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29/10/2025

Cúpula dos Povos reúne organizações do mundo todo e lidera chamado global para o enfrentamento à crise climática e socioambiental

A Revista Casa Comum entrevistou especialistas, ativistas e estudiosos do Brasil, Nigéria, Honduras, África do Sul e Estados Unidos, que compartilharam análises da situação atual diante das mudanças climáticas e da preparação para a COP 30, apontando que o caminho da transformação está na força popular.

Por Maria Victória Oliveira

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Brigadistas e voluntários combatem as chamas durante incêndio na Chapada dos Veadeiros, em outubro de 2017. Alto Paraíso de Goiás e Cavalcante (GO). Foto: Matheus Alves / Mídia NINJA

Atualmente, os 20 países que mais poluem são responsáveis por cerca de 85% das emissões globais de carbono. Entre os maiores emissores, estão China, seguida de Estados Unidos, Índia, União Europeia e o conjunto de países formado por Rússia, Brasil, Japão e Indonésia. Essas nações compartilham uma ou mais características, como alta produção industrial, dependência do carvão, desmatamento, exploração de combustíveis fósseis, entre outras.

O dado é do relatório Culpados pela crise, responsáveis pela conta, de 2025, uma iniciativa da Oxfam Brasil, que também traz outras informações alarmantes, como o fato de que apenas 100 empresas foram responsáveis por mais de 70% das emissões globais de gases de efeito estufa desde 1988, e que o 1% mais rico da população mundial emite mais carbono do que os 50% mais pobres juntos.

Esses números são apenas a ponta do iceberg quando se fala em crise climática. A imagem atual do mundo é composta por cenas de devastação que se repetem em diferentes regiões.

Crise climática ocasiona a maior enchente da história do Rio Grande do Sul, em maio de 2024. São Leopoldo (RS). Foto: Thales Renato / Mídia NINJA

O Brasil acompanhou de perto a calamidade causada pelas fortes chuvas. De acordo com a publicação As Enchentes no Rio Grande do Sul – Lições, Desafios e Caminhos para um Futuro Resiliente, lançada em 2025, iniciativa da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), as cheias de 2024 representaram o maior desastre hidrológico da história do Rio Grande do Sul. Dos 497 municípios gaúchos, 478 foram afetados, com quase 2,4 milhões de pessoas impactadas. Foram confirmadas 183 mortes e 27 desaparecidos, além de 806 feridos. Mais de 15.000 km² ficaram submersos, e a exposição às águas da inundação causou mais de 15 mil casos registrados de leptospirose. Residências foram severamente atingidas, com milhares de casas destruídas ou danificadas. Cerca de 146 mil pessoas foram desalojadas e mais de 50 mil ficaram desabrigadas.

Ao mesmo tempo em que o estado gaúcho lutava para se recuperar da devastação causada pela água, uma análise exclusiva da InfoAmazonia mostra que 59,5% dos municípios (459) da Amazônia Legal estiveram sob seca durante todo o ano de 2024. Realizado com base em dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), o estudo mostrou que, no auge do verão, por exemplo, 759 cidades – o que equivale a 98,3% do total – enfrentavam algum grau de seca.

O contexto contribuiu para que alguns rios da região, como o rio Amazonas e o rio Negro, registrassem mínimas históricas, cenário agravado por conta das mudanças climáticas, como mostra uma análise do World Weather Attribution (WWA): “As mudanças climáticas, e não o El Niño, são o principal causador da seca excepcional na Bacia Amazônia, que é altamente vulnerável. A Bacia abriga a maior floresta tropical do mundo, tornando-a um centro de biodiversidade-chave para o ciclo hidrológico global e de carbono. Os níveis do rio estão registrados no nível mais baixo em 120 anos, ameaçando cerca de 30 milhões de pessoas que vivem na bacia amazônia em diferentes países, incluindo Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador e Bolívia, interrompendo o transporte, isolando comunidades e matando a vida selvagem.”

A crise do clima pelo mundo

> Inundações no Texas, EUA: em julho deste ano, tempestades fizeram o Rio Guadalupe, um dos principais da região, subir nove metros em duas horas. As 27 meninas e monitoras do acampamento Camp Mystic, por exemplo, estão entre as mais de 100 mortes confirmadas.

> Chuvas no Paquistão: segundo o Observatório do Clima, a inundação em setembro deste ano é considerada a pior da história na província de Punjab, com quase quatro milhões de atingidos. São cerca de 900 mortes confirmadas, mais de mil feridos, quase quatro mil vilarejos completamente inundados e 9.400 moradias afetadas.

> Europa queimando: a seca e ondas de calor criam situações propícias para o fogo. Apesar de 2025 ainda não ter acabado, o ano já é considerado o pior quando o assunto é queimada na Europa, com mais de um milhão de hectares destruídos. De acordo com o site World Weather Attribution, as mudanças climáticas são responsáveis por intensificar diferentes eventos pelo globo. É o caso dos recordes de incêndios em Portugal e Espanha. Até 1º de setembro, mais de 380 mil hectares haviam queimado em toda a Espanha desde o começo do ano, segundo reportado pelo Copernicus European Forest Fire Information System (EFFIS). Os chamados “incêndios mortais” na Turquia, Chipre e Grécia também foram potencializados pela crise do clima, a partir de ondas de calor de mais de 45°C, seca e ventos fortes.

Uma COP diante do mundo em emergência

Os dados mostram que o mundo vive um estado de emergência generalizado.

O relatório State of the Global Climate 2024 (em tradução livre, Estado do Clima Global), iniciativa da Organização Meteorológica Mundial (OMM), avalia que o ano passado foi o mais quente em 175 anos de história de observação. Os três grandes gases de efeito estufa, que contribuem fortemente para a mudança do clima, tiveram aumento de emissões, chegando a patamares alarmantes: dióxido de carbono em 151% dos níveis pré-industriais, metano em 266% (as emissões do Brasil cresceram 6% em quatro anos, com o rebanho bovino como responsável pela maior parcela de liberação de metano na atmosfera) e óxido nitroso em 124%.

O aumento da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera contribui também para o aumento da temperatura na superfície terrestre e nos oceanos, com efeitos na vida marinha e no nível dos oceanos. O relatório Frontiers 2025: The Weight of Time – Facing a new age of challenges for people and ecosystems (em tradução livre, O Peso do Tempo: Enfrentando uma Nova Era de Desafios para Pessoas e Ecossistemas), iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), mostra que o aumento da temperatura pode impactar a Criosfera, como são chamados ecossistemas de água congelada ou onde o solo é congelado de acordo com as estações, ou seja, a região do Ártico, as camadas de gelo da Antártida e da Groenlândia, plataformas de gelo, geleiras e outras formações cobertas de gelo e neve. Com isso, micro-organismos antigos – atualmente dormentes nas partes congeladas do Planeta, como bactérias, fungos e vírus – podem ser reativados, ao passo que pesquisas sugerem que alguns destes possam ser patógenos capazes de infectar plantas e animais, incluindo seres humanos.

