Publicado em
17/09/2024
Uma análise da atualidade do Cântico das Criaturas, poema de 800 anos de autoria de São Francisco de Assis.
Por Frei Marx Rodrigues dos Reis
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Em 1999, um ano antes de terminar o milênio passado, a revista “Times” fez uma grande pesquisa entre seus leitores para saber qual seria a personalidade mais marcante e mais importante do milênio que terminava. Surpreendentemente Francisco de Assis ficou em primeiro lugar, não por ser um líder religioso, mas sim uma referência de humanismo e de cuidado com a Natureza.

Essa referência, claro, não é por acaso. Há um fato marcante em sua vida em que isso se faz ainda mais presente e se transforma em palavras que ficaram gravadas até os dias atuais. Em outubro de 1225, de forma singela e inspirada, Franscisco de Assis, que estava enfermo e em seu leito de morte, escreveu a poesia que atravessou gerações e até universos ideológicos, intitulada “Cântico das Criaturas”.
Assim, em 2025, comemoramos 800 anos dessa poesia revolucionária que apresentou à história um novo paradigma não compreendido em sua época e que ainda traz desafios para a sociedade contemporânea. Um paradigma baseado na integralidade do reconhecimento e do cuidado com todas as formas de vida: desde um inseto até mesmo a água, o sol, sem excluir os seres humanos marginalizados.
Há uma curiosidade sobre essa poesia: foi escrita na língua vulgar da época, ou seja, no dialeto italiano, em contraste com o Latim que predominava como a expressão hegemônica da cultura dominante. Essa poesia é ainda hoje um legado linguístico, social e ecológico, pois apresenta um paradigma integral, uma ode ou tratado à grandiosidade e significância de cada forma e expressão de vida.
Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
teus são o louvor, a glória e a honra e toda a bênção.
Somente a ti, ó Altíssimo, eles convêm,
e homem algum é digno de mencionar-te.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas,
especialmente o Senhor irmão sol,
o qual faz o dia, e por ele nos iluminas.
E ele é belo e radiante com grande esplendor,
de ti, Altíssimo, traz o significado.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e
pelas estrelas, no céu as formaste claras e preciosas e
belas. Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão vento, e pelo ar e pelas nuvens e pelo sereno
e todo o tempo, pelo qual às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é muito útil e humilde e preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo
pelo qual iluminas a noite, e ele é belo e
agradável e robusto e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a mãe terra
que nos sustenta e governa e produz diversos frutos
com coloridas flores e ervas.
Louvado sejas, meu Senhor, por que perdoam pelo teu
amor. E suportam enfermidade e tribulação.
Bem-aventurados aqueles que as suportarem em paz,
porque por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a morte
corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar.
Ai daqueles que morrerem em pecado mortal: bem-
aventurados os que ela encontrar na tua santíssima
vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal!
Louvai e bendizei ao meu Senhor, e rendei-lhe graças e
servi-o com grande humildade.
(Francisco de Assis)
Fontes Franciscanas e Clarianas. Autor: Frei Celso Marcio Teixeira. Edição. 3o. Editora Vozes, Petrópolis.
Esse Cântico vai além de uma irmandade entre humanos. Ele une a humanidade a tudo o que existe e proclama a grandeza das criaturas no que elas são, não no interesse humano ou mercadológico. A poesia diz que a água, as estrelas, as ervas são, na sua essência, um louvor ao Criador. Rompe uma ideia de uso e de dominação do ser humano sobre a Natureza, muito presente nos dias atuais, na qual a humanidade fere a Terra, mãe e irmã, como dizia Francisco, de tal modo que põe em risco todas as formas de vida, principalmente a dos que se encontram em situação de vulnerabilidade.
Aqui cabe ressaltar mais um elemento histórico, que ajuda a entender a intencionalidade desse poema: Francisco, naquela época, não podia ver o que ele descrevia, seus olhos tinham sido queimados em uma tentativa de cauterização. No final de sua vida, foi acometido por vários tipos de doenças; por isso é possível aferir que o Cântico não é uma mera descrição das criaturas, mas a experiência que transcende a visão simples do olhar do humano, para uma dimensão de contemplação e vivência da conexão biológica, física e ontológica com tudo o que existe – somos uma comunidade de vida – em que se deflagra a maior certeza: nada existe sem a dimensão intrínseca do Comum.
