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Publicado em

23/07/2026

Como se preparar para o que vem

Um bom começo seria multiplicar os espaços nos quais o mal-estar seja escutado, bem como dar voz à esperança e ativar um cuidado prático e local em vez de correr atrás das cóleras

Por Carmem de Oliveira

Roda de conversa Transbordar: Corpos e territórios, memória e resiliência, no jardim do Centro Cultural Yves Albes, no Festival Artes Vertentes, no centro de Tiradentes (MG) em 15/09/2025. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Às vésperas das campanhas eleitorais no Brasil, há indicativos de um mal-estar entre os eleitores. Em parte, isso parece expressar o medo de reviver as fraturas sociais geradas nas eleições presidenciais de 2022. Mas talvez estejam presentes novas variáveis perturbadoras. De qualquer forma, pode-se supor que o mal-estar diante dessas ameaças (o fantasma de retorno do já vivido e o assombro diante do que seria extraordinário no contexto atual) incidirá nos resultados das eleições deste ano, especialmente porque mobilizam reações subjetivas de alto poder de contágio.

Destacam-se dois possíveis vetores de influência para a configuração desse mal-estar: a mudança de como percebemos as desigualdades e os impactos das mídias digitais em nossas vidas.

A mudança de percepção das desigualdades é uma tese desenvolvida pelo sociólogo francês François Dubet, no livro “O tempo das paixões tristes”. Ele argumenta que antes o sistema era percebido como injusto e as desigualdades pareciam fixadas na estrutura social, mas era uma situação relativamente estável e compreensível.

Agora, entretanto, as desigualdades se individualizam e se multiplicam, provocando uma mudança de percepção. Segundo Dubet, a individualização foi forjada pela onda neoliberal que afirma o Estado mínimo e coloca a mobilidade social como responsabilidade do sujeito, pelo seu esforço e talento. Ao mesmo tempo, tivemos a multiplicação das desigualdades pelo fracionamento dos indivíduos em diferentes grupos sociais e, muitas vezes, com lutas identitárias concorrentes no acesso às políticas de proteção.

Essas duas condições tornariam as “pequenas” desigualdades mais significativas do que as “grandes”, uma vez que não nos comparamos àqueles que estão mais longe de nós, mas aos que estão mais próximos. Por outro lado, as “pequenas” desigualdades não se inscrevem em nenhuma grande narrativa capaz de dar sentido, apontar causas e seus responsáveis e de esboçar projetos para seu enfrentamento. Dessa forma, a consciência de exploração estaria sendo  substituída pelo sentimento de discriminação, diz Dubet.

Se olharmos para os recentes indicadores sociais no Brasil, veremos que as políticas de enfrentamento das desigualdades produziram alguns avanços na igualdade de oportunidades (como no acesso à educação), mas não levaram a uma igualdade de posições, ou seja, são micromobilidades que pouco modificaram a estrutura social. Além disso, esses deslocamentos parecem provocar um sentimento de instabilidade e um medo de desclassificação, porque nada  é garantido e nada parece realmente aberto, uma vez que a fraca macromobilidade demonstra a forte reprodução das posições sociais.

E como essas mudanças são vivenciadas pelos sujeitos? Se, antes, os desafios singulares alimentavam razões de lutar juntos e ofereciam consolos e perspectivas, agora o esgotamento na competição e a decepção com os resultados ampliam o sentimento de injustiça. Nesse contexto, sentir-se vítima ou culpado se torna mais recorrente, determinando que a experiência subjetiva mais básica das desigualdades sejam os sentimentos de impotência e vergonha, abrindo espaço para o ressentimento a fim de o sujeito evitar o desprezo de si mesmo.

O segundo vetor de influências se refere aos impactos das mídias digitais. A análise do filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi sobre o que ele denomina de semiocapitalismo nos dá algumas pistas para compreendermos melhor as mutações produzidas pelas novas tecnologias de comunicação.

Ele aponta que a intensificação e aceleração do ritmo produtivo e informativo, bem como a proliferação de signos através da onipresença das telas e da conexão permanente têm produzido efeitos de caos na psicoesfera coletiva – conjunto de crenças, valores, ideologias, hábitos e discursos que orientam as ações da sociedade. Isso vem provocando uma sobrecarga emocional com efeitos desestruturantes da capacidade cognitiva pela desproporção entre o volume de novas informações e a insuficiência de tempo disponível para seu processamento consciente. Essa redução das possibilidades de elaboração individual torna mais difícil identificar o que é relevante e o que é irrelevante ou de discriminar entre o verdadeiro e o falso na informação.

