Publicado em
23/07/2026
Por trás das agressivas campanhas de difamação, manipulação da boa-fé e propagação do ódio à política, a própria democracia parece um problema
Autora: Rita Freire

O caminho do voto pensado e consciente, em tempos de informação distorcida nas redes e uso político da fé, passa por um jogo de espelhos que mais esconde do que mostra o que está em disputa. A corrida não é apenas entre candidatos e partidos por cadeiras na política, mas também entre o povo brasileiro e a cobiça internacional que mira as eleições para acessar recursos e vozes de comando no país.
Campanhas patrocinadas e propagandas apresentam as posições e intenções declaradas das candidaturas. Mas as eleições de 2026 pedem olho clínico para enxergar quais legendas vão atuar para proteger ou não a soberania do país – ou seja, defender ou deixar o Brasil vulnerável a interesses externos, estranhos à soberania e ao bem-estar da população.
Definidor de rumos no sistema democrático, o voto brasileiro é assediado por campanhas agressivas de difamação de adversários, manipulação da boa-fé por apelos supostamente religiosos, pelo medo e ódio à própria política como forma de captura da atenção e intenção do eleitorado. Da abstenção ao voto rancoroso, estão em jogo direitos conquistados pela população brasileira, não sem sofrimento, ao longo de sua história.
Aprendizado aos tropeços
O Brasil tem lutado contra imposições de fora desde as revoltas contra a dominação colonial, incluindo a vergonhosa história da escravidão, e ainda tem na memória de gerações de hoje a resistência ao regime militar imposto ao país no século passado. Cada etapa envolveu pressão e tomada das ruas, enfrentamento a golpes de Estado e cobrou cada vez mais consciência popular para se confrontar com a dominação em cada época e superar retrocessos.
Ao lutar contra a ditadura, o país fez a opção pela democracia, a partir de sua Constituição Federal de 1988, mesclando elementos da democracia liberal que delimitam o poder do Estado frente a liberdades individuais e econômicas, e a garantia de direitos fundamentais da cidadania, mas especialmente estabelecendo a independência da justiça e a renovação do Executivo e Legislativo, nas várias unidades da federação, dos municípios ao poder central, por meio das eleições e do voto obrigatório.
Quando a democracia privilegia o poder econômico, armadilhas e manobras legais podem desvirtuar a garantia de direitos históricos, a exemplo do Marco Temporal das terras indígenas.
O texto constitucional visa assegurar a soberania brasileira definindo-a como fundamento supremo da República (Art. 1º), garantindo autonomia política, territorial e jurídica contra influências externas. Ela estabelece a autodeterminação dos povos, a não intervenção e o voto popular como forma de exercício do poder.
Avançada em proteções sociais, a Constituição ainda pede regulações e aperfeiçoamentos de natureza popular para ser efetiva em combate às desigualdades. Como insiste até hoje Ailton Krenak, líder indígena que participou das mobilizações pela Constituinte em 87 e 88, pintando a cara com jenipapo para expressar a luta dos povos indígenas, não há soberania ou democracia sem o respeito aos territórios originários e à conexão sagrada entre os povos indígenas e a terra. Ler Revista Casa Comum nº10
Quando a democracia privilegia o poder econômico, armadilhas e manobras legais podem desvirtuar a garantia de direitos históricos, a exemplo da aprovação do Marco Temporal. Abrir espaço para a interferência externa em assuntos como segurança, terras raras, sistema financeiro e de pagamentos (como o pix) e justificativas artificiais para imposição de sanções a autoridades, empresas e instituições brasileiras significa abrir mão da soberania e subordinação a governos estranhos.
Da mesma forma permitir que instituições estrangeiras ditem textos legais brasileiros – como é o caso de projetos que visam confundir antissionismo com antissemitismo para silenciar críticas a violações do povo palestino, significa permitir que o nosso Estado seja modificado por interesses de outro e não pelo povo brasileiro.
O teste e o trauma de 2022
O Brasil segue para as próximas eleições presidenciais ainda com a lembrança do trauma que marcou as últimas.
Após o 8 de janeiro de 2023, o Brasil ainda estava impactado pelas imagens dos ataques à Praça dos Três Poderes, masa nação também respirava aliviada: o atentado que poderia terminar em tragédia e pretendia a ruptura democrática foi enfrentado e contido sem deixar sangue pelo caminho.
O autor de “Como as democracias morrem”, Steven Levitsky, escreveu em artigo ao The New York Times que “o Brasil teve sucesso onde os EUA falharam”, comparando o caso brasileiro e a invasão ao Capitólio americano contra o resultado das urnas que derrotou o então candidato à reeleição Donald Trump. A contenção dos manifestantes furiosos resultou em mortos e feridosO francês Le Monde chegou a definir a resposta brasileira ao 8 de janeiro como uma “fábrica de democracia”, elogiando a resiliência institucional que dispensou intervenções militares, ao contrário de outros contextos históricos ou internacionais.
Mas essa fábrica de democracia é na verdade uma construção frágil, que passou por esse teste duro nas últimas presidenciais e terá de ser novamente testada nas eleições de 2026. Possivelmente não teremos a repetição dos eventos violentos de 2023, porém é real o risco de que extremismos políticos que pareciam contidos no período do pós-Segunda Guerra, como ideias inspiradas no nazismo e no fascismo, e que voltaram a impactar o mundo, continuem ocupando espaços na política institucional brasileira.
O caminho é aberto a cada agressão à soberania nacional.