Publicado em
23/07/2026
Indígenas munduruku, arapiuns, tupinambá e todas as 14 etnias que ocuparam a juntas o terminal da Cargill fizeram reverberar pelo país sua força em defesa do Rio Tapajós

O trabalho do fotógrafo indígena João Marcos documenta a histórica ocupação do terminal da Cargill, no distrito portuário de Miritituba (PA), onde a presença indígena interrompeu o fluxo de uma das maiores gigantes do agronegócio global que se apropriava do Rio Tapajós.
Sob o sol intenso do Pará, cerca de 1.200 indígenas, de 14 etnias — entre elas Munduruku, Apiaká e Cara Preta —, unificaram suas presenças em um único ponto de pressão. O terminal da Cargill tornou-se o epicentro da mobilização histórica dos guardiões da floresta expressando a urgência da defesa do rio como extensão da vida na região. O levante foi uma resposta direta ao Decreto nº 12.600, que permitiria incluir os rios Tapajós e Madeira no Programa Nacional de Desestatização, facilitando dragagens e a privatização de hidrovias sem consulta prévia aos povos que há séculos vivem daquele ecossistema e o protegem.
Uma escalada de tensão e obstruções marcaram a ação indígena. A ocupação do terminal portuário paralisou as atividades de exportação e se expandiu para outros pontos estratégicos: indígenas bloquearam o acesso ao aeroporto de Santarém, ocuparam o próprio aeroporto e também as balsas de grãos da Cargill no Rio Tapajós. Diante do impacto logístico, os manifestantes enfrentaram forte intimidação policial e pressão crescente pela desocupação. Mas o pátio da empresa foi ressignificado — transformado em espaço de pajelança, assembleia e articulação política, abrigando reuniões, debates e a presença de apoiadores da causa.
A expressão política e espiritual presente nos cantos ancestrais indígenas demonstrou sua capacidade de mobilização para redefinir os termos da disputa. Após mais de 30 dias de ocupação, a vitória veio com o anúncio da revogação do decreto pelo governo federal. O recuo do governo cedeu à evidências de que, para os povos do baixo Tapajós, a defesa do rio é inegociável.
O país testemunhou uma ação direta de democracia feita de presença, corpo e território — que são, muitas vezes, os povos originários a manterem viva essa prática essencial.











Ocupação em Santarém – Foto: José Marcos
