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Publicado em

29/10/2025

Maiores vítimas da crise climática, mulheres são essenciais na construção das soluções

Feminismo popular promove processos coletivos que buscam o cuidado, a diversidade de saberes e experiências, a equidade social, a justiça econômica e a conexão com os saberes ancestrais e a Natureza.

Por Fabiana Pereira

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Mulheres de todo o país participam da Cúpula dos Povos, durante a Rio+20, e fazem protesto nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, em 2012. Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil

“Se as mulheres são as maiores vítimas da crise climática e, em maior escala, as mulheres negras, indígenas, de favelas, trabalhadoras das periferias e rurais e de comunidades tradicionais e ancestrais, elas também são as pessoas que mobilizam suas comunidades, que desenvolvem tecnologias locais e assumem o cuidado dos seus, estando mais conectadas com a Natureza. Esse feminismo popular move o mundo rumo a sociedades mais justas por meio de processos coletivos por Bem Viver com cuidado ambiental.”

Dulce Pereira, primeira mulher negra a presidir a Fundação Cultural Palmares. Foto: Arquivo pessoal

Isso é o que defende a arquiteta, ambientalista, professora e ativista pelos direitos das mulheres negras, Dulce Pereira, que foi a primeira mulher negra a presidir a Fundação Cultural Palmares e atuou como secretária executiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Para ela, a presença das mulheres, nas soluções da emergência climática e do racismo ambiental, é fundamental a fim de que opinem e participem das políticas de contenção, reparação e mitigação dessas mudanças.

De acordo com a pesquisadora, é essencial ter mulheres à frente das soluções que repensem as atuais formas de produzir e consumir no mundo, porque elas agregam a perspectiva do cuidado e da sustentabilidade, a diversidade
de saberes e experiências, a equidade social e a justiça econômica, a conexão entre economia e cuidado e a conexão com os saberes ancestrais e a Natureza. “Nos movimentos sociais e nos processos produtivos, as mulheres conduzem as estratégias de luta, de produção e de consumo mais sustentáveis, inovadoras e éticas, ao mesmo tempo em que equilibram desigualdades históricas e impulsionam melhores resultados coletivos. Mulheres forjadas na luta, com consciência de classe, engajadas na causa antirracista e com relação socioambiental ecológica movem o mundo.”

Ela sublinha que as mulheres, sobretudo as negras e indígenas, sofrem mais em sua saúde com os efeitos
da crise climática, registrando mais casos de morte por calor e insegurança alimentar. “A crise climática exacerba drasticamente a sensação térmica em habitações precárias, criando ilhas de calor com temperaturas superiores às de áreas mais ricas das cidades. Esse fenômeno é um exemplo claro de racismo ambiental, em que populações mais vulneráveis são desproporcionalmente atingidas”, explica.

Dulce acredita que mulheres e meninas precisam ser capacitadas por sindicatos, movimentos sociais e
organizações da sociedade civil e ter acesso a dados e a informações que lhes assegurem conhecimentos paralidarem com os desafios cotidianos. “Não se trata apenas do direito à educação formal, mas também de formação em educação ambiental para lidarem com as complexidades e os múltiplos interesses no embate nos territórios, de formação para a participação comunitária e de um estímulo à autoestima, para que assumam um protagonismo generoso e agregador.”

Por fim, a consolidação de um feminismo popular, anticolonial e antirracista, segundo ela, passa também pela aliança com as feministas do Sul Global, como africanas e caribenhas, e dos demais países da América do Sul, além dos blocos geopolíticos com interesses afins, como BRICS*, CARICOM [Comunidade e Mercado Comum do Caribe] e outros que “defendem a soberania dos povos e se colocam em oposição às subalternidades colonialistas.”

*O BRICS é um agrupamento formado por onze países membros: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Serve como foro de articulação político-diplomática de países do Sul Global e de cooperação nas mais diversas áreas. Saiba mais em: brics.br

Eunice Guedes (esq.) integrante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB). Foto: Arquivo pessoal

A ausência contínua das mulheres nas pautas climáticas e a urgência de inserir as vozes femininas nos debates são constatações que movem o trabalho do Comitê Político da Cúpula dos Povos para a COP 30, do qual faz parte a professora de psicologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), Eunice Guedes, que também integra o Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense (FMAP) e a Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB).