Rio Guamá e Ilha do Combú ao fundo, região metropolitana de Belém (PA).
Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

É diante desse contexto que se desenha a próxima
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (em inglês, United Nations Framework Convention on Climate Change ou UNFCCC), a Conferência das Partes, ou, ainda, COP. Em sua 30ª edição, o evento acontece entre os dias 10 e 21 de novembro, pela primeira vez no Brasil, na cidade de Belém, no Pará.

Mas o que significa, afinal, trazer uma COP para a Amazônia, um dos locais mais biodiversos do Planeta? Se, em um primeiro momento, alguns podem pensar que essa é uma oportunidade de mostrar ao mundo as maravilhas e potencialidades dessa grande floresta tropical, Rubens Harry Born, engenheiro civil com especialização em engenharia ambiental, fundador e consultor do Fundo Casa Socioambiental, membro do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e diretor da Fundação Grupo Esquel Brasil (FGEB), chama a atenção para a possibilidade de o Brasil realizar uma autoanálise sobre suas práticas na região amazônica.

Rubens Born, fundador e consultor do Fundo Casa Socioambiental. Foto: Attilio Zolin

Rubens Born assinou uma carta, em novembro de 2022, em nome do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS), destinada aos então recém-eleitos presidente Luiz Inácio Lula da Silva e vice-presidente Geraldo Alckmin, com a proposta de que o novo governo pudesse sinalizar a disposição do Brasil em sediar a COP 30 em 2025, “como ato político do compromisso de nossa contribuição significativa aos esforços globais para o enfrentamento da crise climática”, como traz trecho da carta.

Em entrevista à Revista Casa Comum, Rubens explica a sugestão. “‘Mas por que no Brasil?’ Para jogar luz onde tem sombra, para revelar as contradições. Esse não é só um momento internacional, mas é o momento de o Brasil fazer uma autoanálise. Está certo fazer exploração na plataforma equatorial? Está certo continuar com os níveis indecorosos de desmatamento? Até o momento estamos com diversas questões pendentes, não só de desmatamento, mas também de demarcação e desintrusão de invasores em terras indígenas, a questão do saneamento. Eu acho que as COPs servem ou deveriam servir para cada país [sede] sair da sua zona de conforto e fazer as análises da sociedade, do governo, das empresas que operam e tentar fazer mudanças.”

Com ampla trajetória e participação em eventos e convenções do clima, Rubens esteve presente em 16 COPs. Quando questionado se, assim como muitas pessoas, é cético no poder de mudança de espaços como as Conferências, afirma que pessoalmente segue dois princípios, um ético e um político. “Se não queremos ser vítimas nem cúmplices do descaso [com o clima], precisamos ser agentes de transformação. Já me perguntaram várias vezes: ‘Depois de tantas COPs, você não desistiu ainda?’ E eu respondo que, enquanto tiver forças, não vou desistir. Se quero proteger a Casa Comum, a vida de todas as pessoas e seres, tenho essa obrigação ética e política de atuar [nas COPs].”

Em seu doutorado em sociologia jurídica e meio ambiente, pôde perceber que debates que acontecem paralelamente às COPs têm o potencial de fazer uma influência nas negociações climáticas. “Mesmo que esses debates [paralelos] não influenciem diretamente uma decisão na COP 30, eu acho que ajudam a aumentar a massa crítica de pessoas conscientes nesse processo que é lamentavelmente lento. Acredito que vai ser a influência de fora para dentro que vai proteger a nossa Casa Comum.”

Só um caminho possível: a união dos povos pela justiça socioambiental

Assim como Rubens, é justamente sobre a importância do engajamento e da participação social em prol de mudanças de fora para dentro que falam Tasneem Essop e Bertha Zúñiga.

Tasneem Essop é especialista em questões sobre clima, energia, pobreza e justiça social, diretora executiva da Climate Action Network International (CAN) e diretora fundadora da Energy Democracy Initiative na África do Sul. Já Bertha Zúñiga é ativista social indígena e coordenadora do Consejo Cívico de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras (COPINH).

Tasneem Essop, diretora executiva da Climate Action Network International (CAN), durante reunião da Comissão Política da Cúpula dos Povos, realizada
em Belém (PA), de 30 de maio a 2 de junho de 2025.
Foto: Élida Galvão / GT Comunicação Cúpula

dos Povos

Em entrevista à Revista Casa Comum, falam, em idiomas diferentes e de partes opostas do mundo, uma mesma mensagem: “É fundamental que os movimentos populares lutem pela mudança de sistema enquanto a única solução sustentável para enfrentar todas essas crises e garantir uma vida melhor para todos. A maneira de fazer isso é construirmos unidade e nosso poder coletivo, em níveis nacional, regional e global. Os governos não proporcionarão a mudança de que precisamos; aqueles que estão no poder nunca renunciam ao poder voluntariamente. A mudança só virá por meio do poder do povo”, aponta Tasneem. Bertha concorda, e reforça: “Mudanças profundas e reais não são produzidas por governos, que têm uma lógica de estado colonial.”

A união dos povos, principalmente dos menos favorecidos e maiores afetados pelas consequências dessa crise, é um dos caminhos mais promissores para a promoção de mudanças efetivas, que perdurem e que consigam promover alterações no paradigma atual e, consequentemente, nos rumos do Planeta, a fim de assegurar a continuidade da vida – humana, animal, vegetal – na Terra.

A solidariedade internacional, portanto, com a união de conhecimentos, experiências, potências e sabedorias de diferentes partes do mundo, é fundamental na construção de parcerias, acordos e movimentos de cooperação diante de uma agenda de tamanha urgência.

É nesse contexto que se desenham movimentos de articulação de grupos, coletivos e organizações da sociedade civil. Um exemplo deles é a Cúpula dos Povos, espaço que congrega movimentos sociais e populares, coalizões, redes e organizações da sociedade civil do Brasil e do mundo com o objetivo de fortalecer a construção popular e convergir pautas de unidade das agendas: socioambiental, antipatriarcal, anticapitalista, anticolonialista, antirracista e de direitos, respeitando suas diversidades e especificidades, unidos por um futuro de Bem Viver.

Protesto marca o início das obras da Blue Zone da COP 30, em Belém. Enquanto as estruturas começavam a ser montadas, indígenas, ribeirinhos e movimentos sociais ocuparam a frente do hangar com faixas e um globo inflável gigante, afirmando: “Na COP na Amazônia, a resposta somos nós”.
Foto: João Paulo Guimarães

Desde 1992, a Cúpula dos Povos propõe discussões alternativas àquelas que acontecem nas COPs: enquanto essas seguem negociando números e metas, a Cúpula fala de vidas, direitos e territórios, e busca a construção de um futuro enraizado na justiça social e ambiental.

