NOTÍCIAS >

Agenda de Pressão

Publicado em

29/10/2025

Acordos, metas e legislações: principais debates e propostas em torno da COP 30 

Nesta edição da Agenda de Pressão, a Revista Casa Comum apresenta alguns dos principais debates em torno das Conferências do Clima, das Cúpulas dos Povos e temas que deveriam ser dialogados.

Por Elvis Marques

Getting your Trinity Audio player ready...

Encontro com povos indígenas para marcha de entrada conjunta na COP 28, em Dubai.
Foto: EstevamRafael / Presidência da República

“O último balanço global [Global Stocktake – GST, sobre o Acordo de Paris] já aconteceu, mas se você buscar qualquer informação relacionada, na internet, terá dificuldade de encontrar. E nós vamos ter, daqui a três anos, em 2028, o segundo balanço. Então, existem algumas ferramentas que seriam interessantes se elas funcionassem e que elas estão subsumidas no debate que está focado no financiamento climático. Se nós estamos hoje atuando com mitigaPor Elvis Marques ção e adaptação, ‘quer dizer que o barco já bateu no arrecife, que já está vazando água para tudo quanto é lado’.”

Quem faz a análise é Mauricio Laxe, ambientalista, advogado e ecossocialista que possui diversas passagens pelo poder público e pelo terceiro setor, como o Ministério do Meio Ambiente e a ECOS – Espaço, Cidadania e Oportunidades Sociais. Ao longo de sua militância, Mauricio vivenciou movimentos que impactaram os rumos da agenda socioambiental no Brasil e no mundo, como a Eco-92 (ou Rio-92), a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992.

Por ter vivenciado tantos diálogos, acordos e apertos de mãos, Mauricio destaca a importância de a sociedade olhar atentamente para momentos como o do balanço global realizado na Conferência do Clima, a COP 28, em Dubai, referente ao Acordo de Paris, que completa agora, em 2025, uma década de seu estabelecimento.

O Acordo de Paris é composto por dezenas de artigos, mas vários deles são deixados de fora dos debates, como aponta o ambientalista: “Do 10º ao 13º, ninguém aborda, e são justamente aqueles que falam sobre fortalecer a ideia de uma convergência dos movimentos e da continuidade da Cúpula dos Povos. Abordam, ainda, sobre educação e conscientização política. São artigos que tratam da participação social.”

Em contraste à fala de Mauricio, outros pontos do Acordo de Paris tiveram bastante destaque, principalmente no momento de avaliação de cobrança das nações. Veja os principais apontamentos conforme o Global Stocktake:

  • Progresso insuficiente: Chegou-se à conclusão de que o mundo não está no caminho para barrar o aquecimento a 1,5°C, como definido no Acordo. As emissões globais de gases de efeito estufa precisam cair 43% até 2030 em relação a 2019, mas, atualmente, estão aumentando.
  • Energias e combustíveis fósseis: Pela primeira vez, o texto final reconheceu a necessidade de “transitioning away” (transição) dos combustíveis fósseis. A proposta é triplicar a capacidade de energias renováveis e dobrar a eficiência energética até 2030.
  • Financiamento climático: Foi cobrado o aumento do financiamento climático para países em desenvolvimento. O relatório reforçou que os fluxos financeiros atuais estão abaixo do necessário para a adaptação e a mitigação.
  • Adaptação e resiliência: Apontou-se a necessidade de acelerar planos nacionais de adaptação, e o apoio a comunidades vulneráveis foi destacado como prioridade.
  • Perdas e danos: Avanço com a operacionalização do Fundo de Perdas e Danos, para apoiar países mais afetados por eventos extremos.

    >> Saiba mais em: bit.ly/RCC_14_049

A exemplo do Acordo de Paris, os tratados são instrumentos antigos cujo objetivo é formalizar compromissos entre as nações, o que permite que elas cooperem em temas que ultrapassam as suas fronteiras, como meio ambiente, comércio, saúde e direitos humanos. Confira:

  • Protocolo de Kyoto (1997): Foi um acordo internacional que envolveu 84 países, sobretudo os industrializados, com o objetivo de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Foi nesse contexto que surgiu no mercado o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), o qual permitia que países desenvolvidos compensassem as emissões por meio do financiamento de projetos de baixo carbono em países em desenvolvimento. Os Estados Unidos abandonaram o tratado em 2001, o que fragilizou o compromisso global.

