NOTÍCIAS >

Vozes em Ação

Publicado em

23/07/2026

Gira Jurídica: democracia em quadrinhos na periferia de São Paulo

A cartilha Gira Jurídica, do coletivo do mesmo nome, é fruto da resistência política das mulheres negras na pandemia e do aquilombamento urbano sob um viaduto na Zona Leste

Por Rita Freire

Maria da Graça,  Lígia Rosa,  Astrogilda Pereira e  Marlene Santana
Maria da Graça,  Lígia Rosa,  Astrogilda Pereira e  Marlene Santana. Foto: Aline Baker

No dia 29 de abril de 2026, um coletivo de mulheres negras da Zona Leste de São Paulo reuniu convidados e convidadas em sarau político-cultural para marcar o lançamento de uma cartilha construída a partir de uma série de encontros sobre as lutas democráticas brasileiras, os direitos conquistados por lutas e as lutas que ainda não chegaram ao fim. O material, intitulado Gira Jurídica – Mulheres refletem sobre a Constituição, explica a Constituição brasileira em linguagem acessível, com o apoio de quadrinhos criados por Kaká Palácio.

Os conteúdos foram produzidos a partir de rodas de conversa  conduzidas por Astrogilda Pereira, a Gilda, uma liderança comunitária à qual as participantes do projeto se referem com especial deferência: integrante da Marcha das Mulheres Negras, fundadora da Associação Baobá de Canto Coral, professora de história aposentada e promotora legal popular – uma formação para apoiar o acesso das mulheres à justiça. Ela introduziu a reflexão sobre a política, a conjuntura e a história brasileira na rotina de encontros coletivos que nasceram buscando driblar o isolamento social.

A reportagem da Revista Casa Comum reuniu-se com as mulheres do coletivo, que também leva o nome de Gira Jurídica, na cozinha da casa de Gilda, na Vila Matilde. A conversa começou com ela e outras duas lideranças, as ativistas e sambistas apaixonadas Maria da Graça Araújo e Marlene Santana, enquanto se ouvia uma quarta integrante, a Lígia, filha de Gilda, ensinando piano a uma criança na sala da casa, antes de juntar-se ao grupo.

No cotidiano das mulheres da Gira: a arte, o ativismo cultural, a educação, as pesquisas, a música e a dança parecem parte inseparável da ação política do grupo. Lígia é musicista desde muito cedo e regente de coral infantil. A irmã, Valquíria, do mesmo coletivo e que ajudou a intermediar a entrevista de longe – hoje estuda na Bahia -,  é percussionista e mestranda em História da África, da Diáspora e dos Povos Indígenas, na Universidade Federal do Recôncavo. Marlene e Graça coordenam a Velha Guarda da Escola de Samba Acadêmicos do Tatuapé – dedicação sempre presente em suas conversas. Na entrevista, soubemos que o instrumento de Marlene é o tambor, uma instrumento que, segundo ela, “vai buscar quem mora longe” – como ela e Graça fazem embaixo do Viaduto Artur Alvim, onde coordenam, juntamente com uma terceira liderança, Angelina Aparecida Reis, o Espaço Cultural Adebankê. Elas são chamadas de as “pretas bás”, homenagem à resistência e ao papel das negras escravizadas na história do Brasil, termo que aparece  na voz de Clara Nunes, na canção “Mãe África” e que as inspirou.

Astrogilda Pereira,  professora  aposentada de história , integrante da Marcha das Mulheres Negras, promotora legal popular e  fundadora da Associação Baobá de coral infantil.
Astrogilda Pereira,  professora  aposentada de história , integrante da Marcha das Mulheres Negras, promotora legal popular e  fundadora da Associação Baobá de coral infantil. Foto: Aline Baker

O lançamento da Gira Jurídica ocorreu justamente lá, embaixo de uma estrutura viária de 230 metros de extensão, com seis faixas de tráfego fazendo ligação entre bairros e vias importantes da Zona Leste  A apropriação comunitária liderada pelas mulheres negras foi transformando o lugar, que antes apenas servia de teto improvisado a quem o ocupasse, em um centro de cultura popular, ativismo e acolhida. O Adebankê é aberto à população e foi, aos poucos, atraindo usuários, pessoas em situação de rua, passantes, moradores, artistas da região para uma programação própria.

Os nomes que identificam o grupo têm origem africana, ou afro-brasileira, como a palavra “gira”, que vem das giras da umbanda. Adebankê é um termo  nigeriano feminino que significa “Deus está cuidando dela” e foi escolhido para o “aquilombamento urbano” sob o viaduto – outro termo que significa, segundo a organização negra Geledés, o processo contemporâneo de resistência e organização coletiva da população negra em cidades, recriando territórios de afeto, cultura e ancestralidade para combater o racismo, a exclusão social e a violência. No caso das mulheres negras, combater tudo isso agravado pela cultura machista e patriarcal.

A cartilha agora é instrumento para o trabalho que já começa em mais um ano eleitoral, continuando a ressignificar um espaço que foi construído para ser apenas o concreto que sustenta o intenso tráfego de automóveis da região.