O filósofo, teólogo e escritor Leonardo Boff apresenta uma reflexão importante acerca do Cântico:
“Na tradição ocidental Francisco de Assis é visto como uma figura exemplar de grande irradiação. Com fina percepção, sentia o laço de fraternidade e de sororidade que nos une a todos os seres. Ternamente chama a todos de irmãos e irmãs: o sol, a lua, as formigas e o lobo de Gubbio. As coisas têm coração. Ele sentia seu pulsar e nutria veneração e respeito por todo ser, por menor que fosse. Nas hortas, também as ervas daninhas tinham o seu lugar, pois do seu jeito elas louvam o Criador. O coração de Francisco significa um estilo de vida, a expressão genial do cuidado, uma prática de confraternização e um renovado encantamento pelo mundo. Recriar esse coração nas pessoas e resgatar a cordialidade nas relações poderá suscitar no mundo atual o mesmo fascínio pela sinfonia do universo e o mesmo cuidado com a irmã e mãe Terra como foi paradigmaticamente vivido por São Francisco.”
(Fonte: bit.ly/RCC_10_65)
Outra curiosidade é que a penúltima estrofe, que exalta o perdão e a paz, foi escrita somente em julho de 1226, na casa do bispo de Assis, para pôr fim a uma desavença histórica entre o bispo e o prefeito da cidade. Esses poucos versos bastaram para impedir a guerra civil. Ao acrescentar uma estrofe para mediar os conflitos, é celebrada uma paz que viabiliza a vida do povo. Assim, a poesia é um louvor aos que sustentam a paz. Mas não uma paz de braços cruzados, mas daquele que queria o fim das guerras.
Por fim, é interessante destacar a escolha de Francisco para expressar uma percepção, sentimento e interpretação da realidade, por meio da poesia. A arte é sempre a forma mais potente de denunciar e anunciar um processo urgente na sociedade. Nesse caso, essa poesia apresenta de forma silenciosa um grito de cuidado e defesa por todas as formas de vida, que vivem num contexto de colapso. Francisco é um artista, apresenta por vezes ações performáticas, porque usa da plasticidade para falar à sociedade de forma sensível, terna e firme. Ele, inclusive, criou também o presépio e tantas outras expressões criativas. É um santo jogralesco e com espírito poético, mergulhado na ética do cuidado e na experiência estética da realidade.
Por isso, esse Cântico é um chamado para toda a humanidade e é atemporal para o compromisso histórico e construção do Bem Viver dos povos, no intuito de que os olhos turvos não desprezem a vida ferida dos injustiçados, dos oprimidos e da Mãe Terra, mas celebre a fraternidade universal. Francisco entende que não somente a voz dos humanos, mas também o grito e o suspiro da Terra clamam por sua existência.
Essa poesia é a mudança de paradigma de um ser humano que sonhava em dominar o mundo, mas que agora o sustenta em seu louvor, reivindicando que todas as formas de vida sejam respeitadas. Entoará esse Cântico quem cuidar da Terra, quem trocar as palavras pelas ações, quem permitir que a morte seja uma irmã, e não o algoz de quem tem o poder do mercado e das armas.
Hoje, vivendo nesse paradigma capitalista de acúmulo no qual vivemos, que financeiriza o sentido da vida, em que a exploração é governada para o lucro e o dinheiro, que coloca à margem do sistema social, econômico e político, milhares de invisibilizados, famintos, sem-terra, sem-teto, sem-renda, os “sem-dignidade”, nesse ciclo de exploração e marginalização que impacta desde sempre “as vidas não humanas”, entoar o Cântico das Criaturas se faz mais urgente do que nunca. O que temos hoje é a terra cimentada para o funcionamento das cidades, que servem ao fluxo desenfreado do ser humano autômato, ou da propagação do pasto para a produção de gado ou de soja em larga escala. A biodiversidade se resume à monocultura para faturar. O antropocentrismo anula a centralidade na comunidade de vida, de que somos parte, querendo ou não.
No contexto contemporâneo, vivemos também um crescente de regimes autoritários em várias regiões do mundo e como tendências e experiências no Brasil, regradas de onda de ódio, louvor às armas, à violência social e estatal diante do outro, atitudes explícitas de racismos, antissemitismo, xenofobismo, homofobismos e machismos. Ao mesmo tempo que se propaga uma política de segurança que persegue negros e residentes de comunidades periféricas, facções criminosas e de milícias, ocupam e sequestram a liberdade e a dignidade dessas pessoas.
Assim, é preciso interpretar as correntes ideológicas e políticas, que formam corações e mentes, muitas vezes, utilizando dos espaços e expressões religiosas, e apresentar formas de promover e mobilizar as pessoas para o projeto político da paz – como possibilidade concreta de uma nova forma de ser e relacionar-se superando estilos, formas e ideologias intolerantes, sectaristas, violentas, bélicas, ultraconservadoras e criminosas.
Por isso, canta Francisco, pois a Mãe Terra tem saudades de ti, e teus irmãos esperam as mudanças para que o futuro não seja semeado pelo descaso, exploração, violações tantas e de morte.
Frei Marx Rodrigues dos Reis, diretor-secretário do Sefras – Ação Social Franciscana

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