Conheça o Manifesto

Além de compartilhar sobre o processo de convergência entre organizações e movimentos que tem sido realizado como preparação para a realização da Cúpula dos Povos em novembro, em Belém (PA), o “Manifesto da Cúpula dos Povos” faz uma análise atual da conjuntura política no mundo, reforçando a insuficiência de medidas para conter as crises do clima, bem como omissões e soluções ineficientes por parte de países e tomadores de decisão. “No contexto atual, mais do que nunca, precisamos avançar em espaços coletivos que defendam a democracia e a solidariedade internacional, enfrentem a extrema direita, o fascismo, os fundamentalismos, as guerras, a financeirização da natureza e a crise do clima”, aponta trecho do documento.

>>Fique por dentro:
cupuladospovoscop30.org/manifesto

Os eixos de convergência da Cúpula dos Povos

Com o objetivo central de ser um chamado à ação por uma transição justa e solidária, na qual ninguém é deixado para trás, a Cúpula dos Povos conta com seis eixos temáticos de convergência para direcionar suas propostas, atuação e debates. São eles:

Eixo I – Territórios e Maretórios vivos, Soberania Popular e Alimentar: defesa dos territórios, dos modos de vida tradicionais e da agroecologia como base para a soberania dos povos.
Eixo II – Reparação histórica, combate ao racismo ambiental, às falsas soluções e ao poder corporativo: enfrentamento das injustiças e desigualdades históricas, especialmente as que afetam povos indígenas, quilombolas e comunidades periféricas.
Eixo III – Transição Justa, Popular e Inclusiva: construção de alternativas econômicas sustentáveis, com participação ativa das populações mais afetadas pela crise climática.
Eixo IV – Contra as opressões, pela democracia e pelo internacionalismo dos povos: fortalecimento da democracia popular e das redes de solidariedade entre os povos do mundo.
Eixo V – Cidades justas e periferias urbanas vivas: articulação entre campo e cidade, valorizando as lutas urbanas por justiça e dignidade.
Eixo VI – Feminismo popular e resistências das mulheres nos territórios: centralidade das mulheres na luta por justiça climática e contra todas as formas de opressão.

Confira a prévia da programação da Cúpula dos Povos

Neste ano, a Cúpula dos Povos acontece entre os dias 12 e 16 de novembro, na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém (PA), como um contraponto crítico à COP 30, demandando do governo brasileiro um papel de liderança na agenda socioambiental.

Uma prévia da programação da Cúpula dos Povos já está disponível. Confira:

>12 de novembro: chegada das delegações e abertura oficial do encontro;

> 13 e 14 de novembro: plenárias dos eixos de convergência, com diagnósticos, denúncias e estratégias populares de resistência e enfrentamento à crise climática; atividades de enlace entre os eixos; assembleias de movimentos; um festival cultural; uma feira de economia popular e sessões informativas sobre a COP;

>15 de novembro: uma das datas mais aguardadas do encontro, quando acontece a Marcha unificada do Dia de Ação Global por Justiça Climática. Será um dia de ato global, com o objetivo de somar vozes e esforços de organizações da sociedade civil nacionais e internacionais e mostrar ao mundo a urgência da justiça climática, além de um festival oficial, feira popular e
sessões informativas;

> 16 de novembro: audiência pública com a presidência da COP, além de um banquete coletivo, atividades culturais, sessões informativas, e encerramento do encontro.

>> Saiba mais em: instagram.com/cupuladospovoscop30

Por que a crise do clima é uma crise social?

Mulheres em comunidade quilombola no Vale do Jequitinhonha (MG), em outubro de 2020. Foto: Vrin Resende / Mídia NINJA

Uma das principais agendas da Cúpula dos Povos é a justiça climática. Composta por mais de 1.100 organizações brasileiras e internacionais, que analisam a crise climática e seus efeitos a partir de suas realidades locais, a Cúpula e seus membros convergem na tese de que comunidades indígenas, tradicionais e periféricas são as que menos contribuíram para a crise climática, mas, ao mesmo tempo, as que mais sofrem com seus impactos.

Um exercício rápido mostra que, em situações de fortes chuvas, por exemplo, são as pessoas que moram precariamente, em casas com pouca infraestrutura ou em locais de risco, como encostas, barrancos ou em palafitas na beira de rios e mangues, as mais suscetíveis a sofrer com deslizamentos, enchentes e outros efeitos diversos. São moradores de favelas e comunidades urbanas, que não contam com áreas verdes e arborização, que encaram problemas respiratórios ocasionados por umidade, poluição, má iluminação ou calor excessivo.

Ao aprofundar essa análise, pode-se perceber que, na maioria dos casos, pessoas com as mesmas características são submetidas a essas condições, como aponta Tasneem Essop, diretora executiva da Climate Action Network International (CAN) e diretora fundadora da Energy Democracy Initiative, na África do Sul. “Os impactos das mudanças climáticas já estão sendo sentidos em todo o mundo e de forma mais forte pelo Sul Global, particularmente em comunidades que já são marginalizadas e vulneráveis em nossas sociedades, ou seja, aquelas que sofrem com a pobreza e a desigualdade, mulheres, indígenas, pessoas negras, crianças, idosos, pessoas com deficiência etc.”

Ela reforça, ainda, que essas pessoas que mais sofrem os efeitos da crise climática são as que menos contribuíram para causá-la ou agravá-la. Assim, é possível afirmar que, de forma geral, países ricos e desenvolvidos do Norte Global detêm maior responsabilidade diante da crise climática, com altos índices de atividades industriais poluentes, enquanto o Sul Global, formado majoritariamente por nações em desenvolvimento, sofre em maior escala com os efeitos provocados pela crise.

Durante sua participação na COP 27, realizada no Egito em 2022, Tasneem comentou sobre a importância da decolonização da economia e das sociedades para alcançar uma justiça real e duradoura. Isso porque, segundo a especialista, a crise climática – e a injustiça que decorre dela – tem suas raízes no sistema colonial, baseado no extrativismo, com países coloniais extraindo recursos dos colonizados, construindo sua industrialização, riqueza e economias a partir disso.

“Essa industrialização, que dependia de combustíveis fósseis, é um dos principais impulsionadores da crise climática atual. E hoje ainda vemos essas características do colonialismo persistirem, com os países do Norte Global continuando a explorar recursos para seu benefício e seus interesses corporativos e com pouquíssima consideração pelas necessidades do Sul Global. Esse poder e domínio continuam a ter as características do colonialismo. O sistema econômico é estruturado sobre isso.”

Perspectiva política do Norte e Sul Global e a questão das dívidas nacionais

Uma das principais agendas da CAN – a maior rede ambiental do mundo, que congrega mais de 1.900 organizações da sociedade civil em mais de 130 países, unidas com o propósito de endereçar a crise climática – é a dívida internacional das nações. Um dos apelos do Papa Francisco, na primeira missa de 2025, foi, inclusive, pelo perdão das dívidas dos países mais pobres.

