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Publicado em

23/07/2026

O fascismo como antítese de uma nova ordem global diversa, democrática e solidária, capaz de vencer o capitalismo

Ele ressurge como antítese de uma nova ordem global diversa, democrática e solidária, capaz de vencer o capitalismo

Por Mauri Cruz

Foto de inúmeras pessoas marchando na rua, portando cartazes com frases em defesa de direitos das mulheres, fim da escala 6x1, Anti-Trump, pró aborto e outras pautas sociais e ecológicas.
Marcha de abertura da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos em Porto Alegre, março de 2026 – Foto: Samir Oliveira

O fascismo como antítese de uma nova ordem global diversa, democrática e solidária, capaz de vencer o capitalismo

Menos de um século após a derrota do nazifascismo (regimes extremistas de Adolf Hitler na Alemanha e Benito Mussolini na Itália)  vivemos um novo momento crítico, em função dos efeitos devastadores da crise climática, da crise dos sistemas de governança global e da própria ideia de democracias. Nesse ambiente de desencanto com o próprio sentido de humanidade, deparamo-nos com o retorno das idéias  fascistas que embalaram projetos excludentes, cruéis e violentos na primeira metade do século passado. Esse fascismo de agora, que se espalha pelo planeta, tem sido alavancado pelas big techs a partir de seus algoritmos, que aumentam o lucro por meio da lógica da polarização social.

Ato antifacista  | Foto: Guilherme Santos/Sul21

O risco de um movimento fascista global sair vitorioso é real. Não devemos subestimar a capacidade que a retórica simplista tem de mobilizar milhões de pessoas pelo mundo. Mas sua derrota também é uma possibilidade real. O desafio é compreender o que se mantém do fascismo histórico e o que há de novo na sua forma de pensar e agir. Certo é que, sem compreendermos o fascismo e suas nuances atuais, teremos muita dificuldade de derrotá-lo e, principalmente, de aproveitar essa janela histórica para a reconstrução de uma nova utopia pós-capitalista.

Regimes fascistas do século XX mobilizaram massas com discursos nacionalistas e autoritários – Na imagem anexa,  Benito Mussolini discursa durante ato público na Itália, em imagem produzida pelo Istituto Luce, órgão de propaganda do regime fascista, entre as décadas de 1920 e 1930.

Compreendê-lo, no entanto, não é uma tarefa fácil. É preciso reconhecer que o fascismo é um fenômeno complexo, com aspectos psíquicos, emocionais, econômicos, sociais e políticos muito diversos. Essa complexidade dificulta categorizar as experiências do passado frente à nova roupagem dos dias atuais. Há características comuns e dinâmicas de funcionamento similares, no entanto cada experiência possui suas especificidades e seus elementos centrais de sustentação.

Para ajudar na compreensão do que é o fascismo hoje, este artigo busca, numa perspectiva didática, separar as experiências históricas do fenômeno social que ele representa nos dias de hoje e uma reflexão sobre sua estreita relação com as crises do próprio sistema capitalista. Somo a esse esforço pedagógico uma dimensão nova: a ideia de que, no processo de enfrentamento aos fascismos contemporâneos, se possa construir um movimento internacionalista e altermundista capaz de unir forças e de articular uma alternativa ao próprio capitalismo.

Foto do Congresso durante votação do Impeachment de Dilma Rousseff. Vários deputados seguram cartazetes com os dizeres "Tchau querida!" e comemoram a derrubada da presidenta.
A farsa do impeachment de Dilma Rousseff, sem crime de responsabilidade e baseado nas chamadas “pedaladas fiscais”, entrou para a história do Brasil | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto de marcha de multidão na rua, em Porto Alegre, carregando faixa com os dizeres "Não ao neoliberalismo. Contra a guerra imperialista. Um outro mundo é possível. Comitê Organizador III Fórum Social Mundial"
Edição do FSM em Porto Alegre, em 2003

Antecedentes do fenômeno estão no surgimento e avanço do próprio capitalismo, tensionado por lutas dos trabalhadores por um modelo de sociedade igualitária.


