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Publicado em

12/05/2023

TAFUA – Canções da escravatura entre Angola e São Tomé e Príncipe

Por Raquel Lima*

Os vestígios de violência do colonialismo e da escravatura continuam presentes na memória de pessoas outrora escravizadas e na pós memória de seus e suas descendentes. Uma das formas para analisarmos essa presença é a oratura – conceito criado pelo linguista ugandês Pio Zirimu, nos anos 60 – um “vasto campo do conhecimento em que a informação e as mensagens culturais são transmitidas verbalmente de uma geração para a seguinte. Um corpo complexo de artes orais criado para recordar, honrar, e preservar o passado” (Akínyẹmí, 2015).

A  partir da oratura, é possível compreender a conjuntura de opressão a que as pessoas escravizadas estavam sujeitas, mas também sobre os seus quotidianos, rituais, opções linguísticas e sementes de resistência e de organização coletiva. Exemplo disso é a existência da tafua, presente na roça Monte Café, em São Tomé e Príncipe. A tafua é uma manifestação cultural presente na ilha, desde o início do século XIX até ao presente, chegada com pessoas escravizadas de Angola, e que inclui canções, música instrumental e dança.  Apesar de ter sido difícil datar a entrada da tafua na ilha, esta data refere-se à fundação da Roça Monte Café (1858) e consequente escravização de mão-de-obra de Angola.

Maria Carlota Dua e Luís Nascimento – Praticantes da tafua na Roça Monte Café, em São Tomé e Príncipe

Cada vez menos exercida, a tafua é uma manifestação, considerada, por alguns praticantes, como em vias de extinção. Para Carlota e Luís, por serem descendentes de escravizados/as angolanos/as e praticarem uma manifestação cultural deles/as herdada, são vistos pela sociedade são-tomense como tongas (descendentes dos trabalhadores contratados) e a tafua menos integrada como parte da identidade nacional do país. Segundo os seus relatos, também não é bem-vinda nas igrejas, pois é considerada um ritual maléfico.

As tensões em torno da tafua permitem-nos sondar percepções sobre a estratificação social, na base de “invenção de etnias”, classes, religiões, e outras continuidades históricas que prevalecem do colonialismo, e compreender como a escravatura moldou as sociedades africanas e diaspóricas, mas também como as comunidades locais continuam a suportar os seus legados. 

As canções da tafua são principalmente sobre trabalho forçado, famílias fragmentadas, lamentos sobre o sistema de escravatura, saudades, mas se olharmos mais a fundo, são também sobre esperança, generosidade e cura, face à política do medo promovida durante a escravatura.

Navio
O navio onde vinha a minha mãe
Eu hoje recebi a notícia que ela partiu
Os outros que vinham de Angola
Que foram escolhidos pelas orelhas
Socorro!
O navio entrou em sofrimento
Ai mamã, mamã
Eu hoje também estou tombada
O navio onde vinha a minha mãe
Socorro!
É um momento de tristeza
Eu hoje estou triste
A injustiça dos homens
Deus é que sabe
Minha irmã mais nova

Um aspecto que  fascina, em torno do tafua, é o fato das canções serem cantadas numa mistura de várias línguas de Angola: Kimbundu, Umbundu, Vimbundu, Kikongo, entre outras línguas que eram faladas durante as rotinas diárias das pessoas na roça. Esse fenómeno comprova que as pessoas escravizadas foram capazes de criar os seus próprios códigos e línguas, e que esses eram muitas vezes ferramentas de resistência face às lógicas coloniais. 

Outras canções, pelo seu ritmo, cadência, repetição e conteúdo, seriam certamente canções de trabalho forçado, para motivar o povo escravizado a continuar a trabalhar em conjunto, na esperança da chegada de um momento de repouso e nutrição.

Sacalundu
Meu Deus
O sino tocou
E já vamos receber a comida
Sentem-se
Não chorem
Porque o sino tocou
E vamos receber a nossa comida

Continuam a ser poucas as ocasiões em que o tafua é programada em eventos que remuneram devidamente os/as seus/suas participantes, de maneira que acaba por ser apresentada de forma mais precária, em funerais, que é um dos contextos a que se associa.

Em Monte Café, são cerca de vinte os praticantes ativos desta modalidade cultural, sendo que alguns jovens têm participado no âmbito escolar. Contudo, o facto de não falarem nem compreenderem as línguas cantadas, constitui “um passo significativo para o desaparecimento progressivo da nossa identidade cultural.” (Salvaterra, 2009)

Face a este cenário, torna-se urgente elaborar outras concepções mais humanizadas de patrimônio. Como podemos valorizar os recursos culturais como humanos e não apenas como econômicos? Que caminhos podemos imaginar para a preservação dos direitos humanos destas bibliotecas vivas? E como inscrever essas reflexões e práticas no processo inacabado da descolonização?

Referências bibliográficas

Akínyẹmí, Akíntúndé (2015), Orature and Yorùbá Riddles, NY: Palgrave®

Salvaterra, Jerónimo (2009). Mangungo: Mitos e cultura santomenses. São Tomé e Príncipe: Jerónimo Salvaterra e Centro Cultural Brasil – São Tomé e Príncipe

*Raquel Lima, poeta e artista transdisciplinar, licenciada em Estudos Artísticos – Artes Performativas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (2008) e doutoranda em Estudos Pós-Coloniais no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. A sua investigação centra-se em oratura, escravatura e movimentos afro diaspóricos, tendo coorganizado a Conferência Afroeuropeans: Black In/Visibilities Contested (2019). Tem apresentado o seu trabalho académico em diversas conferências internacionais, com destaque para a Conferência Authoring Human Rights in West Africa and beyond: Expressions of slaveries in Literature (texts) and the Arts (visuals) na Universidade de Cape Coast no Ghana (2023), e a Conferência Decolonial Remains: Scrutinizing African Studies in Africa and the Unfinished Business of Decolonization, na Universidade de Ibadan na Nigéria (2022). Em 2022, foi palestrante na Bienal de Veneza no evento Loophole of Retreat e keynote speaker da sessão de abertura do Congresso Mundo de Mulheres em Moçambique. Publicou o livro Ingenuidade Inocência Ignorância (2019), e co-fundou a UNA – União Negra das Artes (2021). O seu trabalho está na encruzilhada entre arte, ativismo e academia. 

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