Publicado em
23/07/2026
Cabe a nós, como sociedade, entender que não podemos mais tratar esses códigos dos algoritmos como algo neutro

Foto: Jardel Rodrigues/SBPC
Entrevista da presidenta da SBPC, Francilene Procópio Garcia, à jornalista Mônica Tarantino
Entre os temas estratégicos para o futuro do país, a ciência ocupa papel central, sustentando uma democracia baseada em decisões informadas e políticas públicas fundamentadas na exigência da sociedade e também na produção científica das universidades e dos centros de pesquisa brasileiros. Essa produção gera evidências confiáveis para orientar decisões que impactam a sociedade. Eleger parlamentares comprometidos com princípios científicos e com a democracia é essencial para enfrentar os desafios contemporâneos.
O cenário atual é marcado por desinformação, expansão das inteligências artificiais e intensa disputa de narrativas nas plataformas digitais, o que aumenta o risco de escolhas coletivas guiadas por distorções e não por fatos. Nesta entrevista, a cientista Francilene Procópio Garcia(*), eleita em 2025 para presidir a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, explica a relação entre ciência e democracia e comenta temas estratégicos, como regulação das plataformas digitais, ampliação da transparência da informação e diversidade na produção do conhecimento.
Revista Casa Comum: Como a ciência influencia a democracia e vice-versa em um país que vive ciclos de desinformação que afetam a confiança pública, inclusive na própria ciência e na democracia?
Francilene Garcia: Democracia e ciência são indissociáveis. Desde sua criação, em 1948, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), uma senhora de quase 80 anos, mantém um compromisso com a defesa do Estado Democrático de Direito e com o uso de evidências e fundamentos científicos como base da vida pública, sociedade e para escolhas e decisões mais consistentes de dirigentes em um modelo democrático, como o nosso.
Na crise sanitária da covid-19, vimos uma presença muito forte de pesquisadores e cientistas mostrando a importância da informação qualificada chegar ao dia a dia das pessoas, inclusive antes que a vacina fosse disponibilizada. Foi um momento crítico de sobrevivência da sociedade, em que também proliferaram teses como o uso da cloroquina, medicamento ineficaz contra essa doença. Nesses momentos de cautela e inquietação, a comunidade científica chega para sustentar a vida humana, para explicar a importância das evidências científicas e, quando elas ainda não existem, para evitar a disseminação de informações falsas. Outro caso recente é o da polilamina, apresentada como uma possível alternativa para ajudar pessoas com lesões medulares graves a recuperarem funções neurológicas. É crucial que a população entenda que se trata de um experimento em andamento e que, enquanto não forem concluídas todas as etapas exigidas pela ciência e pelos órgãos de regulação, não é possível afirmar que o tratamento é eficaz, que é seguro ou que a cura está assegurada. Nesse sentido, temos trabalhado muito fortemente com redes de publicações, como vocês, e com as nossas próprias mídias naquilo que é melhorar a qualidade da informação que circula. É importante dizer que a ciência deve chegar junto à sociedade para operar em prol de melhores informações, com efeitos concretos na vida das pessoas e com as questões trazidas da sociedade.
Revista Casa Comum: Por que a nossa sociedade é tão vulnerável à desinformação, ao negacionismo e às fake news, fenômenos que tendem a se intensificar em períodos eleitorais?
Francilene Garcia: Vivemos, do início do século XXI para cá, uma enxurrada de informação. A maior presença das pessoas nas redes sociais, por meio de mídias extremamente acessíveis, fez com que esse volume passasse a interferir na própria capacidade crítica sobre os fatos. Basta cada um de nós ter acesso, no celular, a canais de comunicação, e podemos não só contribuir para o espalhamento das informações que recebemos, mas também agregar conteúdos não qualificados que seguem se propagando. As pessoas perdem, aparentemente, a capacidade de criticar.

