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Publicado em

06/06/2024

Desumanizar e desinformar são duas das principais estratégias por trás de discursos racistas nas redes, aponta pesquisa  

Levantamento realizado no âmbito do Observatório de Racismo nas Redes, projeto do Aláfia Lab, acompanhou 37 perfis de personalidades negras no Instagram e Youtube e os ataques e ofensas racistas que receberam entre 2023 e 2024.

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No início do mês de junho, o time de futebol espanhol Real Madrid conquistou mais um título da Champions League. A vitória fez com que aumentassem ainda mais os rumores de que, um de seus jogadores, o brasileiro Vinicius Júnior, ganhará a bola de ouro, prêmio que reconhece o melhor jogador da temporada. 

O elogiado desempenho esportivo do jovem de apenas 23 anos, entretanto, não é o centro do debate em muitas rodas em que seu nome é citado. Vini Jr é alvo constante e recorrente de ataques racistas, muitos deles proferidos por torcedores espanhóis. Em 2023, por exemplo, um boneco com a camisa do jogador foi pendurado – simulando um enforcamento – em uma ponte na cidade espanhola. A torcida da equipe do Valência, por sua vez, chamou o atleta de mono – macaco, em espanhol – durante uma partida. 

Todo esse contexto para explicar que a desumanização – ou seja, chamar Vini Jr. de macaco, por exemplo, ou comentar desenhos de banana em suas postagens nas redes sociais – é apenas uma das quatro estratégias principais utilizadas por discursos racistas nas redes. A descoberta é do estudo Racismo pra quê? As estratégias dos discursos racistas nas redes, uma iniciativa do Aláfia Lab, laboratório de pesquisa que se concentra nas áreas que entrelaçam transformação digital e social.

Conheça 

‘Transformar o digital para promover transformação digital’. O mote do Aláfia Lab traduz o objetivo de seus projetos de compreender não apenas as dinâmicas online, mas como elas impactam concretamente a vida das pessoas. Com sede em Salvador (BA), sua atuação divide-se em quatro eixos: pesquisa e produção de conhecimento inovador sobre fenômenos na interface entre política digital e a vida cotidiana; compartilhamento de conhecimento com a sociedade civil; advocacy; e mídia, a partir da produção de coberturas jornalísticas sobre questões ligadas ao fenômeno da desinformação. 

A pesquisa Racismo pra quê? As estratégias dos discursos racistas nas redes, lançada em maio deste ano, integra o Observatório de Racismo nas Redes (link), um projeto com apoio do Instituto Ibirapitanga que visa ampliar a capacidade de monitoramento e combate a conteúdo racista publicado em redes sociais. 

Além da mais recente pesquisa, tema dessa matéria, o Observatório conta com outras três produções: O racismo não anda só: as cinco dimensões do racismo nas redes; Racismo e futebol: como a questão racial domina a conversa sobre jogadores no Twitter; e Racismo invisibilizado: o caso Moïse nas Redes. 

Confira todas neste link

As quatro estratégias 

A equipe de pesquisadores do Aláfia Lab analisou comentários e menções direcionadas a 37 perfis de personalidades negras no Instagram e Youtube em conteúdos publicados entre 01 de outubro de 2023 e 29 de fevereiro de 2024. 

A partir disso, identificou que os autores das ofensas usam de quatro principais estratégias nos discursos racistas: 

  1. Desumanizar: publicações que abordam pessoas ou grupos por meio de estereótipos, discriminação e negação de direitos básicos, com base em sua raça ou etnia;
  2. Desqualificar: posts que negam a validade ou valor das experiências, perspectivas ou identidades de indivíduos ou grupos raciais;
  3. Invisibilizar: publicações que atacam a pauta racial em busca de invisibilizar as discussões em torno do racismo;
  4. Desinformar: posts que utilizam informações falsas ou descontextualizadas a fim de atacar e descredibilizar pessoas, grupos ou questões raciais.

A publicação destrincha cada uma dessas estratégias. 

No caso da desumanização, aponta que o futebol é o esporte com o maior número de casos de racismo envolvendo atletas, tanto no Brasil quanto no exterior. A publicação analisou as redes sociais de Vini Jr, onde 91% das postagens em sua conta no Instagram foram alvo de ataques racistas no período de outubro de 2023 a fevereiro de 2024. Desumanizar o atleta, nesse caso, envolve a publicação de emojis de macacos e bananas na sessão de comentários de suas redes, uma estratégia para contornar a moderação da plataforma. 

Quanto à desqualificação, a pesquisa cita o caso de publicações do ator Lázaro Ramos ao divulgar seu novo filme, que foram recebidas como uma “tentativa política de ‘lucrar’ em cima do tema”, cita o relatório. Para os pesquisadores, o fato de que internautas convocaram um boicote ao filme deve-se a uma “associação de que exaltar a beleza negra, a cultura e seus representantes é algo pejorativo, negativo e ligado ao espectro político da esquerda.” 

A pesquisa analisa, ainda, que o ataque a pessoas negras acontece em diferentes frentes: com avaliações físicas negativas – do corpo, do cabelo, de julgar a beleza -, de criticar as vestimentas, os modos de expressar e até mesmo a religiosidade, o que configura o racismo religioso, praticado majoritariamente contra religiões de matriz africana. 

Outra estratégia utilizada é a invisibilização. Para abordá-la, o relatório cita um caso que ocorreu em fevereiro deste ano em Porto Alegre, em que um motoboy negro, ao ser agredido por um homem branco, é preso e colocado no camburão da viatura policial, enquanto o homem branco agressor obtém permissão para ir até sua casa para buscar documentos. Na delegacia, enquanto o primeiro foi indiciado por lesão corporal leve e desobediência, o segundo foi indiciado apenas por lesão corporal. As redes sociais foram tomadas de publicações com comentários que falavam em racismo institucional e outros que buscam demais explicações para corroborar a ação da polícia na situação. 

“O segundo argumento aciona a carta do vitimismo e da militância, um modo de colocar a culpa do racismo em quem é vítima ou em quem aponta o problema. Nesses casos, é comum encontrar comentários que colocam na militância tons negativos ou que associam a pauta a uma tentativa de lacração, inclusive utilizando tom de deboche para descredibilizar tanto o assunto quanto a própria jornalista”, traz trecho do relatório. 

Por fim, a estratégia de desinformação usa de informações falsas ou descontextualizadas para deslegitimar os movimentos antirracistas e se apoia em estratégias de engajamento para se amplificar. Nesse aspecto, o relatório traz uma publicação da escritora e professora Djamila Ribeiro sobre o período pós-escravidão e a falta de políticas de reparação. Um dos comentários defendeu que “os negros que escravizam os negros” e, por isso, não seriam necessárias medidas de reparação histórica, taxada como “mimimi”. 

Fique por dentro 

O relatório Racismo pra quê? As estratégias dos discursos racistas nas redes está disponível na íntegra neste link. Acesse e compartilhe em suas redes. 

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