 Após quatro séculos da escravização de vários povos e etnias do Continente Africano, as nações colonizadoras acumularam riquezas e capitais suficientes para promover uma grande revolução tecnológica. O surgimento das máquinas permitiu a produção em escala, dando início à Revolução Industrial. Essa nova era alterou radicalmente a organização do mundo do trabalho que, há séculos, era baseada no trabalho manual de produção agrícola e artesanal. Os agricultores e os mestres artesãos, como eram conhecidos, detinham o conhecimento técnico e o controle de todo processo produtivo dos alimentos, das ferramentas e de uma infinidade de bens de consumo. Com a Revolução Industrial, os agricultores e artesãos foram transformados em trabalhadores industriais, alienados do conjunto do processo produtivo, vendedores de sua força de trabalho como mercadoria. Já os donos das máquinas e equipamentos se tornaram a nova classe dominante. Por sua vez, o fim da escravização e o abandono de milhões de pessoas sem direito à propriedade e sem qualquer reparação pelos séculos de exploração, combinados com o incentivo ao êxodo rural deslocando milhões de agricultores para as cidades, em moradias precárias e totalmente dependentes dos empregos oferecidos pela indústria emergente, geraram um enorme exército de pessoas vulneráveis à mercê dos interesses do capital. Nascia uma nova ordem social, com novas classes e uma nova ideologia dominante, na qual a burguesia – classe enriqueceu detendo os meios de produção –  passou a desenhar uma linguagem política apresentando o capitalismo como único sistema capaz de promover liberdade, acesso à renda e a bens de consumo para toda a sociedade. A ideologia capitalista, excludente e violenta, apresentou-se como um sistema democrático, cujo esforço pessoal seria recompensado com a ascensão social.

A realidade, no entanto, sempre foi e continua sendo outra. O capitalismo, desde seu surgimento, se caracterizou como um modelo de economia política que funciona a partir da apropriação por uns do resultado do trabalho de toda a sociedade. A consequência é a concentração da propriedade e da riqueza produzida nas mãos de poucos e uma vida de exclusão, de miséria e de fome para a maioria da população. No capitalismo, não há condições reais de ascensão social, de acesso a uma vida plena, digna e justa. Aliás, Karl Marx, em sua obra “O capital”, ao descrever o processo de produção capitalista, foi quem melhor desvendou esse mecanismo perverso de acumulação e de exploração dos trabalhadores através da mais-valia. Ele demonstrou como as classes dominantes distorcem a percepção social a partir de mecanismos de dominação ideológica para perpetuar o sistema de exploração.

Brasília, DF 13/02/2024 O bloco Pacotão, que existe desde 1978, saiu da 302 norte com destino a Asa Sul. Eudaldo Sobrinho, participa do grupo Muralha Antifascista Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Por seu lado, ao tomar consciência de que as promessas do sistema capitalista eram, na realidade, uma cilada, parte das classes trabalhadoras iniciaram movimentos exigindo uma divisão igualitária do excedente do processo produtivo. Mais do que isso, ao reconhecer na propriedade privada dos meios de produção o elemento central para o exercício da dominação pela burguesia, essa parcela buscou construir saídas para a superação dessa situação, a partir do uso comum desses bens tão necessários para a reprodução da vida de todos. Assim nascem as ideias do comunismo como ideologia que se contrapõe diretamente ao capitalismo, a partir de um princípio ético de que nem tudo é mercadoria e que os bens comuns e os meios de produção devem ser da coletividade e não propriedade de uma minoria.

A potência dessas ideias impactou grande parcela das classes trabalhadoras que, aos poucos, foram se tornando um movimento político na defesa de uma outra forma de organização e funcionamento das sociedades industriais. O comunismo, como ideologia social e como visão ética de mundo, rapidamente ganhou força, em especial nos países onde a Revolução Industrial se implantou com maior rapidez e velocidade. Os trabalhadores comprometidos com esse ideal passaram a se organizar, criando associações, sindicatos, promovendo lutas, manifestações e greves por redução da jornada de trabalho, elevação dos salários, direito ao descanso diário e semanal, direito à licença-maternidade, contra o trabalho infantil e contra os castigos físicos e maus-tratos praticados no ambiente fabril. Ocorrendo simultaneamente em vários os países, esse processo culminou numa articulação internacional e na criação, em 1864, em Londres, Inglaterra, da Associação Internacional dos Trabalhadores, posteriormente considerada como a primeira internacional comunista.

