Publicado em
29/10/2025
Durante COP 30, movimentos populares precisam fazer duas denúncias: a injustiça climática e a parte de responsabilidade do agronegócio brasileiro no aquecimento global e no ecocídio em curso em nosso país.
Por Luiz Marques
|
Getting your Trinity Audio player ready...
|

Em 2024, o aquecimento médio global saltou de cerca de 1,2°C, em relação ao período pré-industrial (1850-1900), para 1,55°C, segundo a Organização Meteorológica Mundial. Após 2015, a temperatura global aumentou mais rapidamente do que em qualquer decênio desde 1945 e o próximo decênio trará um aquecimento médio global cada vez mais próximo de 2°C acima do período pré-industrial. Essa certeza é reforçada pelo fracasso da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima das Nações Unidas (1992) e do Acordo de Paris de 2015 (adotado na Conferência das Partes – COP 21). A saída dos Estados Unidos desse Acordo, em 2025, é o último prego no caixão da Convenção-Quadro de 1992.
Esse fracasso era previsível já em 2019 na COP 25, realizada em Madri, na Espanha, onde pude observar, dessa vez, presencialmente, a nulidade de seu resultado. Trata-se de um fracasso inevitável, dada a voracidade energética, a lógica da acumulação de capital e a ausência de uma governança global democrática do clima.[¹] É difícil entender a razão de ser da COP 30, em Belém (PA), dado o acúmulo de falta de credibilidade dos 29 encontros anteriores, pois nenhuma COP, desde a primeira em 1995, teve qualquer incidência sobre a curva ascendente da queima de combustíveis fósseis, sobre o desmatamento e, portanto, sobre a aceleração do aquecimento e sobre a perda catastrófica de biodiversidade nos últimos 40 anos.
Malgrado tudo, a COP 30 será bem-vinda se os movimentos populares fizerem ouvir, em alto e bom som, duas denúncias principais: a injustiça climática e a parte de responsabilidade do agronegócio brasileiro no aquecimento global e no ecocídio em curso em nosso país, o mais rico biologicamente do mundo. A injustiça climática começa pelo fato bem conhecido de que os países que menos emitiram e emitem gases de efeito estufa são os que têm menos condições econômicas e tecnológicas de se adaptar aos impactos do aquecimento gerado pelo acúmulo desses gases na atmosfera.
Nenhum país, por mais rico que seja, deve se iludir sobre sua capacidade de se adaptar a um iminente aquecimento médio global de 2°C. Em 2021 e 2022, por exemplo, o Canadá sofreu 49,6°C e a Austrália, 50,7°C. Bastam esses dois exemplos para entender que nenhuma sociedade permanecerá funcional com o aquecimento global. Mas os países situados nas zonas tropicais se tornarão em breve inabitáveis durante os verões.

Em 11 de setembro de 2025, ainda na estação invernal, o Centro-Oeste brasileiro registrou temperaturas próximas de 43°C![²] E isso é apenas o começo… Além do mais, os pobres, inclusive os pobres dos países ricos, serão os mais atingidos. Isso já está acontecendo. No ano passado, o Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT, ou ILO, em inglês), intitulado Garantindo Segurança e Saúde no Trabalho em um Clima em Mutação (do inglês, Ensuring Safety and Health at Work in a Changing Climate), mostrou que: (1) todos os anos, ao menos, 2,4 bilhões de trabalhadores são expostos a excesso de calor; (2) o excesso de calor tem gerado quase 23 milhões de lesões ocupacionais. De seu lado, um relatório de 2020 do Banco Mundial estima que até 2030, as mudanças climáticas podem lançar 132 milhões de pessoas na extrema pobreza.[³]
A COP 30, em Belém, oferece uma oportunidade ímpar para uma segunda denúncia: a do ecocídio perpetrado pela engrenagem do sistema “alimentar” globalizado (aspas obrigatórias, pois de alimentar essa engrenagem tóxica tem muito pouco). Esse sistema não é apenas responsável por cerca de 30% das emissões globais de gases de efeito estufa. Ele está no centro de outra forma de injustiça socioambiental,
pois, ao importar commodities agropecuárias, os países ricos estão destruindo 15 vezes mais biodiversidade nos países tropicais agrário-exportadores do que dentro de suas próprias fronteiras.[4]
Em um livro recentemente publicado, Ecocídio: Por uma (agri)cultura da vida, procurei dar maior evidência à escala e à velocidade fulminante desse extermínio da biodiversidade no Brasil. Sim, a COP 30 pode e deve ser uma ocasião preciosa para exigir uma reforma agrária democrática, visando uma agroecologia, uma agricultura da vida, tal como praticada há decênios pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST).
[¹] Cf. Luiz Marques. A Convenção-Quadro do Clima morreu. E agora? Jornal da Unicamp, 13 dez. 2022; Idem, COP 29, a COP Zumbi. Faz ainda algum sentido a COP 30? Jornal da Unicamp, 28 nov. 2024; Prefácio à segunda edição de O decênio decisivo, Editora Elefante, 2025.
[²] Cf. Estael Dias. Brasil Central “torra” a 43°C e calor vai aumentar. MetSul, 11 set. 2025.
[³] Cf. Revised Estimates of the Impact of Climate Change on Extreme Poverty by 2030. World Bank, set. 2020.
[4] Cf. Phoebe Weston. Richest nations “exporting extinction” with demand for beef, palm oil and timber. The Guardian, 14 fev. 2025.
| *Luiz Marques é professor livre-docente aposentado e colaborador do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi curador-chefe do Museu de Arte de São Paulo (1995-1997). Dedica-se há 20 anos a pesquisas sobre as crises socioambientais contemporâneas. Suas publicações incluem: Capitalismo e colapso ambiental (Editora da Unicamp, 2015); O decênio decisivo. Propostas para uma política de sobrevivência (Editora Elefante, 2023); e Ecocídio: Por uma (agri)cultura da vida (Editora Expressão Popular, 2025). |
