Publicado em
23/07/2026
A democracia brasileira não é estática; ela está em um processo de reacomodação de forças diante de uma extrema-direita organizada que deixou de ser marginal para ocupar o centro das decisões. As eleições de 2026 encontram um país politicamente mudado, onde a defesa da democracia não é apenas um slogan, mas um embate contra o risco de retrocessos estruturais. Não estamos diante de um evento isolado, mas do ápice de um processo que envolve a crise do presidencialismo de coalizão e a fragilização dos pesos e contrapesos entre os poderes. Confira nossa análise sobre os desafios que definem este ano eleitoral.

A perspectiva equilibrista da democracia é o ponto de partida desta edição. Vivemos um tempo de transformações políticas aceleradas, em um contexto complexo e perigosíssimo, marcado pela reorganização das forças de poder e pelo avanço de projetos que tensionam os próprios fundamentos da democracia. O que está em disputa não é apenas quem governa, mas o sentido próprio da democracia como forma de organização da vida coletiva.
A democracia não costuma ser rompida de forma súbita. Ela se enfraquece quando o conflito político deixa de ser mediado por regras comuns, quando a diferença passa a ser tratada como ameaça e quando decisões que afetam a maioria se afastam do controle público.
Nesse cenário, a disputa pelos espaços legislativos tem sido tratada como eixo estratégico por grupos que se colocam em oposição ao projeto democrático, não apenas para influenciar decisões institucionais, mas também para reconfigurar regras, enfraquecer garantias e reorganizar o próprio funcionamento do Estado. Trata-se de uma disputa que também opera no campo cultural, buscando alterar valores, sensibilidades e formas de percepção coletiva. Reconhecer essa dinâmica é urgente para compreender a profundidade do momento político em curso.
Ao mesmo tempo, algoritmos, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial passaram a influenciar de forma intensa a formação da opinião pública. A disputa política se desloca, ainda, para o campo da percepção, em que narrativas são filtradas, amplificadas e repetidas em escala, muitas vezes a serviço de interesses concentrados.
As próximas eleições não se resumem à escolha de representantes. Elas expressam a disputa entre projetos de sociedade que buscam ampliar, restringir ou redefinir o alcance da democracia.
A democracia se fragiliza quando o poder político se separa das condições materiais da vida social e passa a responder de forma estável a interesses restritos. Quando isso ocorre, o regime democrático mantém suas formas, mas perde substância.
É nesse ponto que o “Ensaio sobre a Cegueira”, do saudoso José Saramago, oferece uma chave incisiva: a cegueira não como falta de visão, mas como produção social e política que seleciona o que pode ser visto — e o que deve permanecer invisível.
Por isso, este não é um tempo de escolhas neutras nem de rotina política. É um tempo em que a democracia revela suas fissuras — e o que antes parecia estabilidade se mostra como disputa aberta sobre, o que pode ou não existir como comum.
Diante da urgência histórica deste momento eleitoral, mobilizar-se é preciso. E vamos com coragem e atenção para atravessar esse momento.
Fábio Paes
Coordenador da Revista Casa Comum