Dados da CAN mostram, por exemplo, que no início de 2025, 54 países estavam em situação de crise fiscal, e que Moçambique gastou quatro vezes mais com a dívida do que na preparação para enfrentamento de desastres em 2023. Isso leva a um círculo vicioso: maior vulnerabilidade a eventos climáticos, que levam a maiores empréstimos, à tentativa de pagamento da dívida com remessas financeiras a credores internacionais, orçamentos se contraem, o que prejudica o investimento para o enfrentamento de desastres, que aumenta a vulnerabilidade e, assim, o ciclo recomeça.

Segundo Tasneem, o peso da dívida é um desafio sério no hemisfério sul, agravado pelo fato de o hemisfério norte não ter cumprido suas obrigações de fornecer financiamento climático na escala necessária. “Isso significa que os países do hemisfério sul precisam usar seus próprios orçamentos para lidar com a crise climática, especialmente os custos dos impactos devastadores. Além disso, a maior parte do financiamento climático que o hemisfério norte fornece é na forma de empréstimos e não de doações. Isso aumenta o peso da dívida. A implicação disso é que os países do Sul Global não têm espaço fiscal para lidar com suas necessidades de desenvolvimento. O problema é ainda mais agravado pelo fato de muitos países do Norte Global também estarem cortando seus orçamentos de ajuda externa ao desenvolvimento.”

Nesse sentido, a diretora aponta a importância da justiça fiscal e tributária, para que nações, empresas e pessoas ricas – os maiores responsáveis pela crise do clima – possam assumir mais encargos e arcar com a sua parte, para que o peso não recaia sobre os menos ricos e sobre comunidades em maior situação de vulnerabilidade.

Falta de ação: uma escolha econômica e política

Inúmeros monitoramentos sobre a situação climática pelo mundo não são novos. Isso significa que existem séries históricas de pesquisas e relatórios que mostram a progressão dos efeitos das mudanças do clima em diferentes países e regiões, bem como tratados que, há décadas, sinalizam a importância de conter emissões de gases de efeito estufa. É o caso do Protocolo de Kyoto que, já em 1997, quando foi criado (e em vigor a partir de 2005), apontava a importância dessa medida para frear as mudanças do clima. Não é possível, portanto, afirmar que a falta de ações de enfrentamento desse contexto decorre da falta de informações e de conscientização.

“A falta de ação de certos governos, indústrias e forças políticas é uma escolha consciente”, analisa Tasneem.

Nnimmo Bassey, diretor do think-tank ecológico Health of Mother Earth Foundation (HOMEF), durante COP 29. Foto: HOMEF

Assim como a ativista sul-africana, para Nnimmo Bassey, ambientalista, arquiteto, escritor e diretor do think-tank ecológico Health of Mother Earth Foundation (HOMEF), esse cenário está diretamente conectado ao sistema econômico vigente: o capitalismo, aos processos de colonização em todo o mundo e, sobretudo, à priorização do lucro em detrimento da vida.

“Não há falta de conscientização sobre a crise. Estamos em uma situação em que governos e poluidores simplesmente se recusam a agir porque estão lucrando com ações atrozes, como a expansão da extração de combustíveis fósseis e, agora, sacrificando comunidades por meio da extração dos chamados minerais críticos. Aqueles que lucram com a crise estão conscientemente promovendo falsas soluções, em vez de aceitar agir em conformidade com a base de justiça da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima [em inglês, United Nations Framework Convention on Climate Change ou UNFCCC], que exige Responsabilidades Comuns, Porém Diferenciadas (CBDR, da sigla em inglês) e capacidades variadas. Esse princípio exigia que as nações cortassem as emissões proporcionalmente à quantidade de carbono que lançaram na atmosfera. Desde a COP 15 [realizada em 2009, em Copenhague, na Dinamarca], o que foi entronizado é um regime de redução voluntária de emissões, e o resultado tem sido um aumento inabalável da temperatura global em comparação com o início da era capitalista.”

Com ampla trajetória na agenda de direitos humanos e ambientais, Nnimmo compartilha a situação do que chama de ecocídio e genocídio que acontece atualmente no Delta do Níger, na Nigéria, uma região de alto interesse e exploração petrolífera e de gás. Para Nnimmo, o Delta do Níger foi literalmente sacrificado no “altar do lucro”, com um processo de destruição que o ativista afirma ser intencional, persistente e extenso.

Nnimmo enumera violações de direitos na região: “Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente sobre Ogoni [povo integrante do Delta do Níger] divulgado em 2021, mostrou que todos os corpos d’água naquela região estavam contaminados com hidrocarbonetos. Em uma comunidade, descobriu-se que a água subterrânea continha benzeno, um conhecido carcinógeno, 900 vezes acima dos padrões da OMS [Organização Mundial da Saúde]. Em 2023, uma comissão criada pelo Estado de Bayelsa, um estado no Delta do Níger, publicou um relatório intitulado Genocídio Ambiental e uma das revelações foi que há 1,5 barril de poluição por petróleo bruto per capita no estado. Há um poço de petróleo que explodiu em maio de 2020 e está queimando desde então. Além disso, há mais de 100 enormes fornalhas a gás nos campos de petróleo do Delta do Níger que queimam sem parar há décadas. Isso é ecocídio. Considerando que a expectativa de vida aqui é de minúsculos 41 anos, a situação é de genocídio.” (leia mais sobre este tema no Em Perspectiva, na página 41)

Um continente que resiste

As chamadas soluções climáticas estão criando novos territórios e formas de disputa de exploração da Natureza e dos ecossistemas, como conta Nnimmo. O ativista fala sobre uma “nova onda de disputa pela África”, ao citar que a compra de terrenos por especuladores, a fim de ganhar créditos de carbono, também acontece em diferentes partes do mundo e no continente africano. Esse movimento tem sido percebido por redes e movimentos de resistência à exploração ambiental. Nnimmo cita
duas iniciativas: a Oilwatch Africa, contra a expansão de combustíveis fósseis, e a African Food Sovereignty Alliance (AFSA), que luta pela promoção de soluções africanas de soberania alimentar. (leia mais sobre este tema no Em Pauta, na página 29)

>>Saiba mais em:
oilwatch.africa
afsafrica.org

O ataque àqueles que protegem o meio ambiente

Por mais que o caso do assassinato de Dom Phillips, jornalista inglês, e Bruno Pereira, indigenista brasileiro, tenha chamado atenção no mundo todo em 2022, a violência contra ativistas do meio ambiente e defensores de direitos humanos é um fato longe de ser incomum em algumas regiões, principalmente naquelas onde são abundantes os elementos naturais.