A essa ebulição social somou-se outra provocada pela disputa entre as potências europeias capitalistas pelo acesso às matérias-primas,  ao controle das rotas de navegações comerciais e aos mercados consumidores. A disputa entres os interesses capitalistas resultou na divisão da Europa em dois blocos, um formado pelos impérios Alemão, Austro-húngaro e Italiano, denominado Tríplice Aliança, e outro formado pelas repúblicas liberais do Reino Unido e da França, com apoio do Império Russo Czarista e dos EUA, denominado Tríplice Entente. Esses dois blocos se enfrentaram militarmente na Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, resultando vitoriosa a Tríplice Entente, derrotando a Alemanha. A Itália, antes do final da guerra, mudou de lado em troca de promessas de territórios e de compensações que, ao final, não se realizaram.

No entanto, a mudança mais profunda ocorrida naquele período foi a Revolução Russa de 1917. Pela primeira vez, a abolição da propriedade privada e a utopia do poder político exercido pela maioria dos trabalhadores e trabalhadoras assumia o comando de uma potência global. Com o advento do nascimento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), fortalece-se no seio das classes populares em todo o mundo a utopia de uma sociedade comunista internacional. Um regime que reconhecia que a liberdade tem como condição a igualdade econômica. Que seres humanos desiguais economicamente jamais teriam condições de exercer sua liberdade em igualdade de condições. Afirmava que a democracia verdadeira é aquela construída a partir das organizações de quem trabalha para construir a sociedade. E que a melhor forma de organização, a mais democrática, seria aquela a partir da base social, ou seja, dos trabalhadores e trabalhadoras. A possibilidade de esse modelo ser implementado pelo mundo ganha materialidade e viabilidade histórica, representando uma ameaça real para a burguesia e para a continuidade de um emergente sistema capitalista.

Movimentos nacionalistas, ultraconservadores, autoritários e violentos surgem na Europa arrasada pela I Guerra, antagônicos aos que defendiam a superação do capitalismo

É nesse cenário que, numa Europa arrasada pelas consequências da Primeira Guerra Mundial, surgem movimentos nacionalistas, ultraconservadores, autoritários e violentos. Esses movimentos, para terem adesão popular, nascem denunciando a fome e a pobreza resultantes do próprio capitalismo e criticando o pensamento liberal e as democracias. Da mesma forma, posicionam-se como antagônicos aos movimentos que defendiam e defendem a superação do capitalismo como modelo de sociedade. Pela radicalidade e pelo apelo por ruptura extrema, o fascismo cresceu rapidamente e se tornou uma ideologia dominante em alguns países, sendo assumido por vários segmentos das sociedades, em especial as classes médias, os pequenos empresários e os comerciantes.

As experiências mais marcantes foram na Itália, a partir da criação do Partido Nacional Fascista (PNF) que, sob liderança de Benito Mussolini, ascendeu ao poder em 1922 e se perpetuou até 1943, quando foi derrotado pelas forças dos Aliados. Tinha como características uma forte propaganda nacionalista, a censura da imprensa, a repressão aos opositores políticos e uma agenda expansionista que levou, inclusive, à invasão da Etiópia em outubro de 1935. Em 1933, Adolf Hitler assume o poder na Alemanha, dando início à experiência nazifascista que duraria até 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial. O nazifascismo se caracterizou como um regime nacionalista extremado, baseado na ideia de supremacia racial, na segregação e perseguição de minorias, no extermínio de opositores e de setores sociais, como judeus, ciganos e pessoas com deficiência. Com viés expansionista, promoveu a invasão de vários países, como Tchecoslováquia (1938), Polônia (1939) – que culminou com o início da Segunda Guerra Mundial –, e países como Noruega, Dinamarca e França (1940) e a Rússia (1941). Produziu a infâmia do holocausto como máquina de extermínio em massa. Na Espanha, a experiência fascista teve início em 1939, sob a liderança de Francisco Franco, e perdurou por mais de trinta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, tendo fim somente em 1975 com a morte do ditador e o início de uma transição para uma monarquia constitucional que perdura até os dias de hoje. Como características principais, a experiência espanhola tem a glorificação do Estado, o surgimento de segmentos apoiadores na própria sociedade espanhola e o controle rígido do comportamento e funcionamento da sociedade. A experiência fascista e de segregação racial ocorrida na África do Sul se iniciou em 1948, após a Segunda Guerra Mundial, e perpetuou-se por 46 anos, sendo a mais longa de todas as experiências totalitárias. Como características específicas, não se estruturou no entorno de um líder carismático; pelo contrário, tinha como ideia-força a defesa da supremacia racial branca sobre a maioria da nação negra sul-africana. Essa experiência de fascismo segregacionista somente teve fim em 1994, após um longo processo de mobilizações internas e de sanções econômicas internacionais. Esses regimes geraram impactos profundos nas sociedades onde ocorreram, tornando-se um símbolo de opressão e violência política, levando a um intenso debate entre os democratas sobre suas causas, bases conceituais e consequências para a história.

