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23/07/2026

A farsa da guerra ao crime: quem lucra com a violência no Brasil

Nas eleições nacionais deste ano, a segurança pública será um dos temas centrais do debate, enquanto cresce uma sensação permanente de medo e insegurança.

Por Blanca Fernandes e Cadu Machado

Militares na favela da Rocinha, Rio de Janeiro, em  25/09/2017
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Militares na favela da Rocinha, Rio de Janeiro, em 25/09/2017
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Nas eleições nacionais deste ano, a segurança pública será um dos temas centrais do debate, enquanto cresce uma sensação permanente de medo e insegurança. Quem liga a TV a qualquer hora do dia tem a impressão de que a violência está em toda parte. Essa sensação, sem dúvidas, influenciará diretamente o pleito de outubro, gerando apelos para o apoio a políticas e leis repressivas como aparente solução, sem atacar as raízes da violência. 

Os principais projetos de segurança pública em discussão no Brasil em 2026 focam no combate ao crime organizado e na integração das forças de segurança, com destaque para a PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025), que visa uniformizar normas nacionais e aumentar a cooperação entre polícias, e o “PL Antifacção”, que endurece penas contra organizações criminosas e milícias. No entanto, o debate sobre os projetos envolve interesses e gera preocupações que vão além da segurança interna e tocam diretamente na soberania nacional .

Na mira dos projetos, estão as organizações do crime organizado, especialmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que se espalham pelo país. Em nome do seu combate, ocorre uma verdadeira guerra aos pobres, como demonstram as chacinas e mortes em favelas e periferias com grande envolvimento policial. E isso foi agravado com a decisão do governo norte-americano de classificar as organizações criminosas como terroristas, além de sérias consequências para o Brasil.

Há décadas, governos e grandes meios de comunicação repetem o mesmo discurso: o Brasil vive uma “guerra contra o crime”, em que as polícias seriam as defensoras da segurança. Punir sem controle, em vez de prevenir com políticas, só fez aumentar a criminalidade e a violência.

Ao mesmo tempo, o crime organizado se aproveita da miséria e da falta de empregos formais para cooptar a juventude pobre, oferecendo empregos precários e colocando a vida de milhares de jovens a serviço de seus negócios.

Com menos apelo eleitoral, planos para conter a apropriação do espaço público pela criminalidade, ocupar a juventude com seu próprio desenvolvimento pessoal e profissional,   garantir condições de vida, renda, educação e saúde às comunidades, todos esses compromissos poderão ficar ausentes da maior parte dos programas eleitorais se predominar apenas o discurso punitivista.

Na verdade, o crime organizado não é um elemento externo ao sistema, mas um de seus negócios mais lucrativos. Enquanto o grande capital opera as finanças do comércio internacional de drogas para aumentar suas fortunas, o aparato policial do Estado é usado para reprimir e controlar o povo.

Débora Maria da Silva ao participar da inauguração do Memorial dos Crimes de Maio e do Genocídio Democrático, em maio de 2016. Foto: Rovena Rosa/Arquivo/Agência Brasil.
Débora Maria da Silva ao participar da inauguração do Memorial dos Crimes de Maio e do Genocídio Democrático, em maio de 2016. Foto: Rovena Rosa/Arquivo/Agência Brasil.

Em 19 de março deste ano, a Polícia Militar do estado de São Paulo deflagrou a “Operação Impacto” no Morro do São Bento, na Baixada Santista. Segundo informações da Agência SP, foram mobilizados 302 policiais militares, 82 viaturas, 13 drones, cinco cães e uma aeronave. O coronel Carlos Lucena a classificou como “uma grande operação para o enfrentamento ao tráfico e o fortalecimento da presença do Estado na região”. A ação gigantesca resultou na prisão de três pessoas, sem divulgação de apreensões relevantes.

