Publicado em
23/07/2026
O cenário político brasileiro em 2026 marca um amadurecimento sem precedentes da representatividade originária nos espaços de decisão e no processo eleitoral.
Por Aline Baker

O cenário político brasileiro em 2026 marca um amadurecimento sem precedentes da representatividade originária nos espaços de decisão e no processo eleitoral. O que antes poderia ser visto apenas como ativismo de base consolidou-se no conceito de ‘Aldear a Política’: um movimento de mobilização que busca levar os modos de vida, os saberes e as visões de mundo que sustentam a vida para dentro do centro do poder, transformando o modo de legislar a partir da ancestralidade e da proteção ambiental.
O conceito de “Aldear a Política” transcende a simples disputa por cargos, configurando-se como uma estratégia de sobrevivência e poder de decisão. Originado em 2017 e formalizado pela APIB em 2020 para combater a sub-representação histórica na política, o movimento entende que a crise climática e democrática exige o protagonismo indígena direto nas instituições. Aldear significa “reflorestar as mentes” e ocupar o Estado com uma visão de mundo que coloca a vida, as águas e as florestas no centro das decisões, retirando a pauta ambiental da propaganda e levando-a para a prática governamental.

Não se trata apenas de ocupar espaços de fala, mas de disputar os rumos do país para interromper o “genocídio legislado”. Esse termo, cunhado no manifesto da APIB, denuncia como o Congresso Nacional, muitas vezes capturado por interesses do agronegócio e da mineração, utiliza a criação de leis e manobras jurídicas para rasgar a Constituição de 1988 e avançar sobre os direitos territoriais. Para o movimento, o genocídio não ocorre apenas por meio da violência física, mas também por intermédio de canetas e votos parlamentares que buscam institucionalizar o apagamento dos povos originários e a destruição de seus modos de vida.
Diferentemente de uma campanha eleitoral convencional, o Aldear a Política atua como uma rede de ocupação institucional. Seu principal braço legislativo é a Bancada do Cocar, fortalecida em 2022 após anos de mobilização e formação política. Naquele ano, o movimento lançou 30 candidaturas que somaram mais de meio milhão de votos, resultando na eleição de lideranças indígenas como Sônia Guajajara (PSOL-SP) e Célia Xakriabá (PSOL-MG), que, ao lado de Juliana Cardoso (PT-SP), defendem os direitos territoriais no Congresso. Para as próximas eleições, a estratégia é ampliar a presença indígena no Senado e nas Assembleias Estaduais, com mandatos vinculados aos territórios e às comunidades que representam.
Para o movimento, cada voto em 2026 representa uma ferramenta de futuro e de resistência contra parlamentos capturados por interesses do agronegócio e da mineração. A proposta é fortalecer candidaturas comprometidas com os direitos dos povos indígenas, ampliando sua capacidade de enfrentar interesses que historicamente ameaçam seus territórios. Nesse sentido, o Aldear a Política busca reafirmar que não existe agenda climática ou democracia plena no Brasil sem o protagonismo político dos povos originários.
Aprofunde o debate:
Leia o manifesto completo do movimento Aldear a Política neste link.
Nota-de-posicionamento_APIB.pdf