NOTÍCIAS >

Editorial

Publicado em

13/08/2025

Sem lar, não há Casa Comum

Editorial da 13ª edição da Revista Casa Comum.

Getting your Trinity Audio player ready...

A Revista Casa Comum celebra seus três anos de existência com mais uma edição especial, realizada em parceria com a Campanha da Fraternidade 2026, que trará como temática principal: “Fraternidade e moradia– Ele veio morar entre nós”. Esta edição, no entanto, é também histórica, pois marca uma nova fase do projeto: a Revista Casa Comum deixa de ser uma realização do Sefras – Ação Social Franciscana e passa a ser conduzida por uma gestão compartilhada com outros grupos, coletivos e movimentos sociais. Essa transição amplia o horizonte de atuação da revista, preservando, no entanto, a missão e a visão franciscana que inspiraram sua criação e trajetória até aqui.

Diante desses marcos importantes, convidamos você a mergulhar na proposta editorial desta edição.

A revista adota como horizonte o conceito de Casa Comum, inspirado na ecologia integral e na fraternidade universal. Esse conceito nos convida a enxergar o planeta como um lar compartilhado, onde todas as formas devida devem ter lugar, dignidade e cuidado. No entanto, para milhões de pessoas, ter uma casa concreta — um espaço seguro, digno e estável para viver — ainda está fora do alcance.

É justamente nessa tensão entre o ideal da Casa Comum e a dura realidade de quem vive sem teto, em moradias precárias ou sob constante ameaça de despejo, que esta edição se ancora. Afinal, não há Casa Comum possível quando falta o chão da própria casa, quando o lar — esse espaço de cuidado, memória e afeto — é inacessível ou constantemente ameaçado.

Segundo dados de 2022, o déficit habitacional no Brasil chegou a 6 milhões de domicílios, o que representa 8,3% do total de habitações ocupadas no país. Isso revela a urgência de tratar a moradia como prioridade absoluta na agenda pública e social.

A moradia é o ponto de partida da dignidade humana. É ali que se experimenta o pertencimento, que se constrói a vida familiar e comunitária, que se organiza o cotidiano. Ter uma casa é condição básica para viver com proteção, saúde, afeto e espaço de convivência. E é também, em última instância, o que possibilita o pleno exercício de outros direitos fundamentais.

O direito à moradia abrange todos os outros: o acesso à água potável, à proteção, à convivência familiar e comunitária, entre tantos mais. Um teto é muito mais do que uma estrutura arquitetônica — ele responde a necessida- des básicas, mas também afetivas, relacionais, sociais e culturais.

Durante uma conferência internacional sobre o direito à primeira moradia, uma pessoa em situação de rua compartilhou, emocionada, a seguinte frase: “Eu tenho direito a ter uma geladeira para tomar água gelada todo dia.” Essa fala, tão simples quanto poderosa, revela uma dimensão que muitos não conseguem imaginar: o valor de um copo de água gelada, algo cotidiano para alguns, mas inalcançável para quem vive nas ruas — onde não há acesso nem à água, tampouco à dignidade de escolher em que condições se quer viver.

Ter uma mesa onde se possa comer uma refeição dignamente — e não apenas uma marmita em um canto qualquer de uma cidade hostil — também faz parte desse direito.

Conhecer o que está previsto nas leis e, também, as experiências de grupos e movimentos populares é fundamental para quem deseja se engajar nessa pauta. Diante de uma agenda tão prioritária — e ainda assim frequentemente esquecida enquanto demanda popular e organizativa comunitária —, é urgente resgatar esse debate, dar visibilidade às boas práticas e cobrar políticas públicas que promovam justiça habitacional.

Hoje, a moradia sofre a contradição profunda e escanda- losa de ser, ao mesmo tempo, um direito fundamental e uma mercadoria explorada no mercado. A especulação imobiliária inflaciona os preços e dificulta o acesso, empurrando multidões a viverem o dilema diário entre pagar o aluguel ou garantir um prato de comida. Para os idosos, a situação é ainda mais dramática: comprar remédios ou pagar o aluguel — eis um dilema existencial cotidiano.

Por isso, a mobilização em torno da moradia é essencial. Ela deve unir prioridades e bandeiras políticas de representantes públicos, organizações e movimentos sociais. A luta por moradia diz respeito a todos os segmentos da sociedade.

É urgente colocar o direito à moradia no centro do debate público. E esta edição da Revista Casa Comum é uma ferramenta a serviço dessa urgência.

Fábio Paes
Coordenador da Revista Casa Comum

Outros conteúdos:

Moradia ainda é vista como mercadoria e não como direito no Brasil

Como diversos outros direitos contidos na Constituição Federal de 1988, o acesso à moradia é cercado por desigualdades e injustiças crônicas, que remetem ao período da escravidão. Como superar problemas estruturais para conquistar um lar? Especialistas acreditam que a reforma urbana “só acontecerá com a força popular”.

Publicado em

14/08/2025

A cidade é planejada de forma racista para concentrar a renda e excluir, analisa Raquel Rolnik

Arquiteta e urbanista, além de coordenadora do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), a especialista é defensora do que chama de moradias dignas e adequadas, e reforça que o modelo de cidade excludente surge de um processo histórico que tem a ver com capitalismo e racismo.

Publicado em

21/08/2025

O desafio da habitação digna no Brasil: Tem gênero e raça

Se fizermos um levantamento rápido observando a atuação de movimentos sociais e organizações da sociedade […]

Publicado em

14/08/2025

Inscreva-se


Botão do whatsapp

Entre para nossa comunidade!