  • Acordo de Copenhague (2009): Buscou estabelecer um acordo global após o Protocolo de Kyoto, mas não obteve sucesso em alcançar metas vinculantes universais. Foi proposto, então, um compromisso voluntário para as nações apresentarem planos nacionais de mitigação.

  • COP 26, em Glasgow (2021): Apresentou o “Pacto de Glasgow” com o pedido de revisão das metas, firmadas no Acordo de Paris, já em 2022, e não só em 2025 como previsto. Foi quando surgiu a proposta de “reduzir gradualmente” o uso do carvão.

  • COP 27, no Egito (2022): Criou o Fundo de Perdas e Danos, tido como uma vitória histórica para países vulneráveis, e resultado de negociações sobre justiça climática. A iniciativa abriu caminho para a responsabilização das nações.

Natural da Índia, Kirtana Chandrasekaran integra a organização Friends of the Earth Scotland (em tradução livre, Amigos da Terra da Escócia), fundada em 1980, e membro da Cúpula dos Povos. Com atuação que se baseia em uma transição justa para uma sociedade sustentável, a entidade é a principal
promotora de campanhas ambientais da Escócia, além de ser membro independente da rede Amigos da Terra Internacional.

Kirtana, em diálogo com a Revista Casa Comum, lista quatro temas que deveriam estar em pauta na Conferência do Clima, assim como em demais espaços socioambientais de debate, como a Cúpula dos Povos e outros:

  • Minerais Essenciais UE-EUA: Iniciativa da Comissão Europeia para negociar com os Estados Unidos um acordo que reconheça minerais críticos extraídos ou processados na União Europeia para qualificá-los nos créditos fiscais de carros elétricos nos EUA.
    >> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_050

  • 2ª Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR+20): Organizada pelo governo da Colômbia e com previsão de realização em 2026, o evento deve avaliar e propor diretrizes para uma governação responsável da terra, da pesca e das florestas, com o intuito de combater a fome e a pobreza, para, assim, fortalecer a segurança alimentar.
    >> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_051

  • Legislação de Transição Justa em Nível Nacional: Lei 14.299/2022, que instituiu o Programa de Transição Energética Justa (TEJ), focando em aspectos sociais e ambientais da transição energética.
    >> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_052

  • Tribunal Internacional de Solução de Controvérsias v. Equador: Devido à falha do país na punição contra a empresa Chevron, que, atualmente, se beneficia do leilão de exploração de petróleo na Amazônia.
    >> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_053

Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, durante entrevista coletiva para comentar os vetos ao projeto de lei do licenciamento ambiental. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Se esses são acordos e tratados internacionais que precisam estar em debates, outras pautas também são urgentes e causam diversos impactos nacionalmente, como o Projeto de Lei (PL) 2.159/2021. Conhecido como o “PL do Licenciamento Ambiental” ou “PL da Devastação”, foi classificado, por organizações atuantes na área socioambiental, a exemplo
do Observatório do Clima, como “o maior ataque à legislação ambiental das últimas quatro décadas, desde a publicação da Política Nacional do Meio Ambiente, em 1981.”

Aprovado no Congresso Nacional no bojo da organização da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP 30, o texto sancionado se tornou a Lei 15.190/2025, e foi publicada em 8 de agosto de 2025 com 63 dispositivos vetados pelo presidente Lula. Um dos pontos mais criticados na legislação, o Licenciamento Ambiental Especial (LAE) em fase única, simplificando assim, o cronograma e a sua análise, foi um dos pontos vetados pela Presidência da República. Os vetos ainda devem ser analisados pelo Congresso, podendo, assim, aprová-los ou rejeitá-los.

Na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, outros projetos, com foco na proteção socioambiental, buscam espaço para tramitação e aprovação, confira:

>> Saiba mais:

Inscreva-se


Botão do whatsapp

Entre para nossa comunidade!