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Publicado em

29/10/2025

Reinventar a mobilização popular pelo Comum

Editorial da 14ª edição da Revista Casa Comum.

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Esta edição da Revista Casa Comum foi pensada e planejada por um coletivo internacional, articulado em torno da construção da Cúpula dos Povos Rumo à COP30, como parte da mobilização popular diante da grave crise ambiental, social e política que enfrentamos. A publicação nasce como instrumento de resistência, escuta e construção coletiva. Não se trata apenas de denunciar os impasses do sistema, mas de afirmar, com palavras e práticas, que outra forma de viver e decidir é possível e, mais do que nunca, necessária. A Cúpula dos Povos não é apenas um evento paralelo à COP (Conferência das Partes): é a expressão concreta de um projeto político popular que emerge das bases, das florestas, das periferias, dos saberes ancestrais e das lutas territoriais. É a resposta viva à falência de um modelo que nos trouxe até aqui.

Vivemos uma profunda crise societária e ecológica. Ela não é acidental e nem isolada: está enraizada na ausência de um projeto político verdadeiramente popular, construído com base na diversidade, na escuta ativa e no reconhecimento da complexidade dos territórios, dos corpos e das culturas. O modelo dominante, centrado no lucro, na financeirização da vida e no extrativismo predatório, está falido.

Ao mesmo tempo, a crise de representação e de tomada de decisão compromete as transformações urgentes que o mundo exige. Os mecanismos institucionais, capturados por interesses corporativos e por elites políticas, demonstram sua impotência (ou conivência) diante do genocídio na cidade palestina Gaza, das guerras em curso e do autoritarismo de líderes como Donald Trump, presidente dos EUA, cujo tarifaço recente expôs o atropelamento das instâncias democráticas e a fragilidade dos pactos internacionais.

Nesse cenário, torna-se urgente fortalecer novas formas de deliberação e organização social baseadas no princípio do Comum.

O Comum não é apenas um bem compartilhado, mas, sim, uma prática política, ética e coletiva. Refere-se àquilo que é construído, cuidado e governado por muitas mãos, a partir de relações horizontais, solidárias e autônomas. O Comum se opõe à lógica da propriedade privada e da mercantilização da vida, além de à burocratização estatal que afasta o povo das decisões sobre seu próprio destino. Apostar no Comum é reconhecer que os povos têm a capacidade de autogovernar seus recursos, seus territórios e seus modos de vida com justiça e responsabilidade coletiva.

A realização da COP 30, em 2025, na cidade de Belém, no Pará, é mais do que uma cúpula diplomática: é a oportunidade de denunciar a hipocrisia verde dos grandes emissores, das falsas soluções para a crise aprofundada por eles próprios, inclusive de afirmar, com força, os caminhos que emergem dos povos originários, das juventudes, dos movimentos por justiça socioambiental e de tantas experiências territoriais que já produzem alternativas reais.

A Cúpula dos Povos, que será organizada paralelamente à COP 30, representa essa potência coletiva. Não se trata apenas de um evento, mas de um processo histórico de afirmação de um projeto político popular que emerge da base, articulando ecologia, justiça social, feminismos, saberes ancestrais, agroecologia, economia solidária e direitos territoriais. É nessa confluência que o Comum se torna ação concreta: território vivo, prática política e horizonte de futuro.

Este editorial é um chamado e um convite à construção coletiva de um novo projeto civilizatório, que seja popular, diverso, enraizado no compromisso com a vida e guiado pelo princípio do Comum. A crise é grave, mas a mobilização dos povos é mais poderosa. Belém 2025 pode ser um marco: não porque a COP vá salvar o Planeta, mas porque os povos estão se levantando para salvá-lo de um sistema que insiste em destruí-lo. Não é tarefa fácil, mas é urgente. E é nossa!

Fábio Paes
Coordenador da Revista Casa Comum

Tatiana Scalco
Diretora Geral do Instituto Hori

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Publicado em

29/10/2025

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