz na necessidade de fortalecer mecanismos de participação, garantir a consulta prévia e assegurar que comunidades afetadas tenham voz e poder real nos processos que impactam suas vidas. Em um ano eleitoral, esse aspecto se torna ainda mais decisivo: trata-se de escolher projetos políticos que reconheçam os territórios não como espaços de exploração, mas como sujeitos de direitos e de futuro.

Além disso, o país precisa avançar na construção de alternativas concretas. Experiências como a agroecologia, a economia solidária, os territórios livres de mineração e as iniciativas comunitárias mostram que é possível pensar outros caminhos, baseados no cuidado, na sustentabilidade e na justiça. Essas práticas apontam para uma transformação que não se limita à mudança de matriz energética, mas envolve uma reconfiguração mais profunda das relações sociais, econômicas e ecológicas.

Nesse horizonte, a dimensão ética e espiritual também ganha relevância. A crise climática não é apenas um problema técnico, mas uma crise de valores, que questiona o sentido do desenvolvimento, do consumo e da própria relação com a vida. A proposta da ecologia integral convida a uma conversão que vai além de políticas públicas, envolvendo mudanças culturais e civilizatórias, orientadas pelo cuidado com a Casa Comum e pela centralidade da dignidade humana.

Assim, os desafios pós-COP para o Brasil não se limitam à implementação de compromissos internacionais. Eles exigem discernimento sobre que tipo de transformação queremos construir e para quem. Em um contexto eleitoral, isso implica avaliar propostas, trajetórias e compromissos à luz da justiça climática, da defesa dos direitos e da preservação dos bens comuns. Mais do que escolher entre opções, trata-se de participar ativamente da construção de um projeto de país que enfrente as causas da crise e não apenas seus sintomas.

O momento atual exige responsabilidade histórica. As decisões tomadas hoje terão impactos duradouros sobre os territórios, as populações e as futuras gerações. Diante de um mundo marcado por guerras, desigualdades e crise ambiental, o Brasil tem a oportunidade de afirmar um caminho que articule desenvolvimento, justiça e sustentabilidade, desde que não se submeta às pressões geopolíticas e avance rumo a uma transformação sistêmica centrada na vida.

A escola de samba mirim Filhos da Águia, da tradicional Portela, desfilou no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Com o enredo “Máscaras de Justiça: Carta da Mãe Terra para os Filhos da Águia”, a agremiação celebrou os 25 anos da Carta da Terra. Rio de Janeiro (RJ), 20/02/2026. 

Fotos: Barbara Cardoso

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