É o caso de Berta Cáceres, assassinada em 2016 por ter apresentado resistência ao projeto hidrelétrico Agua Zarca, no rio Gualcarque, Intibucá, oeste de Honduras, considerado sagrado pelo povo Lenca.

Bertha Zúñiga, coordenadora do Consejo Cívico de Organizaciones
Populares e Indígenas de Honduras (COPINH). Foto: COPINH

Sua frase “Acreditaram que a impunidade é eterna. Se enganam. Os povos sabem fazer justiça” inspira, por exemplo, a atuação de sua filha, a ativista social indígena Bertha Zúñiga, que, além de buscar justiça pelo assassinato da mãe, é coordenadora do Consejo Cívico de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), uma organização social e política, de caráter indígena e sem fins lucrativos, que luta pela defesa do meio ambiente, pelo resgate da cultura do povo Lenca e pela promoção de melhores condições de vida da população da região sul ocidental de Honduras.

Para Bertha, as lutas de pessoas defensoras da Natureza é um alerta para a sociedade sobre o que vivenciamos atualmente em termos de um processo recorrente de exploração do meio ambiente. Nesse sentido, a ativista fala na obrigação do poder público de diferentes nações tomarem iniciativas e desenvolverem mecanismos eficazes de amparo.

“Mais do que inspirar governos, é uma obrigação criar políticas de proteção, embora saibamos que isso não será suficiente se a lógica econômica de países como Honduras, por exemplo, não mudar. Temos uma matriz econômica baseada no extrativismo. Portanto, devemos também questionar a desigualdade histórica existente em nossos países e propor mecanismos eficientes”, aponta a ativista, ao citar que em Honduras é “totalmente ineficiente”.

A situação mostra que política, economia e meio ambiente caminham lado a lado. Assim, entre os pilares de luta do COPINH estão o anticapitalismo, antipatriarcado e antirracismo, todas as pautas, de alguma forma, diretamente conectadas com a crise socioambiental que assola todo o Planeta.

“O extrativismo e a mercantilização da Natureza são expressões do capitalismo que explora corpos, territórios e conhecimentos. Sabemos também que isso faz parte de uma estrutura mais ampla, patriarcal, que impõe papéis, violências e formas de pensar que também rebaixa as vozes de mulheres, que têm muita sabedoria para encontrar soluções que sustentem nossas comunidades, onde também há perspectivas patriarcais que visam silenciar suas vozes, como é o caso do crime contra minha mãe”, analisa Bertha.

A luta por memória, verdade e justiça para Zé Cláudio e Maria, casal extrativista paraense assassinado há mais de dez anos, por defender a floresta, segue viva com Claudelice Santos (que contou essa história na reportagem Em Destaque da 7ª edição da revista), sua filha Cláudia Letícia e a prima Clara Santos. Nova Ipixuna (PA).
Foto: Mídia NINJA

A coordenadora cita que setores poderosos da sociedade investem na produção de desinformação para evitar assumir compromissos que possam realmente mudar a situação da crise socioambiental. Ainda, critica as falsas soluções ambientais – que estão se tornando um negócio lucrativo – e problematiza a chamada transição energética, que, supostamente, diz respeito ao abandono dos combustíveis fósseis para energias mais limpas, “que têm um modelo de instalação tão ruim quanto os demais, por isso que muitos povos dizem que elas também fazem parte de um modelo extrativista.

À frente do COPINH, a ativista cita que a organização acredita que o racismo justificou a exploração de povos que viveram e vivem a colonização e o neocolonialismo. Assim, aponta para a necessidade de propor modelos de vida sustentáveis, equitativos e que respeitem direitos, tudo isso a partir de maneiras comunitárias que possam responder às demandas dos povos, mesmo que esse não seja um caminho fácil.

Isso inclui um chamado de conscientização e um compromisso de todos e todas pela defesa da Natureza, o que engloba, por exemplo, as infâncias e juventudes, mas também a proteção daqueles que defendem os ecossistemas. “Para nós o mais importante é o acesso à justiça como a maior garantia de não repetição dos crimes, e é isso que é tão difícil de encontrar não apenas em nossa região da América Latina ou do Sul Global, mas em todo o mundo, ainda mais quando falamos dos mandantes ou daqueles que pagam e ordenam os crimes [contra os defensores]”.

A demarcação dos territórios como política climática

Mais de oito mil indígenas marcham pelo Eixo Monumental em defesa dos direitos e da demarcação de terras durante Acampamento Terra Livre (ATL) de 2022. Brasília (DF). Foto: Mídia NINJA

Assim como em Honduras, povos indígenas do Brasil também vivem uma relação diferente com a Natureza.

Um estudo de 2023 do MapBiomas analisou dados do período entre 1985 e 2022 que mostraram que, enquanto áreas privadas sofreram uma devastação de 17% de sua vegetação nativa nos últimos 38 anos, em terras indígenas, a perda foi de menos de 1%. Apesar de ocupar 13% do território nacional, as terras indígenas contêm 19% de toda a vegetação nativa do país.

Já uma nota técnica de setembro de 2023 do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), em parceria com o Woodwell Climate Research Center, mostra que alguns territórios indígenas experimentam o chamado efeito “ar-condicionado”: por conta da preservação das florestas, a temperatura média anual, em espaços como o Território Indígena do Xingu, é 5°C menor do que a registrada em áreas do entorno, onde predominam monoculturas e pastagens. O fenômeno acontece em toda a Amazônia Legal: terras indígenas apresentam 2°C a menos de temperatura se comparadas a áreas não protegidas.

Não é exagero, portanto, dizer que os povos indígenas são parte essencial na luta contra as mudanças climáticas. Porém, a inclusão e consideração de seus saberes e conhecimentos ainda é um desafio, sobretudo no que diz respeito à preservação de seus costumes e culturas, o que está diretamente relacionado à questão territorial.

Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenação das Organizações
Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Foto: Vicente Buya

Toya Manchineri, do povo Manchineri, do estado do Acre, coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), compartilha que, entre as principais esperanças de legado da COP 30, está a consideração da demarcação e titulação de Terras Indígenas como uma política climática. “[Se isso acontecer] Aí sim vamos perceber que os governos, não só do nosso país, estão preocupados com a vida, com os ecossistemas, com as riquezas [naturais], com a diminuição do aquecimento global e o desmatamento das florestas. Senão, vai ser mais uma COP em que muito vai ser falado, mas que de coisas concretas não vai sair muito”, avalia.

Além de servir como uma barreira que impede o desmatamento, os Territórios Indígenas são, para o coordenador, um ponto comum de interesse compartilhado por “parentes” – como diferentes povos indígenas se chamam mutuamente – do mundo todo. Nesse sentido, Toya cita a Cúpula dos Povos e a COP 30 como espaços de promoção de maior conexão e união entre os povos indígenas dos sete continentes, a fim de formar uma grande aliança mundial em prol do reconhecimento dos direitos e territórios, intitulada Aliança Global de Comunidades Territoriais (GATC), que representa povos indígenas e comunidades locais de 24 países.

