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Publicado em

14/12/2023

Conversas sobre trauma colonial em Angola

Projetos Só Belo Mesmo e O Ensaio Possível problematizam as possibilidades decoloniais que povoam as sabedorias de uma geração artística e intelectual jovem luandense.

Por Pamina Sebastião

Há algum tempo que desejava iniciar essa conversa, mas nunca soube ao certo qual seria a melhor abordagem. Finalmente, a arte, por meio do projeto Só Belo Mesmo, proporcionou-me a forma ideal de começar a discutir o trauma colonial.

Pertencendo a uma geração luandense na qual a transmissão de conhecimentos sobre a nossa história, língua e cultura praticamente desapareceu, tanto no seio familiar como na sociedade em geral, abordar o trauma colonial tornou-se um tema tabu.

Raras foram as conversas sobre o impacto da colonização e como o sentimos no dia a dia, as suas consequências no nosso histórico familiar, e como elas moldaram e ainda moldam as nossas infância, adolescência e vida adulta.   

Foi quando comecei o projeto Só Belo Mesmo que consegui abordar e debater alguns dos traumas colonialmente construídos pelas categorias de gênero – na qual incluo os conceitos de sexualidade, raça e classe. Isso implicava, também, entender as origens dessas categorias e sua conexão com a nossa história colonial, processo que ainda decorre. 

Com o Só Belo Mesmo, dei-me tempo para remoer dentro de mim um processo de cura que significasse criar um espaço para falar sobre a inexistência desses saberes da nossa história, da nossa língua e da nossa cultura. 

As expressões artísticas desse processo manifestam-se de maneiras diversas, abrangendo fotografias, performances, colagens, textos, desenhos e vídeos. Correspondem, sobretudo, a uma investigação artística profunda sobre as diversas facetas do trauma colonial e sobre o potencial de imaginação para além dele. 

Foi daí que foi gerado o Ensaio possível, uma conversa em formato de podcast, que me permitiu convidar outras pessoas a sentarem comigo e a refletirem sobre as consequências do trauma colonial que experienciamos e sentimos nas suas mais variadas nuances. 

Esse convite não é apenas feito para mim e à pessoa que faz acontecer a conversa comigo. Na verdade, é um “puxar a cadeira” para uma conversa coletiva, de todos nós, de um país. 

Embora o projeto tenha sempre acontecido em prol de um diálogo aberto sobre as consequências do colonialismo, refletindo o posicionamento de muitos e muitas participantes, em uma perspectiva “racismo versus classe”, o podcast me possibilitou, não só a nível individual, mas também coletivo, fazer todas as perguntas desconfortáveis, que, muitas vezes, não são feitas e que implicam uma ignorância sobre a nossa história. 

Tornou-se, portanto, um lugar seguro para falar sobre o não mencionado, o não discutido, o que sentimos na pele. Talvez seja pelo Ensaio Possível que nós possamos realizar outras falas, diferentes dos “linguajares” aprendidos.

Fique por dentro

O Ensaio Possível tem como objetivo continuar a pesquisa artística relacionada à colonialidade e, para tal, foi construído sob a forma de um podcast, com entrevistas estruturadas por Pamina Sebastião e com a participação de diversas pessoas que, ao longo dos vários programas, discutem acerca das questões de gênero, raça e de classe, no contexto luandense. 

A primeira temporada do podcast questionou, a partir de seis expressões usadas nas redes sociais e no cotidiano,  a forma como a(s) colonialidade(s)¹ permanecem para além do que foi a ocupação colonial portuguesa. É sobre este ambiente político pós-colonial e os seus “linguajares” que possíveis motivações e manutenções dessas expressões, no contexto político angolano atual, foram abordadas, alargando as possibilidades de reflexão e de cura.

¹ Reconhecendo Aníbal Quijano como o pensador do conceito, mas preferindo a definição de Maldonado-Torres (2010, p. 97), definimos colonialidade como: “A colonialidade é diferente do colonialismo. Colonialismo denota uma relação política e econômica em que a soberania de uma nação ou de um povo repousa sobre o poder de outra nação, o que faz de tal nação um império. A colonialidade, em vez disso, refere-se a padrões de poder de longa data que surgiram como resultado do colonialismo, mas que definem a cultura, o trabalho, as relações intersubjetivas, e a produção de conhecimento muito para além dos limites estritos das administrações coloniais. Assim, a colonialidade sobrevive ao colonialismo. É mantida viva nos livros, nos critérios de desempenho académico, nos padrões culturais, no senso comum, na auto-imagem dos povos, nas aspirações de si mesmo, e em tantos outros aspectos da nossa experiência moderna. De certa forma, como sujeitos modernos respiramos a colonialidade a toda a hora e todos os dias”. Maldonado-Torres, N., On The Coloniality of Being, 2010.

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