São Bento é o bairro onde morava o menino  Ryan da Silva Andrade Santos, de 4 anos, baleado no abdômen e morto enquanto brincava na rua durante uma operação da Polícia Militar. Seu primo, Gregory Ribeiro Vasconcelos, de 17 anos, também foi morto na mesma ação. No mesmo dia, 7 de dezembro, policiais militares foram ao enterro, circunstância em que intimidaram familiares com abordagens e revistas truculentas a pessoas em luto. O pai de Ryan, Leonel Andrade Santos, já havia sido morto pela PM durante as operações Escudo/Verão, em fevereiro do mesmo ano.

São histórias que se repetem no rastro dos 20 anos de impunidade para os chamados Crimes de Maio de 2006, quando confrontos entre policiais militares e integrantes do PCC provocaram 564 mortes, com indícios de execução de vítimas por agentes do Estado. Em denúncia formal à Organização das Nações Unidas (ONU) contra o Estado brasileiro, o movimento Mães de Maio acusa a omissão das autoridades na investigação e punição dos responsáveis, além de denunciar a continuidade da violência policial nas periferias do país.

Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, em   28/10/2025   . Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, em   28/10/2025   . Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 17 pessoas são mortas por dia pela polícia no Brasil. Dentre as vítimas, 97% são homens, em sua maioria negros e moradores de favelas.

Na Bahia, estado com maioria da população negra, impera a maior taxa de letalidade policial do país: apenas em 2024, a polícia matou 1.557 pessoas. Nos anos de 2023 e 2024, a Polícia Militar da Bahia matou mais pessoas do que todas as polícias dos Estados Unidos juntas no mesmo período.

O Atlas da Violência 2025 revela que uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser assassinada do que uma pessoa branca. Em 2023, 34% das mortes de jovens no país foram causadas por homicídios, sendo a morte violenta a principal causa de óbito entre pessoas de 15 a 29 anos no Brasil.

No Rio de Janeiro, o Massacre da Penha, realizado no final de 2025, foi a maior chacina policial já registrada no país, totalizando 121 mortos. Destes, 117 foram classificados como “suspeitos” pela polícia — todos homens, entre 20 e 30 anos — e quatro eram agentes de segurança. Apesar de mobilizar cerca de 2.500 militares, a operação não resultou na prisão de nenhum líder do tráfico, mas indica uma política de extermínio sem qualquer respaldo na legislação brasileira.

No estado do Amapá, que possui uma das maiores taxas de homicídios do Brasil, 16,7% de todas as mortes decorrem de causas não naturais, sendo os homicídios a principal delas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O fato é que o principal saldo de operações com mortes e sem justiça é o de moradores de bairros pobres vivendo sob uma sensação constante de medo e insegurança. O sistema da violência e o aparato repressivo funcionam como forma de paralisar a população e impedir reação.

São Paulo (SP), 31/10/2025 - Policiais militares fazem barreira em frente a pessoas na Avenida Paulista durante manifestação contra a operação policial Contenção no Rio de Janeiro. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
São Paulo (SP), 31/10/2025 – Policiais militares fazem barreira em frente a pessoas na Avenida Paulista durante manifestação contra a operação policial Contenção no Rio de Janeiro. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A cerca de um quilômetro de distância do Morro do São Bento – visível a partir do morro mesmo nos dias mais nublados –, está o Porto de Santos, o 37º maior porto do mundo e o maior do Hemisfério Sul. E nele se concentra um dos maiores fluxos de exportação de cocaína do mundo e a maior rota de envio da droga para a Europa, segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o tráfico nos portos brasileiros[1]. Se o objetivo de uma operação como a do São Bento fosse de fato enfrentar o tráfico, faria mais sentido direcionar a rota das operações para lá.

No segundo semestre de 2025, foram apreendidas mais de seis toneladas de cocaína no Porto de Santos, em operações da Polícia Federal e da Receita Federal. As apreensões envolveram drogas ocultas em contêineres, cargas comerciais e até na estrutura de navios. Esses dados comprovam que a circulação massiva de drogas não está concentrada nas favelas brasileiras, onde ocorrem as operações policiais letais, mas nas fronteiras, nos portos e nos aeroportos.