Esse movimento de promover maior união, inclusive, já vem acontecendo em alguns eventos, como foi o caso do Acampamento Terra Livre (ATL) 2025, em Brasília (DF), que contou com a participação de delegações indígenas de mais de 15 países, com representações dos oito países da bacia
Amazônia, da Austrália e Fiji.

A carta final do evento, publicada no site da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), traz importantes temáticas e demandas dos povos, como a declaração de inconstitucionalidade da Lei 14.701/2023, o chamado Marco Temporal, que determina que povos indígenas têm direito à terra se estivessem ocupando o espaço em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal brasileira.

“As crises climática, ambiental, alimentar e civilizatória têm em nossos modos de vida, saberes e práticas tradicionais o caminho para a regeneração do Planeta. Nossa ciência e sistema ancestral, expressa na agroecologia, nas economias indígenas, na gestão coletiva dos territórios, na nossa relação espiritual com a Mãe Natureza, preserva a biodiversidade, todas as formas de vida, incluindo os mananciais e sustenta sistemas alimentares saudáveis e equilibrados. Por isso, demandamos a retomada imediata das demarcações de todas as terras indígenas no Brasil, como uma política climática efetiva, e o financiamento direto para a proteção integral dos nossos territórios e nossos modos de vida“, traz trecho do documento.

Para Toya, o Brasil tem potencial, mas ainda está longe de ser um líder mundial na questão climática, diante de acenos positivos para a exploração de petróleo na Amazônia, por exemplo. Entretanto, aponta que o país tem, de fato, a capacidade de liderar esse movimento, o que demandaria uma determinação clara do período de transição dos combustíveis fósseis.

Entre os mecanismos que têm sido criados para proteger essa região fundamental para o equilíbrio do clima em todo o Planeta, bem como as populações que nela vivem, está o Mecanismo Amazônico dos Povos Indígenas (MAPI). Lançado durante a 5ª Cúpula de Presidentes da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), realizada em agosto em Bogotá, na Colômbia, o MAPI inaugura um modelo de governança paritária, compartilhada pelos oito países da Bacia Amazônica e oito organizações indígenas, a fim de debater temas de relevância para os povos indígenas na região. O primeiro ano da presidência do MAPI ficará a cargo do Brasil e da Coiab.

>> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_001

Modo de vida que inspira e ensina

Para os povos indígenas, a garantia do território está estritamente conectada com a preservação de suas memórias, modos de vida, cultura, conhecimento, seu trabalho e subsistência.

“Atualmente, alguns olhares externos falam que os indígenas não produzem. Pelo contrário. Nós produzimos e muito, desde o arroz, o milho, a macaxeira, a batata e [temos] animais domésticos, porque, com as mudanças climáticas, os povos indígenas também precisaram se adaptar para garantir sua segurança alimentar. Mas a questão é: os povos indígenas utilizam os seus territórios de forma manejada, respeitando a potencialidade do território, não trabalhando ele até secar as fontes”, analisa Toya.

Para o coordenador, um movimento importante seria que grandes empresários e a sociedade como um todo pudessem aprender mais sobre esse modo de vida e aplicar seus ensinamentos no dia a dia. “Muitas vezes falam: ‘Os povos indígenas são pobres, são simples’. Mas é um modo de vida que nos fortalece e traz esse conhecimento espiritual dentro das florestas do nosso território, um espaço sagrado, que é de todos, não apenas de uma pessoa. É dos povos indígenas, das florestas e dos animais que ali vivem.”

A perspectiva dos povos indígenas norte-americanos

Em seu primeiro dia de mandato em 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou e deferiu diferentes decretos presidenciais, entre eles a saída do país do Acordo de Paris a partir de janeiro de 2026. Entre outras disposições está também o fechamento do escritório de diplomacia climática, que representava o país na Organização das Nações Unidas (ONU), além da demissão dos profissionais envolvidos na agenda.

Assinado em 2015 durante a COP 21 por 195 Partes, o Acordo de Paris é um tratado internacional que tem como principal objetivo “manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais” e continuar os esforços em nível global para “limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.” Pesquisas e estudos indicam
que cruzar essa determinação de 1,5°C pode trazer consequências catastróficas e irreversíveis em termos de mudanças climáticas em todo o Planeta, comprometendo a continuidade da vida humana e de diversas espécies em diferentes regiões. (leia mais na Agenda de Pressão na
página 51)

>>Saiba mais: bit.ly/RCC_14_002
Tom Goldtooth, diretor executivo da Indigenous Environmental Network (IEN). Foto: Nedahness Greene

Tom B. K. Goldtooth, ativista climático, pertencente aos povos Diné e Dakota, e diretor executivo da Indigenous Environmental Network (IEN), a mais antiga rede de base indígena que trabalha com questões ambientais, climáticas e de justiça econômica na América do Norte, principalmente proteção e garantia dos direitos dos povos indígenas, afirma que nações e comunidades tribais indígenas dos Estados Unidos têm sido fortemente impactadas por diversas e distintas ações da nova administração norte-americana.

Entre elas, cita a desregulamentação de padrões ambientais relacionados a ar, água e terra limpos, do enfrentamento das mudanças climáticas e a expansão da exploração de petróleo, gás e carvão, bem como o congelamento e cortes de financiamento por parte do governo federal. “Nossas nações e comunidades tribais indígenas estão com dificuldades para afirmar nossa autodeterminação e garantir a sustentabilidade econômica vital para proteger nosso ar, água, terras ancestrais e saúde diante das mudanças climáticas.”

Segundo o ativista, uma das principais ações da Indigenous Environmental Network é compartilhar informações, como dados de saúde pública, emissões, qualidade do ar e da água, padrões climáticos e desastres naturais. “É importante conectar esses dados às causas e efeitos do mundo real para mostrar que a indústria está causando esses problemas. Além disso, [trabalhamos para] aumentar a consciência de classe e a educação sobre o capitalismo e o colonialismo verde e como eles exploram a todos.”

Tom cita o estudo Banking on Climate Chaos – Fossil Fuel Finance Report 2025, realizado por um grupo de organizações em nível global – entre elas a IEN –, que descobriu que os bancos aumentaram o financiamento de combustíveis fósseis em 162,5 bilhões de dólares entre 2023 e 2024, totalizando 7,9 trilhões de dólares desse financiamento desde o Acordo de Paris, firmado em 2015. “Durante décadas, indústrias e governos souberam dos graves riscos das mudanças climáticas, mas falharam em grande parte em agir com base na ciência. Na minha opinião, não falta conscientização coletiva. Mas eles se engajaram ativamente no negacionismo climático e científico e, agora, no negacionismo econômico, como atores em políticas racialmente divisivas.”

