Publicado em
29/10/2025
Conheça diferentes iniciativas de organizações da sociedade civil que visam uma atuação conjunta e coordenada, além da promoção de conhecimento e informação, para propor caminhos de resistência e luta por direitos diante da emergência do clima.
Por Maria Victória Oliveira
|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
Mais de 1.100 organizações do Brasil e do mundo compõem a Cúpula dos Povos, movimento global que busca soluções reais para os desafios que o Planeta enfrenta. Entre seus princípios, a coletividade se apresenta como caminho para a construção popular e a convergência de pautas.
Trecho do Manifesto da Cúpula analisa que as estratégias de transformação em prol da justiça climática precisam contar com uma ampla pressão e participação efetiva da sociedade civil. Para tal, a articulação convoca “as organizações, redes, coletivos e movimentos sociais dos mais diversos segmentos para construir a Cúpula dos Povos rumo à COP 30, algo capaz de mobilizar a opinião pública, fortalecer a democracia participativa e popular, denunciar e barrar retrocessos, bem como pressionar tomadores de decisões no Brasil e no mundo.”
>> Acesse o Manifesto: cupuladospovoscop30.org/manifesto
Em muitos casos, é somente a força, a coordenação e o levante popular diante de desafios complexos que conseguem promover mudanças que farão a diferença a partir das reais necessidades enfrentadas nos territórios. Afinal, quem mais conhece e compreende as demandas por transformações são aqueles e aquelas que, a cada dia, sentem na pele as dificuldades e obstáculos impostos pelo racismo ambiental, pela falta de justiça generalizada, de demarcação de terras, de proteção e garantia de direitos fundamentais, de proteção de áreas verdes e da Natureza como um todo e, principalmente, de medidas de prevenção e adaptação climática.
A seguir, confira exemplos de campanhas, atuações de coletivos, mobilizações, movimentos, publicações e propostas que colocam as mudanças climáticas no centro das discussões e propõem caminhos a partir da força popular.
A Resposta Somos Nós

The answer is us. La réponse c’est nous. La respuesta somos nosotros. Jawabannya adalah kita. Seja em inglês, em francês, em espanhol ou em indonésio, A Resposta Somos Nós é uma campanha idealizada pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), lançada em junho de 2024 como um grito global por justiça climática e defesa da vida.
“Não estamos esperando que a solução venha de cima para baixo. Estamos construindo com os pés no chão, com a força e as vozes dos povos que resistem todos os dias.” O trecho traduz o chamado que a campanha propõe, sobretudo e principalmente para aqueles e aquelas que vivem diariamente as consequências da crise climática.
Entre as principais agendas da campanha estão os direitos territoriais como caminho para a ação climática, o desmatamento zero, o fim dos combustíveis fósseis e a não mineração em territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais, proteção dos defensores do meio ambiente e dos modos de vida daqueles que defendem a terra, as águas, as florestas e o clima, o acesso direto ao financiamento climático e a participação em processos de tomada de decisão com poder real.
Lançada a nível nacional pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), em setembro de 2024 durante a reunião do G20, no Rio de Janeiro, foi ganhando outros espaços e conquistando novos membros, como a adesão das oito organizações indígenas dos demais países da Bacia Amazônica, o G9 Amazônico e a Aliança Global de Comunidades Territoriais. Atualmente conta com mais de 40 membros, entre eles, a Cúpula dos Povos, e aceita cadastros de indivíduos ou organizações.
>> Saiba mais: arespostasomosnos.org
Mobilização dos Povos pela Terra e pelo Clima
Ribeirinhos, quilombolas, quebradeiras de coco, extrativistas, povos indígenas, público religioso, movimentos sociais, organizações socioambientais e indígenas, rede eclesial, organizações internacionais e poder público. Esses são os parceiros e colaboradores da Mobilização dos Povos pela Terra e pelo Clima, uma iniciativa da Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM-Brasil rumo à COP 30.
A mobilização tem como objetivo estabelecer e enraizar um processo de articulação de povos e movimentos sociais territoriais antes, durante e depois da COP 30, fortalecendo as lutas de povos e comunidades tradicionais em seus territórios e sua capacidade de incidência política.
Com sede física em Belém (PA), o projeto conta com a participação de nove estados brasileiros: Acre, Rondônia, Pará, Amazonas, Amapá, Roraima, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão, e parte de valores como promoção da igualdade dos povos da Amazônia, igualdade étnico-racial e de gênero, diálogo inter-religioso e defesa das florestas e direitos dos povos.
>> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_043
Campanha contra acordos comerciais tóxicos entre União Europeia e América Latina
No dia 15 de setembro, mais de 50 organizações lançaram uma campanha contra acordos comerciais considerados tóxicos entre a União Europeia (UE) e a América Latina. A iniciativa, composta por instituições de 17 países em dois continentes, funciona como uma resposta à sinalização, realizada pelo governo federal brasileiro, sobre a intenção de firmar um Acordo UE-Mercosul, que, se realizado, deve criar um processo de livre comércio com os 27 países integrantes da União Europeia.
A campanha, formada por organizações como a Rede Jubileu Sul Brasil, aponta que o atual desenho do acordo falha em pontos como falta de transparência e diálogo com os povos e possui potencial de causar graves impactos socioambientais, como ampliação da devastação na Amazônia, Cerrado, Caatinga e outros biomas. Além disso, pode fortalecer o agronegócio predador, ameaçar a agricultura familiar e a soberania alimentar, precarizar condições de trabalho e serviços públicos, ampliar o poder de corporações transnacionais e, sobretudo, aprofundar desigualdades.
A demanda é por um debate público e transparente, que coloque a vida acima do lucro, respeite os direitos dos povos e da Natureza.
>> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_044
Carta de São Luís para a COP 30: “Arquitetura e urbanismo em tempos emergenciais: por uma Agenda Urbana Mundial com Justiça Climática”
Elaborado coletivamente como resultado de discussões realizadas por arquitetos, urbanistas, pesquisadores, gestores públicos e representantes de comunidades e setores privados do Brasil e do mundo, que se reuniram nos dias 5 e 6 de junho de 2025 em São Luís (MA), o documento traz o pensamento sobre uma agenda urbana mundial que possa promover justiça social e preservação ambiental diante do atual cenário de emergência climática.
A carta visa fazer um apelo à COP 30, às organizações de arquitetos e à comunidade internacional para a adoção de uma abordagem integrada, ancorada em três paradigmas que devem orientar as políticas urbanas e ambientais: ambiental, cultural e civilizacional.
>> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_045
Universidades Contra o Fim do Mundo