Ela conta que o Comitê Político, composto por cerca de 70 organizações do Brasil e do mundo, adota, como forma contínua de incidência, o Plano de Gênero, dentro da Constituinte de Gênero das COPs, que já é proposto há muitos anos. Além disso, os integrantes do Comitê Político do Brasil têm pressionado para que a presidência da COP 30 incorpore a importância das mulheres e da questão racial nas discussões, pois são sobretudo as mulheres, a população negra e os povos originários que sofrem diretamente os grandes impactos das alterações no clima.

Um dos frutos dessa pressão do Comitê Político foi o teor da quinta carta do presidente da COP 30, que passou a citar as mulheres e a questão racial, assuntos ausentes nas quatro cartas anteriores. “Batalhamos para que a Cúpula dos Povos tivesse o eixo 6 voltado para a resistência das mulheres nos territórios, em uma articulação com as diversidades de gênero, etnia e raça, que deve ser incorporada transversalmente às demandas que têm decisões oficiais na COP 30”, relata a professora.

A Cúpula prevê para Belém (PA) a Casa Feminista, espaço de diálogo das mulheres e temas que as afetam, e o Tribunal Mundial das Mulheres, dispositivo para denúncias, documentação e encaminhamento de violação dos direitos das mulheres para espaços internacionais. “Os eventos climáticos não são acidentes. São uma questão política que tem recorte de gênero, raça, classe e etnia. Então, precisamos nos incomodar, nos organizar, qualificar os debates e elaborar um documento que possa influenciar a Declaração dos Povos que será produzida, tentando fazer barulho para incidirmos também nas decisões da COP 30 em defesa da vida”, ressalta.

A agroecóloga e ecofeminista Valda Aroucha é fundadora da organização Agendha e professora doutora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), e representa as duas instituições no Programa FPI (Fiscalização Preventiva Integrada) em Paulo Afonso (BA), que é uma ação coordenada que visa diagnosticar, prevenir e corrigir danos ambientais na Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, com a participação de 95 organizações e órgãos diversos. Na Bahia, são 54 instituições, envolvendo cerca de 250 pessoas, com 27 equipes e 17 eixos temáticos.

O FPI está em cinco estados (BA, AL, SE, PE e MG), promovendo ações diretas realizadas obrigatoriamente por 50% de mulheres e funciona como um impulsionador de políticas públicas nas áreas de recursos hídricos, meio ambiente e saneamento.

Filha de agricultores e trabalhadora da agricultura familiar, Valda coordena no FPI o Programa Socioeducador, uma iniciativa de educação socioambiental e agroecológica, pautada em uma educação ambiental estruturante. O trabalho engloba visitas a dezenas de secretarias municipais de educação para verificar como a educação ambiental está sendo implementada. “Estruturante significa que há formação para professores no tema, que é cumprida a lei que prevê que a escola discuta relações de gênero e que também é respeitada a lei que determina que a escola trabalhe as mudanças climáticas e a biodiversidade”, conta.

Pelo programa, são elaborados diagnósticos e oferecidas orientações aos municípios sobre como implementar as leis e como melhorar a educação socioambiental de forma interdisciplinar, transdisciplinar e intersecretarias. Ao mesmo tempo, nas comunidades, são realizadas oficinas e palestras sobre combate ao uso de agrotóxicos e a importância da agroecologia, dos cultivos e criatórios limpos, da fauna e da ictiofauna do rio. “Na educação socioambiental abrangente, considerar as relações de gênero é indispensável, porque, na agricultura familiar, as mulheres são muito protagonistas e cuidam dos animais, de quintais agroecológicos, de plantas medicinais e da família, sendo muitas delas monoparentais.”

A professora salienta, ainda, que as mulheres do Semiárido são grandes guardiãs do meio ambiente. “Em época de seca, o homem sai para buscar outros trabalhos e quem fica com a família e a terra e os mantém é a mulher. Ela desenvolve uma pluriatividade no campo, cuidando desde o ovo e a galinha até a água, a comida, passando pela horta e o pomar. Está à frente também das economias de circuito curto e das economias solidárias”, explica.