Ainda segundo o TCU, se a cocaína apreendida nos portos brasileiros em 2023 fosse uma commodity agrícola, ocuparia a oitava posição entre os produtos exportados do país, com valor estimado em US$ 2,79 bilhões – considerando apenas o volume interceptado.

Investigações da Polícia Federal e do Ministério Público de São Paulo apontam que o fluxo financeiro desse mercado segue caminhos complexos e estruturas sofisticadas que operam dentro da economia formal, revelando o envolvimento do crime organizado com o sistema financeiro no Brasil.

Operações como a batizada de Carbono Oculto, realizadas na Avenida Faria Lima – coração financeiro do país – revelaram grandes esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo o Primeiro Comando da Capital (PCC), empresas de fachada, fundos imobiliários ilegais, a cadeia produtiva de combustíveis e plataformas financeiras digitais usadas para “limpar” o dinheiro do tráfico.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022 o crime organizado movimentou, ao menos, R$ 146,8 bilhões apenas em mercadorias lícitas como combustíveis, bebidas, mineração e transporte de cargas. Somando-se os ganhos com tráfico de drogas, fraudes e crimes virtuais, estima-se uma movimentação anual de cerca de R$ 348 bilhões– o equivalente a 3,4% do PIB brasileiro. Trata-se de uma economia criminosa de escala internacional, profundamente integrada ao sistema econômico.


[1] Tribunal de Contas da União (TCU). Auditoria operacional sobre a atuação de órgãos no combate ao tráfico de drogas em portos brasileiros (TC 005.929/2025-3). Brasília, 2026. Disponível em: https://portal.tcu.gov.br/uploads/noticias/pdf/2026/03/18/005.929-2025-3-AN_-_auditoria_trafico_de_drogas_portos_Mare_Branca.pdf. Acesso em: mar. 2026.

O debate da segurança no Brasil, num momento em que a América Latina é visada por acordos de militarização com os Estados Unidos, acabou sendo contaminado por interesses em favorecer a ingerência externa nos assuntos do país. Isso acontece, no âmbito externo, no anúncio da classificação  de organizações criminosas (como PCC e CV) como  grupos terroristas e, no âmbito interno, de tornar isso lei por iniciativas como o PL 3.830/2024.

Um substitutivo aprovado na Comissão de Relações Exteriores da Câmara incluiu PCC e o CV no rol de grupos terroristas, alterando as leis atuais.

De acordo com o  presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (Ibccrim), Antonio Pedro Melchiorm, no site Consultor Jurídico, o terrorismo é uma forma de violência com finalidade político-ideológica, que não se confunde com a atuação de facções, que são voltadas ao controle de mercados ilícitos. Ele alerta que “o alargamento do conceito de terrorismo visa legitimar ações de exceção, a exemplo do extermínio de pessoa ou grupos. Se a proposta for aprovada, o Brasil teria potencialmente mais grupos terroristas que países do Oriente Médio, que estão no centro das questões geopolíticas envolvendo esses grupos”.

O  Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE) aponta o risco de  pressões políticas e econômicas externas, exigências internacionais de novas medidas de segurança e tentativas de interferência estrangeira em nome da “segurança internacional”. Juntam-se a isso possíveis restrições e controles financeiros, comerciais e cooperação internacional. No limite, essas consequências podem reduzir a autonomia do Brasil em decisões de política interna e externa”, diz o instituto. A alteração ainda poderia levar à supressão de direitos e garantias fundamentais em nome de uma suposta preservação da segurança nacional, aponta o consultor jurídico.

As ameaças avançam com iniciativas de políticos brasileiros. Um relatório pedindo que o CV seja considerado terrorista pelos EUA foi enviado pelo governo do Rio Janeiro à embaixada americana no estado.

Blanca Fernandes é coordenadora da Frente Negra Revolucionária na Baixada Santista. Formada em Serviço Social pela Unifesp, é servidora na Praia Grande.

Cadu Machado integra a redação do jornal A Verdade. Formado em Relações Internacionais pela UFABC, escreve sobre lutas sociais, economia e conjuntura nacional e internacional.

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