“Combatendo a crise climática e construindo um futuro
ecossocialista”. Essa é a chamada principal da campanha Universidades Contra o Fim do Mundo, uma iniciativa do Juntos!, coletivo de juventudes de todo o Brasil, que tem a missão de reunir pessoas em busca de transformação e lutar pelas necessidades do povo, construindo uma sociedade radicalmente diferente.
A campanha visa atuar no aspecto educacional, chamando atenção para o papel da educação crítica e da ciência engajada e comprometida no combate à crise climática. “Diante das incertezas com o futuro, o conhecimento reprodutor do mundo tal como o conhecemos hoje, que é apropriado e colabora com o sistema de exploração, não só é insuficiente para resolver a crise atual, como também tem contribuído para nos levar para um buraco cada vez mais fundo”, analisa trecho da apresentação da iniciativa.
O objetivo é fazer um chamado para o papel da educação crítica e da ciência engajada e comprometida, no combate à crise climática e, com isso, engajar e conectar estudantes, entidades, centros e diretórios acadêmicos, grupos de estudo, coletivos, professores(as) e funcionários(as) técnico-administrativos das universidades de todo o país, a fim de colocar a ciência a serviço do enfrentamento da crise, de seus sintomas e de suas raízes.
>> Saiba mais: juntos.org.br/contraofimdomundo
O funeral que o Planeta precisa: despedida performática dos combustíveis fósseis