“O que distingue um país comprador de tecnologia de um país que a desenvolve é justamente a capacidade de transformar conhecimento em autonomia.”
Mais fatores participam desse processo. As bolhas informacionais, por exemplo, reúnem pessoas que defendem determinados princípios — seja por conduta comportamental, seja por pertencerem a um grupo — e passam a consumir informações dentro de uma bolha predeterminada pelos algoritmos. Elas consomem essas informações, ajudam a propagá-las e ainda geram engajamento para o modelo de monetização dessas plataformas, o que acaba colocando a pessoa mais profundamente dentro dessas bolhas. Há, ainda, uma interferência muito direta e silenciosa dos algoritmos na forma como a política chega às pessoas, influenciando a informação e as próprias relações sociais. Nós não vamos viver sem os algoritmos, mas eles devem atuar como ferramentas, e não se converter em instituições que passam a estabelecer regras. O que temos feito ajuda a tentar romper esses modelos informacionais formados a partir de crenças não comprovadas cientificamente, trazendo informações de qualidade, acessíveis e comprovadas.
Revista Casa Comum: A SBPC fez um documento defendendo a regulação das redes sociais. O que significa essa regulamentação?
Francilene Garcia: Temos um avanço exponencial dos algoritmos e das plataformas nas nossas vidas. A gente precisa reconhecer, como sociedade, que os algoritmos presentes em várias das nossas atividades rotineiras têm, ali por trás, uma infraestrutura. Isso acontece, por exemplo, quando você se dirige a um plano de saúde para algum atendimento, quando você faz uma transação no mercado online ou quando solicita um crédito para alguma ação que vai fazer, entre outras situações. Baseados em algumas regras estabelecidas por quem gerou os seus códigos, esses algoritmos passam a regular nossos comportamentos e a distribuir decisões baseadas em critérios que não são transparentes. Então, há uma opacidade nesses algoritmos, que são verdadeiras instituições sociais, como dizem pesquisadores brasileiros.
“Cabe a nós, como sociedade, sobretudo a comunidade científica, entender que não podemos mais tratar esses códigos dos algoritmos como algo neutro nem a gestão desses códigos, inclusive porque, em alguns casos, eles estão submetidos a corporações estrangeiras. Nesse contexto, a regulação ajuda a dar mais transparência aos processos de decisão estimulados no âmbito dessas plataformas. Não é censura. É preciso ter um debate público mais qualificado sobre o impacto social dessas plataformas.”
Revista Casa Comum: Na prática, o que diferencia um país que compra tecnologia de um país que a desenvolve? Pode falar sobre o que é ter soberania tecnológica?
Francilene Garcia: A soberania tecnológica de um país passa pela sua capacidade de formular boas políticas públicas na área da educação e no desenvolvimento científico, com capacidade de continuamente investir em ciência e em autonomia.
É importante dizer que, na ciência de fronteira, o Brasil está entre os 15 principais produtores de conhecimento do mundo. Temos, como nação, uma presença certamente privilegiada em relação à boa parte dos países. Mas a gente precisa ir além disso. Precisamos ser não só produtores de conhecimento, mas ter a capacidade de transferir esse desenvolvimento, esse conhecimento, para a vida das pessoas. Estamos falando também de não deixar que as decisões sobre dados, recursos naturais e tecnologias críticas sejam definidas de fora para dentro, pois elas devem ser orientadas pelas necessidades do próprio país, fortalecendo a autonomia para decidir seus próprios caminhos.
“Se nós temos estudos científicos comprovando determinados impactos, ignorá-los significa tomar decisões com base em opiniões e não em evidências.”
Assim, o que distingue um país comprador de tecnologia de um país que a desenvolve é justamente a capacidade de transformar conhecimento em autonomia, com pesquisa, inovação e soluções próprias para áreas estratégicas. Também é preciso haver um pouco mais de atenção para as tecnologias que colocam os grandes desafios do país à mesa. Quando o atual governo lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, por exemplo, reconheceu que, no campo da transformação digital — hoje tão presente nas organizações públicas e privadas e na vida das pessoas —, é fundamental que o país tenha autonomia e soberania.