Um outro efeito da atrofia da atenção é sobre a memória, na medida em que a imensa quantidade de estímulos ofusca as temporalidades passadas e produz a incapacidade de imaginar o futuro, levando os sujeitos a rotas simplificadas ou à repetição de padrões comportamentais já incorporados.

Em síntese, enquanto a individualização e a multiplicação das desigualdades produzem a impotência e o ressentimento, as mídias digitais  provocam o estresse perceptivo, cognitivo e psíquico. Ambas as circunstâncias debilitam o sujeito e favorecem a emergência de um mal-estar vivenciado como um apagão libidinal, com a retirada do desejo de lugares, objetos e atividades.

No caso da retirada da arena política, identifica-se uma dupla expressão: por um lado, traduz o esgotamento da representatividade a decepção com as instituições; mas também, por outro, é sinal de fuga da responsabilidade cívica. Por isso, desertar da arena política não é propriamente uma saída, mas uma desistência, que expressa uma resposta ressentida de fechamento ao mundo, na lógica de que “já que não há mais o que fazer, então não façamos nada”. Esse tipo de retirada pode estar associada à elevada taxa de absenteísmo ou de voto nulo projetado nas recentes pesquisas eleitorais no país. Trata-se de uma indignação inócua, mais próxima de uma revolta de passividade e resignação e bem distante das insurreições que instigam transformações.

O fato é que não tem sido fácil cumprir as ambiciosas promessas da democracia e o princípio fundamental de igualdade. Mesmo os avanços em políticas sociais dos governos progressistas, como a redução da pobreza, são considerados por muitos como “gastos públicos” e entraves ao crescimento econômico, enquanto o cidadão assistido é visto como usurpador do orçamento público.

Tal interpretação contribui para a ampliação da desconfiança na capacidade das instituições democráticas de resolver os problemas da população.

Portanto, não é de estranhar que o discurso antissistema passe a ter enorme apelo eleitoral, transformando a mentira em método e a política, um curral de fanatismo para encobrir, por exemplo, a discriminação das minorias sociais e o desprezo por ciência, educação, cultura e sistema de justiça. Cabe lembrar que o populismo autoritário contemporâneo nada mais é do que um filho dileto e violento do neoliberalismo, que opera no sentido de regulação das subjetividades e de desregulamentação dos mercados.

Como sairemos da posição crítico-acusatória que nos confina na polarização política cada vez mais calcificada? Como superar a atrofia da imaginação coletiva que nos torna incapazes de ver possibilidades alternativas para a devastação, a miséria e a violência?

Para a psicanalista brasileira Suely Rolnik, os períodos de convulsão social são sempre os mais difíceis de viver, mas também os mais vigorosos, porque é neles que a vida grita mais alto e mobiliza um trabalho coletivo de pensamento. Mas como imaginar dentro de um estado de intoxicação digital que paralisa a imaginação? Onde encontrar a visão de uma nova paisagem em meio ao “grande cansaço”?

Uma das pistas de Berardi é a “criação de ilhas de deserção amigável”. Um outro tipo de deserção está sendo aqui proposto: uma retirada da competição e do produtivismo e uma recusa da “servidão high-tech” e da saturação de informações.

A “ilha de deserção amigável” aposta no sentido inverso da amizade agenciada por algoritmos e que produzem apenas o efeito da câmara de eco, com a troca de informações com pessoas que pensam como nós, nos levando a rejeitar o encontro com a diversidade. O que precisamos, urgentemente, é de uma comunicação fora da bolha.

Nessa direção, o que se afirma é a construção de pontes para a busca do que temos em comum.

A ideia é de que somente a amizade, a proximidade afetuosa e a solidariedade podem imaginar algo possível eticamente e estrategicamente eficaz. 

Um bom começo seria multiplicar os espaços nos quais o mal-estar seja escutado, bem como dar voz à esperança e ativar um cuidado prático e local em vez de correr atrás das cóleras. Talvez fosse necessário também multiplicar espaços de refúgio para sobreviver durante uma eventual tempestade. São diferentes formas de se preparar para o que vem, mas sempre se trata de imaginar o inimaginável.

Carmem de Oliveira é psicóloga, psicanalista, doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP e pesquisadora convidada do Laboratório Artes e Micropolíticas Urbanas da Universidade Federal do Ceará (UFC).

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