O fascismo como linguagem política

A construção distorcida do sentido de palavras, conceitos e valores como a própria democracia.

É fundamental distinguir entre esse fascismo histórico e os movimentos de extrema-direita que, atualmente, se espalham pelo mundo. Esse novo fascismo, embora guarde relação com as experiências do século passado, nasce de uma nova conformação do mundo do trabalho e das sociedades contemporâneas, em especial com a prevalência na vida cotidiana da internet, da automação, das novas tecnologias e das redes sociais. Esse novo tipo de fascismo, que não esconde o orgulho da defesa de pautas excludentes e segregacionistas, choca por sua crueza e violência. A contradição é que líderes que defendem ideias fascistas têm ascendido ao poder mediante processos políticos promovidos pela própria democracia, como ocorreu no Brasil com Bolsonaro, de 2018 a 2022.

O fascismo no Brasil não deve ser considerado como um fenômeno importado.  Isso porque a formação social brasileira é resultado de séculos de extermínio dos povos indígenas e da escravização.

A democracia, enquanto valor universal centrado no respeito às diferenças e ao direito de opinião, vê-se numa profunda contradição ao legitimar, pelo sufrágio universal e por meio de mecanismos soberanos de decisão popular, a eleição de líderes que defendem abertamente a exclusão e a extinção de parte da própria sociedade que os elegeu.

Importante ressaltar que o fascismo no Brasil não deve ser considerado como um fenômeno importado. Isso se dá porque a formação social brasileira é resultado de séculos de extermínio dos povos indígenas e da escravização dos povos negros, tendo sido o último país a abolir a escravidão. Na década de 1930, a Ação Integralista Brasileira (AIB), de Plínio Salgado, mobilizou milhares de brasileiros com um apelo autoritário que combinava nacionalismo ufanista, anticomunismo visceral, defesa da hierarquia e apelo à ordem contra o “caos democrático”. Sufocada pela força do Estado Novo, a semente integralista sobreviveu ao longo da história e ressurgiu nos 21 anos de ditadura militar como prática política por dentro do Estado e das instituições brasileiras, gerando uma elite estatal, antipovo e de viés autoritário.

É necessário reconhecer que, após mais de 30 anos de redemocratização, as jornadas de junho de 2013 alimentaram movimentos que culminaram no golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016 contra a presidenta Dilma e que a tradição autoritária retornou com força renovada, potencializada pelas redes sociais e por uma classe média que, diante do medo da perda de status e da mobilização popular, passou a funcionar como a “correia de transmissão” da ideologia fascista, na acepção de Marilena Chauí.

O bolsonarismo, mais do que um movimento de governo, consolidou-se como o principal laboratório contemporâneo do fascismo à brasileira. Nele, operam todos os elementos que caracterizam o novo fascismo analisado ao longo deste artigo: a construção de uma linguagem política baseada no desvio semântico; a atuação sistemática das big techs como amplificadoras da polarização e da desinformação; o culto ao líder que se apresenta como intérprete absoluto da vontade nacional; a defesa explícita do Estado de exceção como instrumento de eliminação dos adversários políticos e dos corpos considerados descartáveis — negros, indígenas, periféricos, ativistas. Diferentemente do fascismo histórico, que nasceu de golpes militares e se institucionalizou a partir de organizações com uniformes e rituais públicos, o fascismo brasileiro opera na capilaridade do cotidiano digital, na degradação sistêmica de tudo que é coletivo e de interesse público, na militarização da política e no incentivo à violência como forma de sociabilidade. E, apesar de tudo isso, disputam eleições democráticas.