Tom lidera a delegação indígena da IEN desde a COP 04, realizada em 1998 em Buenos Aires, na Argentina. Baseado nessa experiência, defende que a Convenção-Quadro da ONU (UNFCCC) tem falhado com os povos indígenas, considerando uma base multilateral de negociações a partir do capitalismo e colonialismo. Para ele, não existe, dentro da UNFCCC, um mecanismo que envolva uma participação realmente significativa dos povos indígenas e de outras comunidades impactadas.

“A relação ainda é de extração: instituições se envolvem em financiamento climático, mitigação, financiamento de adaptação, perdas e danos, e os bancos escolhem projetos com base em sua capacidade de gerar lucro e maximizar o envolvimento do setor privado. A mudança climática é simplesmente tratada como a mais nova arena para o capitalismo e para a expansão financeira, mais uma vez consolidando a dinâmica de exploração e violência do Norte Global sob o pretexto de ajudar o Sul Global. É a história se repetindo: é o mesmo paradigma de desenvolvimento que contribuiu para a crise climática em primeiro lugar, mas, desta vez, com ainda menos responsabilização, mas com uma imagem mais verde.”

Com ampla trajetória no ativismo climático e por justiça e garantia de direitos, Tom é crítico a soluções tidas como sustentáveis ou possíveis caminhos de resposta à crise do clima, como soluções baseadas na Natureza; comércio, compensações, captura e sequestro de carbono; manipulação e modificação da radiação solar, entre outros. Nesse sentido, ele fala sobre uma pressão para “financeirizar” o clima, com a criação de fundos climáticos dentro de instituições financeiras, que, na verdade, contornam as soluções reais para o desafio climático. (leia mais no Em Pauta na página 29)

“É uma distração das causas raízes das mudanças climáticas, permitindo que os poluidores continuem poluindo, enquanto os povos indígenas e outras comunidades locais da linha de frente continuam a enfrentar a apropriação violenta de terras e a desapropriação ambiental, social, de saúde e cultural, o genocídio [promovido] pelas mudanças climáticas, além do Ecocídio e o Terracídio da Mãe Terra e do Pai Céu”.

Uma relação espiritual com o espaço natural

Tom Goldtooth explica que a visão de mundo indígena percebe a criação como viva e imbuída da inteligência do Criador e, por mais que cada átomo e partícula sejam individuais, somos parte de um todo integrado.

“Isso pressupõe que todas as partes da criação cuidam de todas as outras partes. Nenhuma é superior ou tem ‘domínio’ sobre qualquer outra. Em vez disso, todos nós fomos criados para viver em um relacionamento harmonioso, amoroso e inteligente com os outros aspectos da criação.”

Nesse sentido, Tom compartilha que qualquer forma de pensar e agir que objetifique, mercantilize ou atribua um valor monetário à terra, ao ar e à água é antitética na compreensão indígena. Muito presente em todas as suas palestras e participações, está a expressão “sacralidade da Mãe Terra”, que diz respeito à compreensão da Terra como um ser sagrado, que deve ser cuidado e respeitado.

Para isso, Tom aponta a necessidade de uma mudança radical nas formas de vida de parte da humanidade. “Há a necessidade de um novo paradigma neste mundo, em relação à forma como ele define sua relação com a sacralidade da Mãe Terra. Esse paradigma exige uma mudança na relação humana com o mundo natural, de exploração para uma relação que ame, cuide e respeite o Planeta como uma entidade viva e sagrada. Os humanos não são superiores, mas sim uma parte de um ecossistema maior, relacionado a animais, plantas, florestas e elementos naturais. Essa visão de mundo relacional baseia-se em nossa responsabilidade de respeitar os princípios da reciprocidade sagrada, entendendo que a saúde de uma parte do sistema afeta o todo.”

Caminhos para além da COP: a luta continua

A humanidade não estaria diante de um desafio tão grave e complexo se os poucos dias de duração das Conferências do Clima fossem capazes de solucionar a crise climática.

Assim, os e as especialistas e ativistas ouvidos(as) pela Revista Casa Comum reforçaram a importância de usar os espaços de articulação paralelos – como a Cúpula dos Povos – ou até mesmo os ambientes oficiais da COP para criar ou fortalecer alianças, apoios e acordos de cooperação, para que os esforços construídos até o momento não encontrem um fim com o término dessa edição da Conferência, como reforça Tasneem.

“O trabalho da Cúpula dos Povos não termina com a COP. Precisamos garantir que a declaração resultante da Cúpula dos Povos seja um documento vivo e continue a informar o trabalho dos movimentos além da COP. Além disso, dependendo se os resultados da Conferência forem bons ou não, precisaremos manter o ímpeto, fortalecer nossa união e poder para que possamos continuar nossa luta por mudanças sistêmicas e justiça climática, e levar isso adiante também para a próxima COP”, aponta a ativista, chamando a atenção para a importância de o Comitê Político da Cúpula reunir ideias nas plenárias presenciais da Cúpula a respeito da continuidade dos trabalhos pós-COP.

Nnimmo, por sua vez, fala na importância de iniciativas que se dediquem a mapear o futuro a ser construído, baseado em justiça, igualdade e dignidade, livre de ecocídio e genocídio. “Para mapear o futuro, precisamos descolonizar nossos imaginários e aprender a viver dentro dos limites planetários e garantir que ninguém viva abaixo de uma linha de base social tolerável. Começamos esse esforço lembrando que somos seres humanos existindo em uma comunidade de outros seres.”

Já Bertha reforça a importância de um diálogo franco entre povos, comunidades e organizações a respeito de acordos, planos de trabalho e estratégias, sem amarras políticas ou compromissos com setores conservadores. “Acredito que, embora muito do que podemos fazer esteja limitado pelas circunstâncias que enfrentamos hoje, o simples feito de sentar, conversar e pensar é um ato muito importante, assim como pensar estratégias mais amplas e em larga escala, onde possamos convergir diferentes perspectivas sobre as soluções ou caminhos que se apresentam para os povos e populações.”

Vozes da Cúpula dos Povos

“Precisamos sair da Cúpula com uma agenda de mobilização
permanente. A Cúpula dos Povos não é só um evento, é um
processo, e precisa ser fortalecido.”

Mauricio Laxe, ambientalista, advogado e ecossocialista

“A Cúpula dos Povos é uma iniciativa para que a sociedade civil
brasileira jogue seu papel, organizada e estrategicamente,
para tirar o máximo de avanços das agendas, incluindo
a agenda climática, durante a COP 30.”

Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima

“A Amazônia é uma região crítica, rica em biodiversidade e diversidade
cultural, e tem sido dito que as florestas são os pulmões da Mãe Terra.
O recente leilão de blocos de exploração de combustíveis fósseis
no Brasil, que inclui as bacias amazônicas e a foz do Rio Amazonas,
violará os direitos dos povos indígenas e a integridade territorial da
sacralidade da Floresta e da Mãe Terra. A COP 30 é o momento de
acabar com todas as contradições e para que as partes da COP 30
tomem medidas para concordar com uma transição global justa
para longe da dependência de combustíveis fósseis, prevenindo a
proliferação [da exploração] de carvão, petróleo e gás, encerrando
todas as novas explorações e produções e eliminando gradualmente a
produção existente de combustíveis fósseis, em conformidade com a
meta climática global de 1,5°C.”

Tom B. K. Goldtooth, ativista climático, pertencente aos povos Diné e
Dakota, e diretor executivo da Indigenous Environmental Network (IEN)

“Health of Mother Earth Foundation e outras organizações e redes
às quais pertencemos vão participar da Cúpula dos Povos.
Estamos organicamente conectados, porque este é o espaço do povo
e é onde debates, aprendizados e ações genuínas vão acontecer.
O Espaço do Povo será o local para soluções reais, gestadas a partir
das experiências vividas pelo povo. Este é o significado e a importância
da Cúpula. Enquanto a COP é o espaço para o politicamente correto,
a Cúpula dos Povos deve ser um espaço para a promoção de soluções
climáticas reais, incluindo a denúncia de soluções de mercado, como o
comércio de carbono, a geoengenharia e diversos construtos de
grilagem de terras. A união de organizações em todo o mundo em
espaços como os oferecidos pela COP 30 e a Cúpula dos Povos
é crucial. De fato, essa é a principal utilidade da Conferência
das Partes. É uma oportunidade para as organizações se unirem e
transformarem a COP em uma Convocação dos Povos, em vez da
Conferência dos Poluidores, como tem sido.”

Nnimmo Bassey, ambientalista, arquiteto,
escritor, diretor do think-tank ecológico Health of
Mother Earth Foundation (HOMEF)

“Acreditamos que uma Cúpula dessa natureza na Amazônia deveria
resultar em ações concretas para proteger a vida digna dos povos, a
Natureza, e não apenas debater planos disfarçados que, na verdade,
encobrem a real situação ambiental ou não geram compromissos de
grande parte dos blocos de países com importante responsabilidade
ambiental. Embora saibamos que isso será bastante complexo, também
acreditamos que é importante colocar a proteção da Amazônia e
dos povos que vivem nessa região no centro e não permitir que essa
agenda de desenvolvimento justifique estradas, portos e projetos
que fragmentam territórios. Nesse sentido, a COP deve se traduzir
em compromissos vinculantes para conter o desmatamento, deter
projetos extrativistas e garantir a consulta prévia livre e informada do
consentimento dos povos originários dessa região.”

Bertha Zúñiga, ativista social indígena e coordenadora do Consejo Cívico
de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras (COPINH)

“Engajar-se com os eixos de convergência da Cúpula dos Povos
e apresentar propostas para nossas demandas e declarações é
importante para a CAN. Também ajudaremos na mobilização no
Dia de Ação Global, em 15 de novembro. Nossa rede possui ampla
experiência em trabalhar no âmbito da UNFCCC, e esse conhecimento
pode ajudar a Cúpula dos Povos a conectar o interior e o exterior.”

Tasneem Essop, especialista em questões sobre clima, energia,
pobreza e justiça social, diretora executiva da Climate Action
Network International (CAN), e diretora fundadora da
Energy Democracy Initiative, na África do Sul

“Esperamos que essa COP seja realmente de entrega,
de resultados, que não seja mais uma COP onde algumas
vírgulas possam atrapalhar toda a negociação. Realmente
precisamos proteger os nossos ecossistemas, florestas, rios
e águas, porque nós, enquanto seres humanos, estamos causando
um grande desastre na nossa casa. Então é necessário que
possamos olhar o que estamos fazendo para que nossos filhos,
netos e bisnetos tenham futuro neste Planeta.”

Toya Manchineri, coordenador-geral da Coordenação das
Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab)

Fique por dentro

  • A resposta somos Nós: Vinte anos de APIB e a Emergência Climática: bit.ly/RCC_14_003
  • As Enchentes no Rio Grande do Sul – Lições, Desafios e Caminhos para um Futuro Resiliente: bit.ly/RCC_14_004
  • Banking on Climate Chaos – Fossil Fuel Finance Report 2025: bit.ly/RCC_14_005
  • Berta Cáceres: conheça a história: berta.copinh.org
  • Climate Action Network (CAN) International: climatenetwork.org
  • Climate change, not El Niño, main driver of exceptional drought in highly vulnerable Amazon River Basin (em inglês): bit.ly/RCC_14_062
  • Consejo Cívico de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras (COPINH): copinh.org
  • Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab): coiab.org.br
  • Culpados pela crise, responsáveis pela conta, e-book da Oxfam Brasil: bit.ly/RCC_14_006
  • Cúpula dos Povos – Manifesto: cupuladospovoscop30.org/manifesto
  • Emissões de metano do Brasil sobem 6% em quatro anos: bit.ly/RCC_14_007
  • Enchentes no Paquistão já desalojam 2 milhões: bit.ly/RCC_14_008
  • Extreme fire weather conditions in Spain and Portugal now common due to climate change (em inglês): bit.ly/RCC_14_009
  • Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS): fboms.org.br
  • Frontiers 2025: The Weight of Time – Facing a new age of challenges for people and ecosystems (em inglês): bit.ly/RCC_14_013
  • Health of Mother Earth Foundation: homef.org
  • Indigenous Environmental Network (IEN): ienearth.org
  • Inundações-relâmpago deixam 120 mortos no Texas, EUA: bit.ly/RCC_14_010
  • Lei 14.701/2023: bit.ly/RCC_14_011
  • Mais da metade dos municípios da Amazônia passou 2024 inteiro em seca: bit.ly/RCC_14_061
  • Mudança climática intensifica condições de megaincêndios na Europa em 22%: bit.ly/RCC_14_012
  • Nnimmo Bassey: nnimmobassey.africa
  • Papa pede perdão das dívidas de países pobres na 1ª missa do ano: bit.ly/RCC_14_014
  • Perda de vegetação nativa no Brasil acelerou na última década: bit.ly/RCC_14_015
  • State of Global Climate 2024 (em inglês): bit.ly/RCC_14_016
  • Terras indígenas, “ar-condicionado” do Brasil: Xingu tem -5°C que entorno: bit.ly/RCC_14_017
  • Territórios Indígenas são os mais preservados do país: bit.ly/RCC_14_018
  • UN Climate Change Conference – Belém, November 2025 (em inglês): unfccc.int/cop30
  • Vírus, bactérias e fungos adormecidos por milênios poderão despertar com derretimento de geleiras: bit.ly/RCC_14_019
  • Weather conditions leading to deadly wildfires in Türkiye, Cyprus and Greece made 10 times more likely due to climate change (em inglês): bit.ly/RCC_14_020

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