A origem da Gira Jurídica remonta aos primeiros meses da pandemia de covid-19, quando o isolamento social interrompeu atividades presenciais da comunidade e acentuou a necessidade de organização para apoio às mulheres negras da região. Eleições municipais programadas para o final do ano foram adiadas de outubro para novembro de 2020, por precaução sanitária. Para votar, era preciso usar máscara e higienizar as mãos na entrada da cabina da urna eletrônica com álcool gel.

Marlene Santana, tocadora de tambor, militante do Grupo de Mulher do Consciência Negra,  fundadora do grupo de mulheres Cor e Raça, gestora do Espaço Cultural Adebanke e coordenadora da velha guarda da Academia Tatuapé
Marlene Santana, tocadora de tambor, militante do Grupo de Mulher do Consciência Negra,  fundadora do grupo de mulheres Cor e Raça, gestora do Espaço Cultural Adebanke e coordenadora da velha guarda da Academia Tatuapé. Foto: Aline Baker

Foi nesse contexto que surgiu o coletivo Sacode, embrião da Gira Jurídica, justamente buscando sacudir o ânimo das mulheres da comunidade isoladas pela pandemia. A articulação começou de forma simples, formando uma rede de contatos em que cada mulher convidava outra,uma ideia apresentada por Valquíria Rosa e colocada em prática pelo grupo. “Um dia, ela me ligou e disse: como eu liguei pra você, você liga e chama mais uma. E a gente foi formando e ampliando esse encontro, porque não tinha como não conversar sobre política e sobre como estava o nosso povo”, lembra Marlene.

Os encontros se concentraram em uma programação online, reunindo mulheres da comunidade em debates semanais, chamando uma candidata negra por semana para falar às outras pela internet. A iniciativa cresceu, discutindo preocupações comuns, a conjuntura da política local e nacional e ajudou a eleger duas candidaturas coletivas negras feministas, o mandato Quilombo Periférico nas eleições municipais em 2020 e o mandato feminista liderado do Mônica Seixas nas estaduais em 2022.

O coletivo tornou-se um núcleo de ativismo político-cultural permanente e deve impulsionar mais uma vez as discussões na campanha em 2026. A Gira Jurídica é um instrumento. Mas, com ela, o grupo discute também as questões do racismo, do conservadorismo, da laicidade do Estado, o papel da religião e a ocupação dos espaços políticos e de poder pelas mulheres negras.

Maria da Graça, uma das coordenadoras do Espaço Cultural Adebanke,  integrante da Escola de Samba Acadêmico do Tatuapé, da Velha Guarda.
Maria da Graça, uma das coordenadoras do Espaço Cultural Adebanke,  integrante da Escola de Samba Acadêmico do Tatuapé, da Velha Guarda. Foto: Aline Baker

A virada do grupo para o estudo sistemático da Constituição foi proposta por Gilda, argumentando que a participação política exige apropriação de conhecimento sobre a história e o sentido da democracia. A Gira Jurídica nasce dessa percepção. “Cada direito alcançado pelo povo brasileiro não se deu sem luta e cada conquista não pode ser ameaçada por desconhecimento”, diz a professora. A cartilha, lançada em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, foca na trajetória das sete constituições do Brasil e aponta as dívidas históricas do país com sua população: a cidadania historicamente negada a negros e indígenas.

A trajetória pessoal das integrantes da Gira Jurídica atravessa décadas de lutas sociais e se conectam à história mais ampla do movimento negro, das lutas feministas negras e da resistência contra a ditadura  no Brasil.

A política entrou cedo na vida familiar de Lígia e de forma abrupta. Aos 15 anos, o pai foi preso. “Eu nunca tinha ouvido falar em comunismo, até meu pai ser levado”, ela recorda. Coube à mãe explicar que havia uma ditadura no país. “Cedo descobri que era preciso ter lado na política para defender  valores que aprendi vendo meus pais, sempre em contato com a vida em comunidade.”

Lígia Rosa,  filha da Astrogilda e Geraldo Rosa.  militante do movimento negro, fundadora da Associação Baobá de coral infantil, musicista, professora de piano e regente de Coral Infantil.
Lígia Rosa,  filha da Astrogilda e Geraldo Rosa.  militante do movimento negro, fundadora da Associação Baobá de coral infantil, musicista, professora de piano e regente de Coral Infantil. Foto: Aline Baker

Marlene Santana e Graça militaram juntas no Grupo União e Consciência Negra, criado no início dos anos 80 entre religiosos católicos, época em que a teologia da libertação tinha presença forte e influência nas lutas sociais. Hoje, elas são chamadas de as “pretas bás” do Axé, que abraçam a religiosidade afro-brasileira com o mesmo compromisso com a emancipação popular.

“É importante ver que as mulheres que compõem esse projeto já têm uma ação política muito bem fortalecida nesta região”, diz Lígia. “Então, a Graça, a Marlene e a Angelina, elas já vêm com uma ação política há muitos anos, debaixo do Viaduto Arthur Alvim. E minha mãe também. A história dela, no bairro, junto com meu pai e a nossa família, e a gente tem a Associação Baobá, que já atuava aqui com crianças pretas há mais de 20 anos. E, quando a Valquíria tomou essa iniciativa de juntar essas mulheres, foi juntar uma força de mulheres políticas que já faziam política de ação afirmativa com pessoas pretas na região.”

Inscreva-se


Botão do whatsapp

Entre para nossa comunidade!