Esse paradoxo se explica a partir de um conceito da linguística chamado “desvio semântico”, que é quando se subverte o sentido de um termo para alterar sua interpretação. Sócrates, em seus diálogos com Platão, refere-se ao desvio semântico como “abuso de linguagem”, justificando que é o uso distorcido das palavras visando manipular, causar dano, confundir, ocultar a verdade ou exercer poder psicológico sobre alguém. Esse é um elemento central para entender a relação das pessoas com o fascismo, porque é a linguagem que dá sentido à vida, que descreve a realidade e molda os comportamentos e as escolhas. Esse fenômeno tem sido instrumentalizado pelo fascismo, ficando praticamente impossível discutir seu crescimento sem uma reflexão crítica do papel que a linguagem desempenha nas relações de poder, funcionando como um meio através do qual as ideias (ideologias) são construídas, comunicadas, aceitas ou contestadas. É a linguagem que estabelece a forma como as pessoas se entendem, se compreendem como partes de uma sociedade e a maneira como as estruturas de poder se legitimam. Numa sociedade democrática, o domínio dessa retórica, representa o domínio do próprio poder.

Nesse sentido, nas democracias, o fascismo se constituiu como força, essencialmente, a partir da construção de linguagem política, radicalizada e que propõe uma profunda ruptura, apresentando-se como alternativa para as classes médias e para parcela da classe trabalhadora que sofrem com as desigualdades inerentes ao capitalismo. Essa linguagem se propagou no século passado e retomou sua ofensiva nos dias atuais, tendo como mote principal a construção de uma visão distorcida do sentido de palavras, conceitos e valores como igualdade, liberdade, justiça, direitos sociais e da própria democracia. Não devemos menosprezar a força dessas falsas verdades, ridicularizando sua capacidade de convencimento de parcelas das nossas sociedades. Em “A ordem do discurso”, Michel Foucault já nos alertava que os discursos moldam a realidade social e as relações de poder, enfatizando a importância da linguagem na construção do saber. Por sua vez, Noam Chomsky e Edward Hermann, em “A fabricação do consentimento: economia política da mídia de massa”, nos informam sobre a capacidade de manipulação da linguagem por parte das elites e de seus meios de formação de pensamento para moldar a opinião pública e sustentar suas estruturas de poder e controle.

Como, por mais dinheiro que tenham, jamais serão classe dominante, as classes médias produzem um tipo de sujeito ressentido com a sua própria situação.

Nessa reflexão, é fundamental trazer à tona o pensamento da filósofa Marilena Chauí, em especial sua análise do papel das classes médias no teatro da dominação burguesa. Segundo ela, as classes médias sequer deveriam ser consideradas como classes sociais, porque não são senhoras do capital nem produzem a mais-valia. No entanto, para a filósofa, elas têm uma função fundamental, que é a de ser correia de transmissão da ideologia dominante. Ainda segundo a autora, elas possuem uma outra função, que é a de viver entre o sonho de se tornarem classe dominante e o pesadelo de serem relegadas à condição de classe trabalhadora. Como, por mais dinheiro que tenham, jamais serão classe dominante, as classes médias produzem um tipo de sujeito ressentido com a sua própria situação. Esse ressentimento é matéria-prima para a proliferação do pensamento fascista. Assim, em síntese, o fascismo protege os donos do poder e oprime, de forma violenta, as classes populares. É um movimento potente e perigoso, em escala global, com muito mais força e capacidade em função da dinâmica das redes sociais que, por meio dos algoritmos, manipulam o acesso às informações das massas, ampliando a capacidade de difusão de sua ideologia para amplas camadas sociais com narrativas falaciosas da realidade.

O fascismo como resposta capitalista às crises do próprio sistema

A democracia liberal capitalista sempre foi uma democracia para poucos.

Para a maioria das pessoas, a democracia burguesa representou e representa exclusão, desemprego, pobreza, dominação, violência e morte. Não há saídas ou soluções reais para a humanidade dentro de uma sociedade capitalista e, portanto, a partir da democracia liberal. As crises sistêmicas são apenas uma evidência cíclica dessa verdade histórica.

No entanto, cada vez que as classes populares se apresentam no cenário político com capacidade real de construir uma alternativa ao capitalismo, o próprio sistema, visando perpetuar-se, “denuncia” a crise que ele mesmo causou para apresentar-se como saída. Pior do que isso, busca construir uma narrativa de que as causas da crise capitalista seriam a democracia liberal, a resistência popular e a luta dos trabalhadores por mudanças.