Revista Casa Comum: O Brasil tem exemplos de soberania tecnológica bem-sucedidos?
Francilene Garcia: O Sistema Único de Saúde (SUS), na sua concepção, é um exemplo concreto de soberania tecnológica e de política pública baseada em ciência. É um sistema que organiza informações, produz dados e orienta decisões em escala nacional. Nenhum país tem uma estrutura informacional dessa magnitude.
Além disso, temos exemplos na área de energia, na agricultura e também em tecnologias ligadas à exploração de recursos naturais, como no caso das terras raras. É importante dizer que esses elementos mostram o quanto o Brasil tem capacidade de desenvolver soluções próprias para desafios complexos. Ainda assim, precisamos investir de forma contínua para consolidar essas capacidades e garantir que elas estejam a serviço do desenvolvimento social e econômico do país.
Revista Casa Comum: Como o negacionismo científico impacta decisões políticas concretas no Brasil?
Francilene Garcia: A sociedade precisa estar mais conectada com os temas científicos, especialmente quando eles impactam diretamente a vida das pessoas. É importante dizer que o negacionismo não se restringe ao campo das ideias, mas se traduz em decisões políticas que podem comprometer o futuro do país.
Vimos isso, por exemplo, em debates recentes no Congresso Nacional, em que evidências científicas foram desconsideradas em temas fundamentais, como a questão ambiental. É importante dizer que, se nós temos estudos científicos comprovando determinados impactos, ignorá-los significa tomar decisões com base em opiniões e não em evidências. Isso tem consequências diretas na vida da população e no desenvolvimento do país.
Revista Casa Comum: No podcast da SBPC, a senhora disse que promover a diversidade é também uma forma de combater o negacionismo, corrigir rotas, ampliar visões e melhorar a inovação na ciência. Por quê?
Francilene Garcia: A escuta, a inclusão e o diálogo com a sociedade são fundamentais para avançar na política pública e nos processos de pesquisa e inovação que geram impacto na sociedade. Quando falamos da necessidade da preservação da floresta, por exemplo, estamos falando da escuta de comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas. A ciência indígena, por exemplo, que chamamos de conhecimento tradicional, precisa dialogar fortemente com a ciência fundamentada nas pesquisas desenvolvidas nas universidades, para enfrentar alguns problemas ligados à pauta ambiental discutida na COP30. Diversidade, mesmo na ciência em linha de fronteira, quer dizer incluir não só nos processos investigativos, mas também no diálogo com os diferentes atores da sociedade e na incorporação de seus saberes.

Revista Casa Comum: A senhora gostaria de dizer algo para concluirmos esta conversa?
Francilene Garcia: Talvez a gente possa dizer que a sociedade precisa sair em defesa da ciência, porque a ciência ajuda e acaba sendo um guia para que políticas públicas possam ser aprovadas, melhoradas ou até rejeitadas em algumas situações, como nos momentos em que enfrentamos ondas de negacionismo. É importante que a gente reforce o papel da ciência na vida das pessoas, de cada um e de cada uma e também das futuras gerações. E que a democracia é baseada em ideias e diálogo. O crescimento se dá a partir da possibilidade, transparente e objetiva, de partir de confrontos para projetar o futuro. É com esse diálogo, com essa capacidade de encontro, mesmo na não convergência de ideias, que a gente consegue mediar e moldar uma sociedade melhor. Uma sociedade silenciada ou pasteurizada, em cima de bolhas informacionais, não contribui em nada para a vida do país nem para a vida de ninguém.
Mônica Tarantino é jornalista especializada em saúde e ciência. Recebeu, da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, o prêmio “Jornalista Tropical”, título que aprecia muito