No ar, em outubro e novembro, com um chamado especial
para Brasil, Chile e Colômbia, a campanha promovida pela
Alianza Potencia Energetica – Liderando la Transición
Energética Justa y Comunitaria en América Latina, Artyc,
Movilizatorio, PXP, Transforma e Fondo Emerger visa ser
uma ação performática que simboliza o fim do uso dos
combustíveis fósseis em todo o mundo.
A performance pretende ser uma ala da Marcha Global
Unificada, que acontecerá no dia 15 de novembro de 2025, um dos dias mais aguardados da Cúpula dos Povos, em Belém, no Pará. Para o ato, que tem como chamado “Celebremos juntos o fim da era fóssil”, estão sendo planejados quatro personagens principais: “o sol”, como a energia que nunca morre; a “máscara”, que representa a força de povos que resistem; o “vento”, que é a memória que flui e promove conexão; e o “caixão”, como símbolo do encerramento de um
ciclo que não voltará.
A chamada está aberta aos povos originários (guardiões da Amazônia), para as comunidades locais (como afrodescendentes, pescadores e defensores ambientais) e a sociedade civil (que envolve defensores[as], ativistas, artistas, pesquisadores[as] e cientistas).
O site da performance conta com um formulário para quem deseja receber mais informações.
>> Saiba mais: fossilfuelfuneral.org
Por um mundo com assistência técnica à moradia adequada
Sob a premissa de que somente com acesso à moradia adequada e ao suporte técnico de profissionais, a sociedade terá condições de enfrentar os desafios climáticos dos próximos anos, diversas organizações se uniram em prol do manifesto: “Por um mundo com assistência técnica à moradia adequada”.
Conectada ao eixo V da Cúpula dos Povos, que pauta “cidades justas e periferias urbanas vivas: articulação entre campo e cidade”, valorizando as lutas urbanas por justiça e dignidade, a iniciativa tem abrangência nacional.
Até dezembro de 2025, está aberto um formulário para que os interessados em compor a rede e auxiliar na mobilização em prol da assistência técnica à moradia adequada possam participar. Com isso, o movimento pretende apoiar na promoção de políticas de enfrentamento à crise climática nas grandes cidades com soluções alternativas no campo do abastecimento e do consumo; no desenvolvimento de políticas de planejamento urbano, mobilidade e gestão de resíduos sólidos na perspectiva da justiça climática; no combate ao racismo ambiental nas periferias urbanas; na promoção de soluções dos povos, como a agroecologia e as tecnologias sociais, como medida de adaptação diante das mudanças climáticas nas periferias urbanas; e no desenvolvimento de políticas públicas para a construção de habitações adaptadas aos diversos climas e às lógicas locais, entre outros.
>> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_046
Por dentro da crise do clima
A crise do clima pode gerar muitas dúvidas. Afinal, são inúmeros os termos técnicos e científicos, as siglas, os acordos e protocolos internacionais e nacionais com suas determinações e metas a serem cumpridas, além, é claro, da própria complexidade desse processo de alteração no funcionamento do Planeta.
Por isso, a Revista Casa Comum separou alguns materiais que podem ajudar nessa compreensão sobre o que é, de fato, a emergência do clima, e como a humanidade pode agir diante desse contexto de urgência.
Plataforma Eunice

O Espaço Unificado de Informação Climática e Engajamento, mais conhecido como Eunice, é um projeto do Observatório do Clima, lançado em agosto de 2025, com o objetivo de ampliar o acesso à informação e facilitar a compreensão pública sobre as mudanças do clima.
O nome da plataforma é uma homenagem a Eunice Foote, cientista americana que descobriu a relação entre alguns gases atmosféricos e a radiação infravermelha três anos antes do irlandês John Tyndall, que entrou para a história como o descobridor do efeito estufa.
O conteúdo é dividido em cinco blocos que se apresentam na forma de um mapa de uma cidade: o passado, o presente, o futuro, política e economia. Ao todo, se subdividem e totalizam 14 capítulos, com textos, ilustrações e gráficos que explicam temáticas como o efeito estufa, as mudanças climáticas naturais, o aquecimento global, os efeitos das alterações do clima, as negociações climáticas, o papel da sociedade civil, os impactos dos setores de energia e agropecuária, a geoengenharia, entre outras.
>> Saiba mais: eunice.oc.eco.br
Acordo de Paris: um guia para os perplexos

Outra iniciativa do Observatório do Clima – dessa vez em parceria
com a LACLIMA – é o livreto Acordo de Paris: um guia para os
perplexos.
O documento traz análises, textos, artigos, um quadro explicativo com as principais siglas usadas no debate sobre mudanças climáticas, dados históricos e inúmeras explicações sobre o Acordo de Paris, adotado em 2015, que, de forma resumida, aponta a importância de uma redução drástica nas emissões globais de gases de efeito estufa e da manutenção do aquecimento global em até 1,5°C.
Além da introdução, que traz, de fato, um panorama sobre clima, as determinações da ciência e as conferências internacionais, o documento conta, em uma segunda parte, com análises mais detalhadas sobre o Acordo de Paris, bem como de metas mais específicas dos tratados, os interesses por parte do mercado, o papel de nações consideradas ricas e pobres na adoção de metas de controle de emissões, o que é e como é possível realizar uma transição justa, entre outros assuntos.
>> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_047
Mudanças climáticas e Conferência do Clima: qual o nosso papel?

Iniciativa da Cáritas Brasileira e o Movimento Laudato Si’, a cartilha Mudanças climáticas e Conferência do Clima: qual o nosso papel? visa ser um material informativo e formativo de promoção da mobilização social diante da emergência climática.
Organizado em três capítulos principais – compreendendo a crise climática e a Conferência do Clima; aprofundando as questões e temas correlatos –, o documento é ilustrado e com uma linguagem acessível a fim de promover, para lideranças comunitárias, de movimentos eclesiais, pastorais e de organismos da Igreja, de organizações de juventudes, de movimentos sociais populares, de coletivos e associações com atuação local no campo socioambiental, além de educadores(as) populares, um letramento climático da população brasileira, mobilizando e promovendo a formação crítica e a organização social.
Além dos conteúdos textuais, a publicação também traz propostas práticas, como roteiros para a realização de oficinas e rodas de conversa.
>> Saiba mais: bit.ly/RCC_14_048