Ela se diz otimista em relação à Cúpula dos Povos porque percebe que os vários povos e as comunidades mundiais empoderaram-se e constituíram boas estratégias para serem protagonistas nas proposições. “Podem até ser ações não resolutivas, mas estará anunciada e registrada a ideia de ‘nada sobre nós sem nós’.”

Sophie Ogutu é uma líder feminista do Quênia que integra a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e cuida da coordenação regional africana e do Secretariado Internacional. A MMM é um movimento internacional feminista, anticapitalista e anti-imperialista, criado oficialmente no ano 2000 e presente em mais de 60 países. Sophie trabalha na MMM com as lutas das mulheres nas frentes de pobreza, violência, crise climática e desapropriação. Para isso, a MMM opera por meio de órgãos de coordenação nacionais, escolas feministas e mobilizações internacionais sincronizadas que conectam lutas locais a estratégias globais.

Sophie Ogutu, líder feminista do Quênia que integra a Marcha Mundial das Mulheres (MMM). Foto: Arquivo pessoal

Essa mobilização já alcançou algumas conquistas ao longo dos anos. “Colocamos a autonomia econômica das mulheres, a soberania alimentar e o reconhecimento do trabalho de cuidado no centro dos debates globais. Construímos redes transnacionais duradouras, treinamos milhares de lideranças de base e asseguramos que mulheres do Sul Global falem com suas próprias vozes nos espaços políticos”, ressalta Sophie.

As mulheres da MMM levarão à Cúpula dos Povos suas alternativas práticas − governança comunitária da água, economias solidárias e agroecologia −, bem como uma crítica feminista ao extrativismo e às soluções falsas para as mudanças climáticas. “A expectativa é que a Cúpula amplifique a liderança de mulheres na linha de frente. Precisamos de mulheres não apenas como contadoras de histórias, mas como estrategistas e protagonistas que moldam a agenda.”

Para o debate global sobre emergência climática, a MMM quer que a justiça de gênero seja colocada no coração das negociações. As mulheres pedem o cancelamento de dívidas, o financiamento público climático e as transições justas na alimentação e na energia. E rejeitam soluções entendidas como falsas, como os mercados de carbono e as compensações que expandem o extrativismo e deslocam comunidades indígenas e rurais. “Em vez disso, temos propostas baseadas no cuidado, serviços públicos e direito à terra − propostas que de fato constroem resiliência real e justiça”, enfatiza a liderança.

“A saúde do Planeta passa pelas mãos das mulheres. Não se pode falar de proteção do ar, da água, do alimento, se isso não incluir todas as mulheres.” É o que proclama Iêda Leal, pedagoga, integrante do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Goiás (Sintego), filiado à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), militante do Movimento Negro Unificado e membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Iêda Leal, militante do Movimento Negro Unificado. Foto: Arquivo pessoal

Para ela, o reconhecimento, pela Cúpula dos Povos, do protagonismo e do papel das mulheres negras organizadas dá mais legitimidade para que continuem difundindo para o mundo o feminismo popular, antirracista, antifascista, antissexista e anticolonial. “Nossa sabedoria contribui para a manutenção da vida. Sabemos acolher a diversidade em todas as suas dimensões e temos a circularidade uterina de quem pare, quem cuida e quem protege”, ressalta Iêda.

Integrante do Comitê Educacional da Cúpula dos Povos, ela defende que a direção de todos os espaços da sociedade seja ocupada pelas mulheres negras, incluindo espaços políticos decisórios, desde a associação de bairro e a universidade até a presidência da República. Isso é possível, segundo a pedagoga, por meio da educação e da formação profissional de novas lideranças. “Reafirmaremos, na Cúpula, que a educação seja prioridade do Estado, com um viés de transversalidade, ou seja, com a preparação das pessoas para enfrentar o mundo. Para isso, promoveremos escutas ativas para saber como é a educação popular de outros países e como ela pode transformar as vidas e a sociedade para melhor.”

Eventos como a COP 30 são uma oportunidade, em sua visão, de os movimentos conversarem com os governos e entregarem demandas ambientais para que medidas mais assertivas de proteção à vida sejam tomadas. “O Estado, quando chama para discutir meio ambiente, não pode se esquecer de ninguém. Todos devem contribuir com sugestões para melhorar. Além disso, precisamos educar o Estado para proteger os territórios e os diferentes povos, dos quilombolas aos ribeirinhos”, finaliza.

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