O fascismo é uma resposta direta das elites contra o risco de empoderamento popular. Como forma de controle, defendem não apenas um Estado, mas uma sociedade autoritária.

Nesse viés, o fascismo ressurge como resposta direta das elites burguesas e das camadas médias das sociedades ao avanço do poder das camadas populares e do crescimento de ideologias sociais que buscam construir sociedades mais justas e igualitárias. O fascismo alimenta-se da enorme frustração de várias camadas da sociedade frente à incapacidade do sistema capitalista de entregar ao mundo o acesso a bens e direitos que sempre prometeu. Alimenta um forte sentimento nacionalista e a ideia de superioridade cultural e étnica daquelas pessoas que o defendem, em relação aos demais segmentos e etnias. Tem como concepção que é preciso um Estado autoritário e violento, com poder sobre todos os aspectos da vida econômica, política e social. E se contrapõe tanto ao liberalismo, por sua ênfase em direitos individuais e liberdade de expressão, quanto ao socialismo, por sua natureza coletivista.

A força motora do fascismo é o próprio sistema capitalista. É produto e consequência direta de suas crises sociais causadas pela acumulação de riqueza de um lado, e o desemprego, a fome, a falta de direitos e a violência de outro. Nesse cenário, a maioria da população vive com medo, desesperança e incerteza sobre seu futuro. Culpa as instituições, a política, os governos e todas as formas de organização, como responsáveis por sua situação. Por sua vez, os pequenos proprietários, comerciantes, profissionais liberais e servidores públicos graduados que detêm algum capital, temem perder as migalhas amealhadas e se ressentem da possibilidade do avanço da organização das classes populares.

O fascismo é uma resposta direta das elites contra o risco desse empoderamento e das mudanças que a classe popular representa. Como forma de controle, defendem não apenas um Estado, mas sim uma sociedade autoritária que deve dominar o Estado e colocá-lo, sem escrúpulos, a serviço dos seus interesses. Pretendem exercer pleno controle sobre a educação, a imprensa, a comunicação, as religiões e os comportamentos sociais. São contra o pensamento liberal, contra a diversidade, defendem o pensamento único e justificam suas crenças em falsas religiões conservadoras.

Quem melhor descreveu essa dimensão do fascismo foi o filósofo e teórico marxista Antônio Gramsci. Para ele, o fascismo não é apenas um fenômeno político, mas fenômeno cultural e ideológico com uma agenda de ideias orientadas: por um Estado de exceção como resposta da classe dominante a uma crise do capital, na qual os sistemas tradicionais de controle social falham; pela hegemonia cultural, em que o fascismo busca ganhar a adesão popular através da construção de um consenso em torno de valores e ideais que legitimam seu regime, criando um sentimento de identidade nacional; e pelo bloqueio dos movimentos libertários através de forte repressão para impedir o avanço das forças progressistas e democráticas. Em síntese, o fascismo se sustenta sobre a ideia de que a sociedade é desigual, em que os fortes dominam os fracos e o Estado, na mão dos fortes, deve se impor. Para Gramsci, o fascismo busca a hegemonia social a partir da dinâmica de poder, da cultura, da ideologia e da luta por mudança em contextos de opressão e, para isso, ganha o apoio de parte das classes populares frustradas com as consequências do capitalismo.

O fascismo como antítese de uma nova ordem global efetivamente democrática

Para combater o fascismo, é preciso reconstruir a utopia de uma nova humanidade

É inquestionável que, atualmente, todas as sociedades ocidentais, em sua grande maioria, possuem em sua base social um percentual expressivo de pessoas que acreditam e apoiam os valores e as ideias fascistas. Essa mudança pode ser compreendida pela lógica neoliberal em impor a todas as sociedades capitalistas o individualismo como elemento organizador do pensamento no qual a concorrência, a meritocracia, a supremacia e a desigualdade são alimentadas como valores. O pensamento e comportamento racista, xenófobo, excludente, que legitimam a violência de gênero, a segregação e até mesmo a morte de outros setores sociais têm como elemento organizador a convicção de que, na sociedade moderna, é cada um por si. Que um indivíduo com celular e uma rede wifi é invencível.

Ao interpretar essa nova lógica do fascismo contemporâneo, o filósofo e escritor Vladimir Safatle publicou seu novo livro chamado “A ameaça interna”, em que provoca uma reflexão sobre a consolidação do fascismo como elemento estrutural da sociedade capitalista nos seus moldes atuais. Segundo ele, a centralidade da identidade individualista neoliberal criou as condições para que o racismo, o fascismo, o patriarcado e o colonialismo fossem assumidos e defendidos publicamente, sem filtros, a partir de uma sociedade sem afetos, sem empatia, centrada na indiferença e na ausência de sentimento pelo próximo. É isso a que temos assistido todos os dias nos noticiários nacionais e internacionais. O fascismo é defendido, em alto e bom som, nos parlamentos, nas casas de governo, nos quartéis, nos templos e nas igrejas. Prega-se a violência baseada na indiferença. Legitima-se a violência do Estado contra parcela da sociedade sem máscaras ou disfarces. Nesse contexto, alimenta-se das crises que se instalam de forma permanente, como a crise climática, a crise da economia, a crise social e a crise democrática. Para a lógica fascista, o futuro é uma guerra civil planetária. A lógica é simples: se estamos à beira da extinção, se a vida em sociedade é essa mesma, não faz sentido um sentimento de solidariedade.

Felizmente, a dialética marxista nos ensina que a história é resultado da luta de classes e que a consciência de classe produz movimentos de massas com capacidade de alterar o fluxo da história. Para combater o fascismo, é preciso reconstruir a utopia de uma nova humanidade, mobilizar milhões de pessoas na defesa de um outro mundo possível. Nesse rumo, em 2018, logo após o golpe de Estado contra a presidenta Dilma e contra o povo brasileiro, o Fórum Social Mundial de Salvador/Bahia definiu como lema “Resistir é criar, resistir é transformar”, compreendendo que na resistência também podem ser assentadas as bases de uma nova realidade. Que a partir da negação da realidade que nos oprime somos capazes de pensar, sonhar e idealizar uma outra realidade em prol de nossos desejos, necessidades e interesses. Se o capitalismo como sistema econômico, político e social é incapaz de satisfazer as necessidades de toda a humanidade, é preciso imaginar um outro sistema, que o supere e que possa, mantendo os avanços, aprendizados e toda tecnologia criada, gerar uma sociedade igualitária, em equilíbrio com o meio ambiente, inclusiva e solidária. Ao ler os lemas propostos para o Fórum Social Mundial de 2026, que será realizado de 04 a 08 de agosto, no Benin, enxergo a agenda para essa nova ordem mundial. Temas como a descolonização,  o combate ao racismo, a soberania dos povos, a justiça social, os direitos humanos, a igualdade de gênero, a justiça climática, a economia solidária, a agricultura familiar e agroecológica,  a educação universal, pública e gratuita, a saúde como proteção e bem-estar social, a cultura e a comunicação plurais e diversas, o controle social da tecnologia e das redes, o desarmamento e a desmilitarização e a paz, a democracia representativa, participativa e direta e o conceito de cidadania universal. O combate e a derrota do fascismo contemporâneo somente será possível a partir da construção dessa nova utopia capaz de mobilizar corações e mentes, gerando esperança na possibilidade de que outro mundo seja possível.

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Para pesquisar e ler mais

O fascismo à brasileira. de Pedro Dória, pela.Ed. Planeta, 2020, São Paulo/SP.

A ordem do discurso. de Michael Foucault, pela Edições Loyola, 1996, São Paulo/RS.

A era do capital (1848-1875), de Eric Hobsbawm, pela Ed. Paz e Terra, 2012, São Paulo/SP.

O capital. Livro I. O processo de produção do capital. de Karl Marx, Trad. Rubens Enderle, pela Ed. Boitempo Editorial, 2013, São Paulo/SP.

A ameaça interna, de Vladimir.Safatle. Ubu Editora, 2026, São Paulo/SP.

Como funciona o fascimo: a política do nós e eles, deJason Stanley, pela. Ed. L&PM, 2018, Porto Alegre/RS.

 A fabricação do consentimento: economia política da mídia de massa. De Noam Chomsky e Edward Herman (original em inglês, de 1988, pela Pantheon Books)

Mauri Cruz é advogado, educador popular do CAMP – Escola do Bem Viver, diretor executivo do Instituto de Direitos Humanos – IDhES, sócio-diretor da Usideias, membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial e autor do livro “Democracia, Direitos dos Povos e do Planeta”

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